Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Quarenta anos, quarenta personagens (2)

1. No nosso imaginário cultural e sempre que olhamos a ficção narrativa oitocentista, é impossível fugir à quase conflitual tensão Camilo/Eça. Transformada por vezes (e exageradamente) numa oposição dilemática – ou se é camiliano, ou se é queirosiano, sem meio termo –, aquela tensão tende a ignorar que é pelo veio das personagens que se estabelecem as diferenças mais significativas entre os dois grandes escritores. O presente texto pretende contribuir para sublinhar algumas dessas diferenças e pode ser lido como desenvolvimento do último que aqui publiquei. Em ambos e nos que se seguirão, lembro quarenta personagens nos quarenta anos do JL.

2. Continuo a referir-me ao nosso imaginário cultural e convoco duas personagens emblemáticas do mundo literário camiliano: Simão Botelho e Teresa Albuquerque. Neste par, em que obviamente há alguma coisa da temática shakespeareana do conflito familiar como condicionamento das relações amorosas, concentra-se muito daquilo que faz a singularidade da personagem camiliana: o destempero passional, a violência das relações humanas, o sofrimento do amor impossível, a rudeza de costumes ancestrais e o consabido pundonor como rígido critério de comportamento. Se excetuarmos os amores desastrosos de Pedro da Maia e Maria Monforte, temperados com adultério, fuga, suicídio e abandono da família, as relações sentimentais em contexto queirosiano traduzem-se e resolvem-se muitas vezes em sedução cínica, melancólica cedência e falhanço sem culpa explícita.

Enquanto protagonista do Amor de Perdição (1862), Simão Botelho é ele mesmo e a família que sobre ele pesa. As informações que o relato nos dá acerca do clã Botelho acentuam a origem da família e a sua antiguidade, pelos dois ramos que a formam: o de Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses e o de D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco. A acumulação de apelidos de família põe em evidência a linhagem como valor e como pré-determinação de um conflito a vir. Neste, explanam-se, pela figura de Simão Botelho, as atitudes e os modos de ser de valores impostos pelo romantismo mais estreme. Os termos em que Simão se expressa, nas cartas que dirige a Teresa, bem como a sua situação na família a que pertence, contribuem decisivamente para construir um herói romântico à portuguesa, na linhagem (mas com diferenças, claro) do Carlos garrettiano ou do Eurico herculaniano. Com tudo isso, Simão não é uma personagem estática. A rebeldia, a impulsividade e a agressividade, marcas de água do seu ethos romântico, evoluem e amenizam-se, graças ao poder redentor do amor.

A figura feminina que protagoniza a novela é a responsável pela redenção, numa configuração de mulher-anjo em que ecoa o modelo da Joaninha das Viagens na Minha Terra. Tal como Simão, Teresa de Albuquerque resiste à tirania das imposições familiares (o primo Baltasar Coutinho tem as feições do antagonista a abater – como, de facto, acontece); tal como ele, Teresa faz do amor um absoluto inatingido, num trajeto de interdições que só a morte resolve, como trágica e derradeira libertação. Convém notar, entretanto, o seguinte: em comparação com Simão, Teresa é uma personagem menos dinâmica, mas não menos afirmativa. Não sofrendo transformações visíveis, ela atravessa a história estabilizada numa atitude que complementa a posição e as decisões tomadas por Simão, seu cúmplice na revolta contra os preconceitos que impedem a relação amorosa.

3. As figurações de Simão e de Teresa, ambos regidos pelo excesso e pela síndrome da perdição, explicam uma sobrevida que vai além das páginas da novela escrita por Camilo na prisão. E assim, o teatro, o cinema e a televisão prolongaram no nosso tempo o Amor de Perdição, acentuando a proeminência de ambas as personagens no universo camiliano. De certa forma, elas ocultam até outras personagens compostas por Camilo nos anos seguintes.

(Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1290, 25  mar. a  7 abr. de 2020).

Amor de Perdição, real. de Manoel de Oliveira

 

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Quarenta anos, quarenta personagens (1)

1. Num texto publicado neste jornal há mais de dez anos, lancei estas perguntas: e se, de repente, nos cruzássemos na rua com Emma Bovary? Ou, num bar, nos sentássemos na mesa ao lado do engenheiro Tomás Manuel da Palma Bravo? Ou ainda: e se uma mulher se nos revelasse como sendo Blimunda?

Juliana, por António

As perguntas parecem absurdas, mas não o são tanto; por outro lado, elas parecem ignorar as diferenças (as fronteiras) que o senso comum atribui às personagens de ficção, quando comparadas com as pessoas que somos ou que supomos ser. Digo “supomos ser” lembrado, como estou, daquilo que em Fernando Pessoa era mais do que uma boutade, quando afirmava, na famosa carta a Adolfo Casais Monteiro: “Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos).”

2. Formulo estas especificações no início de uma série de textos em que me junto à celebração dos 40 anos do Jornal de Letras, Artes e Ideias. Exatamente porque a personagem tem presença certa num jornal de letras, proponho-me evocar, nas próximas semanas, 40 personagens da ficção portuguesa. Não necessariamente as melhores, mas as minhas 40 personagens.

Tentarei não as isolar das histórias em que vivem a sua vida imaginária; procurarei, isso sim, sublinhar a sua identidade, a sua autonomia relativa e os vários sentidos – sociais, axiológicos, históricos, etc. – que lhes estão associados. Ao mesmo tempo, convocarei alguma coisa do que tem sido o desenvolvimento de um Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa (em versão online: http://dp.uc.pt/ ), obra coletiva em que se funda muito do que aqui é dito.

3. Um dos castings mais ajustados que uma personagem de Eça de Queirós já conheceu, foi o que permitiu à grande atriz brasileira Marília Pêra dar corpo à Juliana d’O Primo Basílio, na adaptação do romance à TV (minissérie da Globo, realizada em 1988, por Daniel Filho). Tarefa complexa, desde logo, porque em Juliana modelou Eça não apenas uma parte significativa do seu pensamento social dos anos 70, mas também aquele feixe de contradições de que são feitas as grandes personagens.

Recordo: Juliana é uma figura antipática, fisicamente quase grotesca, de temperamento azedo e ressentido. Ela é “a criada, em revolta secreta contra a sua condição, ávida de desforra”, conforme Eça se lhe referiu, na conhecida carta a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878. Recordo o que se diz de Juliana, no breve retrato em que ela é apresentada: “Devia ter quarenta anos, era muitíssimo magra. As feições, miúdas, espremidas, tinham a amarelidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho” (O Primo Basílio, cap. I). A isto segue-se uma extensa caracterização com a carga das notações sociais e psicológicas que geram as ambivalências a que aludi: a tensão surda com os amos, a frustração sexual, a opressão sofrida ao longo de anos, o desejo de libertação e o mais que gera, em relação à personagem, uma relação (nossa, enquanto leitores) de atração-rejeição. Em síntese: “Registando a natureza perversa, a maldade e o ódio transbordante da sua personagem, este narrador não nos deixa esquecer, contudo, que ela é simples peça de um duro jogo de poderes. No âmbito desse jogo, recai sobre os patrões a ameaça de privacidade destruída; já a criada é atingida pela precariedade social da sua condição.” (Maria do Rosário Cunha, em “Juliana”, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa)

(Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1290, 11 a 24 de março de 2020).

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Colóquio “Figuras da Ficção 6”

Por força das várias restrições a que a crise pandémica em curso obriga, a Comissão Executiva do Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” viu-se obrigada a adiar o evento para os dias 2, 3 e 4 de novembro próximo. Mais informações aqui.

 

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Personagens em movimento: a sobrevida de Basílio & C.ª

No Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” (ver https://www.uc.pt/fluc/clp/article?key=a-7a89b362ca) terá lugar uma palestra-debate por Fernando Duarte, codiretor artístico de “Danças em Diálogo” e autor da coreografia de O Primo Basílio. Bailado em II Atos. Na adaptação que realizou, Fernando Duarte incutiu sobrevida, pelo movimento da dança, a personagens que conhecemos da leitura de um dos mais conhecidos romances de Eça de Queirós; a sobrevida de Luísa e Basílio, de Juliana e Jorge, de Leopoldina e Sebastião, no bailado que os seus corpos desenham, traduz uma outra forma de reler Eça de Queirós. E assim, O Primo Basílio, romance que tem conhecido múltiplas e inesgotáveis interpretações, surge-nos, mais uma vez, sendo ainda o mesmo e contudo já outro.

Disto e do mais que o debate suscitar falará Fernando Duarte, com o apoio de imagens e a partir da sua experiência de releitura coreografada de um relato queirosiano e de algumas das suas personagens. (ver também “Dançar Eça: O Primo Basílio em bailado”).

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Eva Lopo

Personagem central d’A Costa dos Murmúrios (1988), de Lídia Jorge, Eva Lopo é também a narradora que, pelos artifícios da memória, articula a estrutura do romance que tematiza a guerra colonial em Moçambique. A obra é composta por duas narrativas que, pela justaposição, em diálogo, confrontam os efeitos do discurso histórico-documental e do discurso ficcional. Na primeira, capítulo que abre o romance, intitulado “Os gafanhotos”, a figura “a quem todos já chamavam simplesmente de Evita” (Jorge, 2004: 10) é conhecida pela perspectiva do narrador heterodiegético, limitada ao cumprimento de seu papel: “a noiva suspirou não de cansaço ou de sono mas de deslumbramento” (Jorge, 2004: 11). O capítulo consiste no episódio de cerimônia das bodas da portuguesa Evita e do alferes português, Luís Alex, miliciano a serviço da guerra colonial em África, em fins da década de 60. A partir da focalização sobre os convidados militares e suas perspectivas sobre a guerra, são apresentados os eventos ocorridos durante a comemoração do casamento: a aparição de maciço número de negros mortos na praia, a chuva de gafanhotos e a trágica morte do noivo. Esses acontecimentos decorrem em dois dias nos arredores e, sobretudo, no terraço do Hotel Stella Maris, Beira, em Moçambique, espaço de vista privilegiada voltado ao Índico que abrigava as famílias dos oficiais durante a guerra colonial. Apesar do caráter pretensamente objetivo e descritivo dessa primeira narrativa, os raros momentos de onisciência do narrador permitem já inferir a centralidade dessa personagem na trama.

A segunda narrativa, em contraste com os princípios de exteriorização e objetividade que regem a primeira, consiste no relato feito pela própria voz de Eva Lopo. Vinte anos depois, a narradora, espirituosa e sarcástica, revela a sua versão dos fatos apresentados em “Os gafanhotos”, desconstruindo o quadro inicialmente emoldurado: “Prefere a harmonia? Eu também, é por isso que tanto estimo a paz que se respira na noite d’Os gafanhotos.” (Jorge, 2004: 69) Nos nove capítulos que dão sequência à narrativa inicial, o testemunho questionador de Eva Lopo revela, gradualmente, a transformação e o desdobramento de sua figura desde a suposta ingênua e concordante “então conhecida por Evita, o nome de som mais frágil de que há memória” (Jorge, 2004: 70), até a cínica Evita – “Oh, como Evita era cínica” (Jorge, 2004: 80), e que se torna a irônica e emblemática Eva Lopo: “estimo os países de vocação metafísica total, os que não investem na fixação de nada. (…) Aprecio imenso esse esforço de tudo apagar para se colaborar com o silêncio da Terra” (Jorge, 2004: 131).

(Ilse Vivian, “Eva Lopo”, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui)

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Giovanni Fazio

Giovanni Fazio é a personagem principal do primeiro romance de Augusto Abelaira (1926-2003), A cidade das flores, publicado em 1959. Esta obra, cuja ação ocorre em Florença durante o período de vigência do regime fascista de Benito Mussolini, integra-se na segunda fase do movimento neorrealista português e pretendeu contornar a vigilância da censura política salazarista, camuflando a descrição das iniquidades e das injustiças do regime social vigente em Portugal a coberto da apresentação em dois tempos (antes e depois da segunda guerra mundial) da situação política italiana. Como refere explicitamente Abelaira no posfácio da obra, publicado somente em edições dadas à luz no pós-25 de abril, “quando eu escrevia Florença pensava em Lisboa, quando escrevia Mussolini (que já estava morto e enterrado) pensava em Salazar” (Abelaira, 1984: 307).

Giovanni Fazio surge, tal como Abelaira refere no posfácio à segunda edição, como o representante de “uma certa classe média simultaneamente cética e otimista, mais capaz de pensar que de agir, suscetível de heroísmo na recusa, mas pouco dado ao gesto ofensivo e prático” (295-296). Assim sendo, enreda-se nos problemas da sua consciência, por perceber que a procura da felicidade individual pode ser criminosa quando tantos outros dos seus concidadãos sofrem perseguições, abdicando do seu bem pessoal a favor da comunidade (algo que, manifestamente, Giovanni nunca conseguiu fazer). Nessa medida, esta personagem anuncia um tema que, no segundo romance de Abelaira, Os desertores (1960), se assume com maior premência e visibilidade: a segurança, o conforto pessoal e os desígnios individuais tornam a classe média urbana (em que as personagens deste romancista se integram) desistente, sem coragem, vil e propensa à autocomiseração, porque os seus elementos tentam, apesar de tudo, viver uma felicidade mitigada, constrangida, uma tristeza contentinha (como aquela que poetas como Alexandre O’Neill descreverão de forma lírica e desapaixonada). Esse dilema moral é assumido por Giovanni Fazio quando reconhece que “já não vale a pena lutar, nada poderemos, fomos traídos, até por nós mesmos” (158).

(por Carlos Machado, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

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Mulher do Médico

A personagem «mulher do médico» integra os romances Ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre a lucidez (2004), de José Saramago e é apresentada ao leitor no momento em que o seu marido, um oftalmologista, investiga a origem da «cegueira branca» que afetou alguns dos seus pacientes. Tal como as outras personagens deste romance, não conhecemos o seu nome próprio. Porém, ainda que identificada através de uma profissão que não é a sua e de um mero grau de parentesco, a mulher do médico desempenha uma função primordial nesta narrativa distópica. Ela é a única personagem que manterá a visão e, assim sendo, é a única que assiste a todas atrocidades cometidas durante uma misteriosa epidemia de cegueira.

Para que não seja separada do seu marido quando este é levado para a quarentena, a mulher do médico finge também estar cega. Esta decisão condena a mulher do médico a uma luta pela sobrevivência dentro de um espaço onde o ser humano desce «todos os degraus da indignidade» (Saramago, 1995: 262). Ainda que não o faça diretamente (contamos com a voz de um narrador e com a intervenção de outras personagens ao longo do percurso), é ela que guia o leitor e o ajuda a explorar os espaços de um antigo manicómio e de uma cidade pós-apocalíptica. Dotada do poder de visão, é a mulher do médico que, impiedosamente, torna o leitor numa testemunha dos atos bárbaros e cruéis praticados em Ensaio sobre a cegueira.

(Daniela Côrtes Maduro, “Mulher do Médico”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

Julianne Moore, em Blindness, realização de Fernando Meirelles.

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