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Workshop Figuras da Ficção [20 de maio de 2015]

As “personagens feitas de bits, pixels e código binário”, ou seja, aquelas que residem no mundo digital, foram o tema de debate da última sessão de trabalho da equipa de projeto “Figuras da Ficção”. As potencialidades do digital para a construção de obras literárias, as dificuldades de preservação das obras e o  questionamento sobre as noções de texto, de narrador, de linearidade e até de literatura foram algumas das questões levantadas por Daniela Cortês Maduro, na comunicação “Personagens em Estado Latente: o caso da literatura eletrónica”. “Na literatura eletrónica, as personagens funcionam como pontos cardeais”, afirmou a autora, dando exemplos concretos de obras de literatura eletrónica, desde os seus primórdios, nos anos ’90, até à atualidade,  mostrando a abolição de “barreiras ontológicas que separam leitor e personagem”; nesse sentido,  o leitor é, ele próprio, uma personagem. A inevitável comparação entre os formatos tradicionais de literatura e os novos formatos gerou aceso debate entre a autora da comunicação e os demais investigadores do grupo. Além da comunicação de Daniela Maduro, ponto central desta sessão de trabalho, Guilhermina Castro e Carlos Caires, da Universidade Católica Portuguesa, apresentaram o projeto “Narrativa, Media e Audiovisual”, desenvolvido por um grupo de investigação daquela universidade.

 (pela figurante Inês Fonseca Marques)

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20 de Maio de 2015 · 22:45

A Cidade do Desassossego: trajetos e figurações

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De todas as figuras que, a espaços e quase sempre de forma fugidia, perpassam no Livro do Desassossego, aquela que maior nitidez apresenta é a do patrão Vasques, quase uma personagem do romance que Bernardo Soares não compõe. Essa nitidez não é tributo de subordinado (Vasques é o patrão); ela impõe-se-nos porque o olhar de Bernardo Soares percebe no chefe dimensões simbólicas que são o efeito de impressões gradualmente acumuladas.

Por três vezes (por três tentativas), inicia-se o que poderá vir a ser um retrato de personagem. Assim: “O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques”. No parágrafo seguinte: “O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então.” Só no terceiro parágrafo, superada a deriva digressiva dos dois parágrafos anteriores, o patrão Vasques ganha o recorte físico e psicológico que faz dele uma personagem em potência, com corpo, atitudes e emoções. Cito: “O patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo – estatura média, atarracado, grosseiro com limites e afeições, franco e astuto, brusco e afável – chefe, à parte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos músculos coloridos, o pescoço cheio mas não gordo, as faces coradas e ao mesmo tempo tensas, sob a barba escura sempre feita a horas.”

Repare-se: “Vejo de lá hoje [este é o futuro], como o vejo hoje de aqui mesmo”. Qualquer que seja o tempo a ser vivido, o que importa é isto: “vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico (…)”. Indo um pouco mais longe, digo que também Soares vê como um danado, modo de ser e de perceber o mundo que vem de Alberto Caeiro. Só que, para Caeiro, ver como um danado é um ato situado no aqui e no agora de um mundo rural, sem passado nem futuro e desinteressado de alcançar aquele significado metafísico que o poeta da inocência pagã abomina (recordo: “O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum.”)

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