Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Figuras da Ficção 6

O Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6”, organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa, realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 27 a 29 de abril de 2020.

O presente colóquio conta com o contributo de investigadores do projeto “Figuras da Ficção” e abre-se a outros participantes, incluindo conferencistas com reconhecido prestígio internacional. Nomes confirmados: Darío Villanueva (Univ. de Santiago de Compostela), Maria Eunice Moreira (Pontifícia Univ. Católica do Rio Grande do Sul) e Richard Saint-Gelais (Univ. Laval).

O tema do Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” é “Sobrevidas da Personagem”. Trata-se de valorizar a personagem como entidade que, sobretudo a partir da figuração em narrativas literárias, pode ser reencontrada em relatos literários e não literários e em diversos cenários mediáticos. A transficcionalidade, as adaptações (p. ex., no cinema, na televisão ou na banda desenhada, mas também em filmes a partir de bandas desenhadas ou em livros baseados em filmes), os videojogos, a publicidade, as edições ilustradas ou os textos de imprensa são, entre outros, contextos e manifestações da sobrevida da personagem.

Ver em https://www.youtube.com/watch?v=wVDNLkfyu2c&feature=youtu.be

 

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Dom Quixote e o mundo como narrativa

No capítulo 43 da primeira parte do Dom Quixote, acha-se o Cavaleiro da Triste Figura de guarda a uma estalagem, quando, de madrugada, chegam outros quatro cavaleiros que tocam à porta. Para Dom Quixote, aquela estalagem não é tal coisa, antes se lhe afigura (e assim o afirma) um castelo, ao contrário do que veem os tais cavaleiros: “Sé que decís disparates en llamar castillo a esta venta”, diz um deles, perante a evidência do que se lhe depara. A isto responde Dom Quixote, depois de breve discussão: “ – Sabéis poco del mundo (…), pues ignoráis los casos que suelen acontecer en la caballería andante.” (Miguel de Cervantes,   El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. Edición preparada por J. García Soriano y J. García Morales. Madrid: Aguilar, 1968, p. 748).

Os “casos que costumam acontecer na cavalaria andante” são aqueles que o nosso herói conheceu, como leitor compulsivo que antes fora; a partir da sua experiência de leitura, assumiu um ideal, uma obrigação de conduta e sobretudo uma visão do mundo. Desta constam um trajeto de vida, uma vivência amorosa endereçada a Dulcineia del Toboso, o respeito por um obsoleto código cavaleiresco e o enfrentamento com uma realidade que persiste em contrariar aquela visão do mundo. A tudo isto junta-se um conhecimento que outros não têm (“sabéis poco del mundo”), porque não operaram o trânsito de um mundo para outro: daquele que se encerra em ficções (em novelas de cavalaria, entenda-se), para este em que se dá o encontro com quatro cavaleiros desprevenidos.

Quando enceta as suas viagens aventurosas, na companhia do fiel escudeiro Sancho Pança, Dom Quixote verdadeiramente sai de um mundo para entrar noutro: “Irse a buscar las aventuras por esos mundos”, como diz a ama, significa pôr em confronto o mundo das novelas de cavalaria com o mundo prosaico e às vezes agreste das gentes e das coisas com que o cavaleiro se cruza. O pior é que a sabedoria supostamente adquirida na leitura da ficção (poderia perguntar-se: será que D. Quixote a toma como tal?) não impede que do tal confronto resulte quase sempre sofrimento e reparo amargo de quem – Sancho Pança, evidentemente – não é afetado por esse desajustamento de mundos. Mundos narrativos, diremos nós: aquele em que o herói mergulhou, pela leitura, e este em que, como leitores, sabemos que ele existe, como protagonista. Ou seja, a “Historia de Don Quijote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador arábigo” (p.  279).

(C. Reis, “A narrativa do mundo ou o mundo como narrativa”, in Betina R. R. da Cunha e Rogério da S. Lima (orgs.), Circulação, Tramas e Sentidos na Literatura. Rio de Janeiro: Bonecker, 2019, p. 55).

 

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Colóquio Internacional Figuras da Ficção 6

O Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6”, organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa, realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 27 a 29 de abril de 2020.

O presente colóquio conta com o contributo de investigadores do projeto “Figuras da Ficção” e abre-se a outros participantes, incluindo conferencistas com reconhecido prestígio internacional. Nomes confirmados: Darío Villanueva (Univ. de Santiago de Compostela), Maria Eunice Moreira (Pontifícia Univ. Católica do Rio Grande do Sul) e Richard Saint-Gelais (Univ. Laval).

O tema do Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” é “Sobrevidas da Personagem”. Trata-se de valorizar a personagem como entidade que, sobretudo a partir da figuração em narrativas literárias, pode ser reencontrada em relatos literários e não literários e em diversos cenários mediáticos. A transficcionalidade, as adaptações (p. ex., no cinema, na televisão ou na banda desenhada, mas também em filmes a partir de bandas desenhadas ou em livros baseados em filmes), os videojogos, a publicidade, as edições ilustradas ou os textos de imprensa são, entre outros, contextos e manifestações da sobrevida da personagem. Mais informação aqui.

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A figuração temporal da personagem

Em “A figuração temporal da personagem”, procede-se a uma reflexão que parte da conjugação de duas categoriais cruciais da narrativa, a personagem e o tempo, com subordinação a princípios teóricos e epistemológicos que regem  os atuais estudos narrativos. Retomando referências fundacionais e, nalguns casos, ainda pertinentes, no tocante ao estudo do tempo na narrativa, a conferência centra-se na figuração de personagens, dinamizada por dois grandes e complementares vetores: primeiro, o vetor do tempo histórico, entendido como campo temático e elemento catalisador da figuração; segundo, o vetor do tempo propriamente narrativo, em contexto ficcional, com incidência no plano da composição do relato, incluindo os comportamentos e as vivências temporais das personagens. Genericamente, a figuração temporal refere-se ao processo segundo o qual, de forma explícita ou implícita, se incute na personagem uma dimensão de temporalidade desdobrada, em função daqueles dois eixos.

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Dicionário de Estudos Narrativos

Há entradas que são verdadeiros ensaios, com alcance e dimensões de destaque, como por exemplo “estudos narrativos” (et pour cause), “narrador”, ou “jogo narrativo”. Outras, mais curtas, estão lá para nos lembrar da diversidade de aproximações que é desejável ter em conta. Na verdade, se “leitor” (outra das grandes entradas) é importante, o reconhecimento do “discurso repetitivo” ajuda-nos a compreender que os estudos narrativos não se esgotam em “grandes” conceitos ou operações, mas que a sua análise pode decorrer em uma multiplicidade de escalas, da macro à micro-composição. Esta é também uma das grandes virtudes desta obra: ajudar-nos a olhar para os detalhes, onde, como sabemos, muitas vezes se esconde o diabo.

Não posso deixar, entretanto, de dar um exemplo da entrada “Epopeia”, porque a considero um excelente texto, modelo de uma abordagem que, a partir de pontos de vista muito diferentes, consegue reunir orientações hermenêuticas que precisamente apontam para a qualidade e a diversificação quer das perspectivas teoréticas que dos exemplos narrativos a que se recorre. A complexificação com que é abordado o conceito não diminui a sua eficácia, pelo contrário: permite que tenhamos da “epopeia” uma visão mais amadurecida, menos formatada por pontos de vista unilaterais, e que compreendamos a sua contextualização simbólica e histórica de uma forma mais amadurecida.

Helena Carvalhão Buescu, recensão em Colóquio/Letras, 201, maio/agosto, 2019 (Texto integral aqui)

 

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Colóquio Figuras da Ficção 6

O Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a 27, 28 e 29 de abril de 2020, organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa (CLP), unidade de I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Esta é a sexta edição de uma reunião científica que reúne investigadores do projeto “Figuras da Ficção”,  cujos resultados têm sido divulgados no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa.  Para além do contributo daqueles investigadores, o colóquio “Figuras da Ficção 6” abre-se  a comunicações  de outros participantes, subordinadas ao tema desta edição: “Sobrevidas da Personagem”. Do mesmo modo, serão programadas conferências por personalidades com reconhecido prestígio no campo dos estudos narrativos.

Está hoje adquirido o conceito de sobrevida, implicando a noção de que a personagem vive uma  existência autónoma que permite reencontrá-la e aos  sentidos que ela sugere,  em práticas narrativas e não narrativas, bem como em mensagens não literárias. A sobrevida pode ser considerada, antes de mais,  um efeito de leitura que se concretiza  quando a personagem  migra de uma narrativa para outra; observa-se isso nas séries romanescas em que as personagens transitam entre romances, mas  também em narrativas enunciadas noutros contextos mediáticos:  no cinema, na televisão, na rádio, na publicidade, no jornalismo, nos videogames, etc. As transposições intermediáticas ou adaptações (p. ex., em filmes de ficção ou em edições ilustradas) constituem casos relativamente frequentes de sobrevida da personagem, eventualmente em regime paródico.

Em breve serão dadas informações sobre inscrições e envio de propostas de comunicação.

Visiones del Quijote, por Octavio Ocampo

 

 

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Figuras moventes

Enquanto leitor e, depois disso, escritor, José Saramago conheceu e re-conheceu Ricardo Reis, poeta e, mais tarde, sua personagem, em termos que devo lembrar. Esclareço: nos primórdios da sua aprendizagem literária, o jovem José Saramago tomou como efetivamente existente a figura de Reis:  “Quando eu me inicio no Pessoa, é por volta dos dezoito, dezanove anos, à volta disso. Já contei essa “anedota”, que é a descoberta do Ricardo Reis, com a ideia de que havia realmente um senhor chamado Ricardo Reis, que tinha escrito aquelas odes, sem que eu naquele momento soubesse que o Ricardo Reis era apenas (este apenas não é redutor…) um heterónimo do Fernando Pessoa.”(em Diálogos com José Saramago, I).

Bem mais tarde, o romancista adulto e, já então, leitor informado faz migrar para o seu romance uma figura que, sendo, de facto, ficcional pode ser tomada, conforme se viu, como real.  Em todo o caso, a refiguração saramaguiana de Ricardo Reis não pode deixar de ter presente a “biografia” do heterónimo, tal como Pessoa a elaborou e, para além disso, a sua marcante presença no universo poético da literatura portuguesa do século XX. Em paralelo e em complemento do movimento de migração de Ricardo Reis para a ficção, o próprio Fernando Pessoa entra na história do romance como personagem: os diálogos que ele mantém com o heterónimo também personagem transportam para o universo ficcional d’Ano da Morte de Ricardo Reis o mais amplo diálogo poetodramático que o ortónimo manteve com as figuras heteronímicas a que deu voz autónoma.

Diferente desta (mas não totalmente) é a situação das duas personagens femininas que, no romance, se relacionam com Ricardo Reis, Lídia e Marcenda. Da segunda falei já, de passagem: segundo Saramago, ela baseia-se numa pessoa que foi efetivamente vista pelo romancista. Isso não prejudica, contudo, a sua condição ontológica: trata-se de uma entidade nativa da ficção, até porque o facto de um ficcionista basear, remotamente, uma personagem numa pessoa é trivial e não faz dessa pessoa uma figura migrante.

Relativamente a Lídia, a situação é diferente. Se o nome Marcenda é motivado etimologicamente (do verbo marcere, “murchar”; note-se que a personagem tem um braço paralisado), o nome Lídia é-o de outro modo: inevitavelmente, ela lembra, por essa denominação, uma das musas inspiradoras da poesia de Ricardo Reis; contudo, no romance, a personagem nada tem de musa literária. Apresentada como “uma mulher feita e bem feita, morena portuguesa, mais para o baixo que para o alto” (p. 95), Lídia é o contrário da frágil Marcenda e também da figura idealizada que a poesia de Ricardo Reis consagrou. Cabe-lhe tratar da vida doméstica de Ricardo Reis; a sua relação com ele é física e prosaica e os seus encontros amorosos são intensamente eróticos.  Por fim, é através de Lídia que o poeta e médico regressado conhece uma parte importante do mundo concreto e social da Lisboa que reencontra.

Em síntese: como figura movente, a amante de Ricardo Reis vem da sua poesia, mas afasta-se dela, pela via da subversão (quase) paródica; ela lembra, pelo nome, a musa de Reis (o que é acentuado pela poesia inscrita na ficção), mas afirma-se como mulher ativa e amante carnal; pode ser lida como personagem migrante em regime transficcional, mas põe em causa essa condição, porque se impõe como figura autónoma, com personalidade própria e bem vincada.

“Figuras moventes: José Saramago e a personagem como refiguração” (extrato). A apresentar no colóquuio “Per una nuova antropologia del personaggio letterario”; Pisa, 29 a 31 de maio.

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