Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Reinvenção da personagem

A Ficção Interativa é uma forma de experiência digital que confere ao jogador/interator poder de agenciamento (agency) por meio das suas decisões, com consequências diretas sobre a configuração narrativa da obra. Esta forma de medialidade veio trazer novos desafios e subverter noções tradicionais de representação narrativa (moldadas sobretudo a partir do campo da ficção impressa), na medida em que a estrutura não-linear abre caminho a percursos diferentes de ação, dependendo do desempenho e das escolhas do interator. Neste contexto, compreende-se que a natureza configurável da personagem, quer como entidade ficcional com determinadas propriedades diegéticas, quer como peça fundamental da mecânica do jogo, constitua objeto de crescente atenção por parte da comunidade académica e dos diversos agentes envolvidos no desenvolvimento de videojogos e de Ficção Interativa. O processo de construção da personagem, independentemente do seu estatuto específico (PC: jogável; NPC: não-jogável), assume aqui uma especificidade própria e levanta problemas que habitualmente não surgem com outros produtos literários e culturais, mesmo do contexto contemporâneo. Mais do que prolongar o aceso debate em torno do grau de adequação deste meio para narrar histórias que levou à formação de duas abordagens teóricas distintas – a ludológica e a narratológica –, importa desenvolver um método holístico capaz de congregar diversos ângulos de análise, reconhecendo que os videojogos tendem a desenvolver modelos narrativos complexos, mas que não podem subsistir sem uma estrutura consistente e um sistema de regras. De modo particular, os projetos recentes de Ficção Interativa com recurso a dispositivos de Inteligência Artificial que permitem selecionar, com base em procedimentos computacionais, eventos de modo coerente segundo o tipo de intervenção do interator e tirar o máximo da tensão narrativa levantam novas questões no que respeita à ontologia da personagem, ao seu potencial de manifestação de efeitos estéticos e à sua capacidade de gerar envolvimento emocional.

Paulo Pereira, “The Ghost in the Machine: Ludologia, Narratologia e reinvenção da personagem na Ficção Interativa”; workshop Figuras da Ficção, 20.6.2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Jogo narrativo

Figura em construção

Bernardo Soares é uma figura de ficção criada por Fernando Pessoa (1888-1935), mas é  também  quem escreve o Livro do Desassossego (1913-…). Para descrever este “semi-heterónimo” (Arquivo Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro – 13 Jan. 1935), é necessário ter em conta o processo de construção do livro onde ele acabaria por sobreviver. Num dos muitos momentos de introspeção que alicerçam o Livro do Desassossego, Bernardo Soares refere: “Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar” (Arquivo Pessoa, Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa: 4521). Veiculada em tom confessional, esta frase descreve o estado de espírito da personagem. Porém, ela parece igualmente espelhar a construção do próprio livro,  que João Gaspar Simões apelidou de “puzzle literário” (Simões, 1983: 130-131). Segundo Richard Zenith, o Livro do Desassossego “é, e será sempre muitos livros possíveis, sem que possa existir uma edição definitiva” (Zenith, 2003: 21). Em algumas das suas missivas, Fernando Pessoa refere-se à preparação de um “Livro do Dessossego” ou à estrutura de um “livro”. O autor de mais de cinquenta heterónimos acabaria por falecer antes de poder finalizar esse projeto.

Este livro tem um caráter fragmentado e é fundamentalmente um conjunto de fragmentos reunidos a várias mãos (por Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha,  Quadros, Richard Zenith, Jerónimo Pizarro, entre outros), de forma intermitente, a partir dos anos oitenta do século passado. Alguns desses fragmentos terão sido marcados com a sigla LdoD, outros ficaram por identificar. Por esse motivo, talvez esta obra não deva ser vista apenas como um livro inacabado, mas como um arquivo ou um texto em permanente geração. Em torno dos fragmentos deixados por Fernando Pessoa surgiram projetos como “Nenhum problema tem solução: um Arquivo Digital do Livro do Desassossego” (integrado no Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra), ou a base de dados Arquivo Pessoa, fruto da colaboração entre a Casa Fernando Pessoa e a Texto Editora.

Enquanto personagem, a evolução de Bernardo Soares está irremediavelmente ligada ao processo de construção do livro. À medida que  ele cresce, esta personagem adquire uma personalidade e assume a sua (própria) autoria. De acordo com João Gaspar Simões, isto acontece “fragmentariamente”, entre 1927 e 1935 (Simões, 1983: 134). Pessoa terá assinado um primeiro texto pertencente ao Livro do Desassossego intitulado “Na Floresta do Alheamento” (1913). Posteriormente, Vicente Guedes (também este ajudante de guarda-livros) surgiria como o autor do Livro de Desassossego. Segundo Ángel Crespo, um fragmento assinado por Bernardo Soares aparece, em 1929, na revista Solução Editora (Crespo, 1990: 314). Ainda no mesmo ano, o Barão de Teive assume a autoria deste livro. Contudo, em 1932, o Livro do Desassossego viria a ser exclusivamente escrito por Bernardo Soares. Neste sentido, Soares poderá não evoluir ao longo de um enredo ou cadeia de ações, mas sofre diversas metamorfoses durante o seu processo de composição. A ligação entre a personagem e o seu livro surge também representada pelo carácter autorreflexivo da obra que é motivado por momentos de introspeção verbalizados por um narrador autodiegético. Por seu turno, o estado fragmentário do livro sintoniza com a entidade estilhaçada, permanentemente em construção, da personagem Bernardo Soares (continuar a ler).

Daniela Côrtes Maduro, in Dicionário de personagens da ficção portuguesa

Deixe um comentário

Filed under Bernardo Soares, Livro do Desassosego

Maria dos Prazeres: ironia do nome

Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre forma com o marido, Álvaro Silvestre, o casal que ocupa o centro da ação deste romance neorrealista [Uma abelha na chuva], publicado por Carlos de Oliveira em 1953. Dela pode dizer-se que, em irónico contraste com o nome de batismo, protagoniza uma história de desamor, solidão e ressentimento.

Oriunda de uma família fidalga em acentuado declínio económico, Maria dos Prazeres é levada a casar-se com um filho de comerciantes e proprietários rurais, consumando assim uma aliança negociada pelos pais de ambos. Para o casamento leva Maria dos Prazeres a fidalguia do sangue e da educação, mas também “a amarga obediência aos pais e o desejo de os ajudar, a curiosidade e o medo, o medo e um pouco de esperança” (Oliveira, 1980: 23). Ficando por esclarecer o objeto concreto dessa esperança, a personagem que o romance nos faz conhecer não deixa dúvidas de que a “amarga obediência”, com que sobe ao altar, se prolonga na eterna amargura que colhe no convívio com o marido – culturalmente distante, psicologicamente doentio e fraco de caráter. Em tudo oposta a estes traços, Maria dos Prazeres é forte, determinada e firme até à dureza. Profundamente orgulhosa, encontra no seu orgulho natural e de casta o meio de controlar as suas emoções e dominar as situações em que intervém. No jogo de hostilidade e conflito a que se reduz a sua vida de casada, cabe-lhe a ela a vitória e ao marido a submissão. (continuar a ler)

Maria do Rosário Cunha, em Dicionário de personagens da ficção portuguesa

 

Laura Soveral, em Uma abelha na chuva (real. de Fernando Lopes)

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Uma personagem camiliana

José Fístula, ou apenas Fístula, como acabou por ficar conhecido, é filho do boticário que dá nome ao romance Eusébio Macário (1879), de Camilo Castelo Branco, além de figurar também em romance subsequente, A corja (1880), do mesmo escritor. Fístula é a alcunha dada ao personagem José Macário em razão de seus inveterados vícios alcoólicos e sexuais, uma vez que ele gastava a própria vida em “orgias de frigideiras e na boémia das Travessas” (Castelo Branco, 1991: 45), ou seja, trata-se, inicialmente, de um perfeito valdevinos, homem chulo, sem nenhum senso de responsabilidade e profundamente vadio, o que, por outro lado, conferia-lhe um certo sex appeal. Além disso, o personagem é conhecido também por cantar fados com tanta emoção e expressividade que os seus ouvintes chegam a ter tremores nas carnes, conforme acontece com o próprio pai de José.

Representando, ao lado do pai e da irmã, todo o arquétipo de uma família corrupta e movida tão somente por interesses, a figuração de Fístula impõe-se também como um paradigma do movimento naturalista. Exemplo disso está em uma das descrições do personagem, cujos traços físicos e psicológicos, a certa altura, são justificados por determinismos hereditários: “Espreite-se no Fístula o seu temperamento, no sangue, segundo os processos, na hereditariedade, nos fluidos nervosos que tem do pai, talvez do avô, provavelmente da mãe, e não será abusar da fisiologia indagar-se o que há nele da avó” (Castelo Branco, 1991: 52).

Se o romance Eusébio Macário narra a desmoralizada ascenção social da família Macário, em A corja, título que ironiza e dá prossecução à história imoral dessa família, vê-se, dois anos depois, a rutura e queda da linhagem de que Fístula, do ponto de vista de sua figuração e função narrativas, é parte integrante e orgânica, o que implica em uma significativa conectividade entre o personagem, o tempo e os espaços dessas narrativas. No primeiro romance, José, após uma longa vida boêmia, volta à casa do pai, a quem promete mudança de postura e comportamento. Apartado por Eusébio – cuja amargura advém tanto de decepções afetivas quanto do estatuto social que marcava a família, e não menos da condição social e financeira em que se encontrava –, Fístula o chantageia e diz que, se o pai não o aceitasse novamente para o trabalho na botica, entregar-se-ia à vida ilícia, na qual “se faria ladrão de estrada” (Castelo Branco, 1991: 45). Eusébio, num lapso de afetividade paterna que lhe era pouco peculiar, resolveu dar uma derradeira chance ao filho, momento a partir do qual começa a ver nele certa habilidade para o trabalho no almofariz, o que, além do orgulho paterno, estabelece entre os dois a reaproximação que determinará o papel de Fístula no decorrer da trama. (continuar a ler).

Paulo Geovane e Silva, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

 

 

Deixe um comentário

Filed under Camilo Castelo Branco

Figuras da Ficção 5: Programa Final

O 5.º Colóquio Internacional Figuras da Ficção: Dinâmicas da Personagem terá lugar a 20, 21 e 22 de novembro de 2017, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O evento, com organização do Centro de Literatura Portuguesa, contará com a presença dos professores convidados  Brian Richardson (U. de Maryland), Raphaël Baroni (U. de Lausanne) e Marie-Laure Ryan (U. de Colorado em Boulder).

(Ver notícia e programa final)

Cabeçalho_face-1

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Figuras da Ficção 5: programa provisório

Está já disponível o programa provisório do 5º Colóquio Internacional Figuras da Ficção (20, 21 e 22 de novembro próximo, na Faculdade de Letras de Coimbra), organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa (ver aqui)

Podem ainda ser realizadas, até 31 de outubro, inscrições para participação sem comunicação (ficha de inscrição aqui).

São conferencistas convidados Brian RichardsonMarie-Laure RyanRalf Schneider Raphaël Baroni.

Veja no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FcBn2w05yXQ&feature=youtu.be

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

5º Colóquio Internacional Figuras da Ficção

Realiza-se a 20, 21 e 22 de novembro próximo o 5º Colóquio Internacional Figuras da Ficção.

Foram apresentadas, dentro do prazo estabelecido, cerca de 100 propostas de comunicação, provindas de 15 países diferentes, atingindo-se assim um grau de internacionalização considerável.

São conferencistas convidados Brian Richardson, Marie-Laure Ryan, Ralf Schneider e Raphaël Baroni.

Veja no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FcBn2w05yXQ&feature=youtu.be

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized