Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Zé Metade, personagem de Mário de Carvalho

Personagem com grande relevância na ação de Casos do Beco das Sardinheiras, Zé Metade participa dos mais diversos eventos nos casos relatados, podendo ser considerada um dos tipos sociais mais relevantes dos casos. Para isso contribuem os procedimentos da sua inserção na história dos Casos do Beco das Sardinheiras, os tempos do “em uma ocasião”, que remetem ao “sinal textual de ficcionalidade mais óbvio”, o “era uma vez” (Eco, 2004: 126), e as relações que mantém com outras personagens, desde suas críticas aos outros moradores até às suas atitudes heroicas.

Zé Metade se destaca em diversos planos: pertence ao limitado número de personagens com caráter testemunhal, percebendo as modificações no beco, como acusador ou solucionador; aparece como o cavaleiro ou herói, capaz do autossacrifício para ajudar alguns moradores do beco; caracteriza-se, diversamente de outras personagens, também pela capacidade musical e hábito alimentar; participa das decisões a serem tomadas no e para o beco das sardinheiras.

As diferentes circunstâncias narrativas sobrepõem-se e intercalam-se; seu conjunto forma histórias que se desenrolam ao longo dos casos, permitindo que os padrões de figuração da personagem sejam desenvolvidos a partir de um fato ou fenômeno exagerado, passível de explicação lógica – “[…] Zé caiu-lhes mesmo a meio dos volteios. Ali ficou cortado em dois, sem conserto, busto para um lado, o resto para o outro” (Carvalho, 1991: 17) –, mas com uma latente anunciação da dúvida e do excesso, próprios do fantástico lato sensu – “O Zé é assim chamado desde que lhe aconteceu aquela infelicidade: quis separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro quando eles se envolveram à facada na esquina dos Elétricos […]. Ambos usavam grandes navalhas sevilhanas…” (17).

(Luciana Silva, “Zé Metade”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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Pessoas de Livro em acesso livre

O livro de ensaios que agora se publica reúne um conjunto de textos diretamente relacionados com  o projeto de investigação “Figuras da Ficção” que, nos últimos anos, tenho coordenado no Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Faculdade de Letras de Coimbra. Como unidade de investigação financiada e regularmente avaliada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o CLP integra um conjunto de investigadores envolvidos em diversos projetos de pesquisa, incluindo aquele que foi mencionado.

No caso de “Figuras da Ficção”,  cerca de vinte investigadores têm participado regularmente nas atividades do projeto, juntando-se a estes outros mais que, por se encontrarem fora de Portugal (em particular no Brasil), só episodicamente podem facultar a sua colaboração ao que regularmente vamos fazendo: colóquios, workshops, conferências, etc. No final do seu percurso, o projeto “Figuras da Ficção” pretende chegar a um Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, obra já em curso de preparação  (…).

Conselheiro Acácio, por Bernardo Marques

Centrando-se na personagem, nos seus modos de existência ficcional e paraficcional, nas suas figurações e nos seus avatares, o projeto “Figuras da Ficção” e, decorrentemente, este livro tratam de revalorizar a fundamental categoria narrativa que aqui está em equação. Durante décadas, a personagem viveu na penumbra para que foi relegada por desenvolvimentos da teoria literária que preferiram, com maior ou menor justificação epistemológica, centrar-se noutras categorias da narrativa. Nos últimos vinte anos, os estudos narrativos, tendo colhido muitas das conquistas conceptuais e metodológicas da narratologia dos anos 80 do século passado, redescobriram na personagem um apreciável potencial de investimento semântico, de dinamismo transficcional e de articulação intercultural. Por isso e com alguma ironia, David Herman, um dos protagonistas dos estudos narrativos  da  atualidade, declarou que os boatos sobre a morte  da narratologia foram claramente exagerados.

A redescoberta da personagem conduziu a ponderação teórica e os seus efeitos operatórios a outros terrenos, para além  da ficção  literária. Não impede isto que se reconheça  que é na ficção literária que a personagem continua a exibir tudo o que dela faz uma decisiva categoria da narrativa. Mas podemos continuar a falar da narrativa, da personagem e das suas figurações, quando estudamos o cinema, o discurso de imprensa, as narrativas televisivas, os videogames, a publicidade, a historiografia, a hiperficção, a banda desenhada, o romance gráfico e até mesmo a comunicação  quotidiana em que a narrativa se “naturaliza” a cada momento. Acudindo a todas estas (e a outras ainda) hipóteses de trabalho, os modernos estudos narrativos convocam, em fecundo movimento interdisciplinar, os estudos mediáticos, as ciências cognitivas, a cibercultura, os estudos femininos, os estudos comparados, os estudos culturais, etc.

(Da “Nota Prévia” a Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. 3ª ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018; obra em acesso livre aqui)

 

 

 

 

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Um dicionário que faltava

No ano já distante de 1987, dois jovens estudiosos da Literatura e da Língua (Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes), traziam a público um Dicionário de Narratologia.

O citado livro preencheu decerto uma lacuna importante numa época em que os estudos literários e os estudos linguísticos convergiam na oferta formativa das universidades, partilhando métodos e objetivos.  Após ter sido reeditado por várias vezes, em Portugal e no estrangeiro, poderia supor-se que o citado Dicionário tinha cumprido a sua função. De forma algo inesperada, porém, C. Reis (já sem a companhia da colega) decidiu empreender um vasto esforço de renovação e transformação, que se traduz no livro realmente novo que acaba de sair.

É justo destacar, em primeiro lugar, que esta obra resulta de um ato de vontade determinada, que exigiu um trabalho longo, escrupuloso e porfiado, onde confluem investigação ampla e exigente, espírito seletivo e apurado sentido pedagógico.

Redigir cada um dos verbetes que fazem parte deste Dicionário implica conhecimento profundo e atualizado das matérias em causa.  Mas exige ainda outros dois requisitos preciosos: rigor e sentido de equilíbrio. Sobre conceitos como analepse, banda desenhada, cinema, identidade, interdisciplinaridade, narrativa digital ou personagem (para citar apenas alguns dos artigos mais extensos que figuram na obra) é bastante mais difícil escrever um artigo de 3 000 caracteres do que um ensaio de 20 000. Nos artigos maiores como nos mais breves, adivinha-se o ideal que norteou o autor: não podia faltar o essencial e não devia subsistir o dispensável.

J. A. Cardoso Bernardes, “Um Dicionário que faltava”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1260, 16 a 29 de janeiro de 2019, pp. 18-19;(continuar a ler)

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Rodrigo de Sousa, personagem de Garrett

Personagem do último romance (inacabado) de Almeida Garrett, Rodrigo de Sousa é um emigrante português radicado no Brasil. A ação passa-se no ano 1839, em Itahé, algures no Recôncavo Baiano. Como figura social, o visconde, talvez o primeiro “brasileiro” da nossa literatura romântica, difere muito dos estereótipos mais tarde popularizados pela novelística camiliana: proprietário de um vasto domínio agrícola, “senhor de inumeráveis engenhos, de minas de brilhantes […] e capitalista”, é um homem culto, de costumes urbanos e afidalgados, características muito pouco consentâneas com o espaço sertanejo.

A família – o visconde, a mulher e a filha, ambas igualmente cultas e elegantes – habita um palácio excêntrico praticamente isolado do mundo, tendo sob sua dependência numerosos criados e escravos negros. Além destes, reside também nos limites da propriedade uma pequena comunidade índia que disfruta de certa autonomia. Os dois grupos étnicos não se relacionam bem, pois os índios desprezam os negros, sendo fator de harmonia a tutela paternal dos viscondes. Rodrigo administra com humanidade todo este utópico microcosmo, auxiliado pela ação filantrópica da mulher. Os escravos respeitam-no, os índios livres toleram-no: graças às suas qualidades de caráter, mas também pelo facto de ser casado com uma brasileira nativa, o colonizador branco (“o estrangeiro”) não é visto por eles como um opressor.

Ao contrário do que sucede com as outras personagens, que dispõem de capítulos dedicados, a caraterização de Rodrigo é essencialmente indireta e descontínua. A primeira apresentação faz-se através da perspetiva de um visitante francês, um botânico amador que ali passa alguns dias em viagem de estudo. O visconde aparenta ter cerca de 40 anos, e a sua atitude desenvolta impressiona bem, de “uma cortesia fashionável” mas de “fisionomia aberta e cordial” (p. 222). Em conversas de circunstância mostra-se cosmopolita mas diz-se saudoso da sua pátria, cuja situação política o desgosta. É também sob o olhar surpreendido (e divertido) do velho fidalgo francês que se vai conhecendo o exótico palácio dos viscondes e o ambiente ultrarrefinado que cultivam, como se estivessem em Londres ou em Paris. A imagem social do anfitrião não fica, porém, comprometida com este contexto algo paródico, pois não tem maneiras de parvenu – antes de “uma simplicidade de gran’senhor, familiarizado com a opulência e superior a ela” (p. 242). Seguro de si, mostra-se desprendido em relação aos luxos britânicos da casa, decorada ao gosto caprichoso da mulher.

(Maria Helena Santana, “Rodrigo de Sousa”, in  Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

 

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Dicionário de Estudos Narrativos: apresentação, 4 de dezembro

No próximo dia 4 de dezembro, pelas 18 horas, terá lugar a apresentação do Dicionário de Estudos Narrativos,  na Almedina Rato (Rua da Escola Politécnica, 225; Lisboa). A apresentação estará a cargo de Helena Carvalhão Buescu.

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Dicionário de Estudos Narrativos

Inscrevendo no seu título a expressão estudos narrativos, este dicionário não busca apenas contemplar uma área científica com recorte nítido. Aquela expressão sugere também que esta não quer ser tão-só uma obra de teoria, no sentido mais forte e consequente do termo; ela encerra também (e muitas vezes explicita-as) propostas de trabalho, ou seja, de estudo da narrativa – ou das narrativas.  Vai neste plural muito daquilo que hoje está adquirido pelos estudos narrativos: num mundo que conhecemos, representamos e organizamos sub specie narrationis, é pertinente que muitos relatos e não apenas os literários sejam objeto de análise; neles – em contexto televisivo ou na Internet, nas páginas de um conto ou numa notícia de jornal –, está muito do que somos, como pessoas e como coletividade. Sem narrativas não sobreviveríamos, porque a nossa experiência do tempo, do espaço e da relação com os outros ficaria irremediavelmente mutilada.

E contudo, não deve estranhar-se que os exemplos e as referências a narrativas que aqui se encontram venham predominantemente do campo literário. Sem contrariar o que  fica dito, essa insistente presença (insistente, não exclusiva) traduz o que para mim e para muitos é inquestionável: provêm da literatura os mais complexos e densos textos narrativos a que a condição humana deu origem. Há milénios que assim é e assim continuará a ser por muito tempo, para além de preferências pessoais (a minha é de ordem literária, evidentemente) e de conveniências institucionais.

(C. Reis, Prefácio de Dicionário de estudos narrativosCoimbra: Almedina, 2018, 582 pp.)

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Narrador

Da figuração do narrador digo igualmente que  é dinâmica, gradual e complexa, formando um  macrodispositivo que conjuga procedimentos de feição e de alcance muito diverso: por exemplo, a simples notação do nome (“Call me Ishmael”) ou a adoção de um imperativo ético (“é essa a nossa obrigação”, declara o narrador do Memorial do Convento). Por fim –  e por agora –,  também  a figuração do narrador é eventualmente  retomada em atos de refiguração: quando um narrador literário surge reelaborado, por remediação, noutro suporte e noutro contexto mediático, ele configura-se em função dos dispositivos vigentes nesse contexto e é remodelado pela linguagem narrativa que nele se enuncia.  O caso do cinema é, neste aspeto, muito significativo, mas não é o único. Tratando-se de um medium  multimodal, a figuração (ou a refiguração) do narrador no relato cinematográfico  não se restringe  a uma voz narrativa, com a nitidez e com a individualidade próprias do narrador literário. O conceito (não absolutamente consensual, diga-se) de  narrador cinemático proposto por Seymour Chatman procura justamente dar resposta às exigências de uma figuração que decorre numa específica “ecologia” mediática; nessa “ecologia”,  o narrador, segundo Chatman, é entendido como “composto formado por uma ampla e complexa variedade de dispositivos de comunicação” (Chatman, 1990: 134), dirigidos ao canal visual e ao canal auditivo.

(extrato de “Figura, pessoa, figuração”, in Colóquio/Letras, nº 199, setembro/dezembro de 2018, p. 17).

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