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Personagem e figuração

O presente número da Revista de Estudos Literários do Centro de Literatura Portuguesa procede agora à publicação, em formato convencional, daquelas intervenções que mais diretamente correspondem ao espírito do projeto “Figuras da Ficção”. Com uma exceção, nele participaram já ou continuam a participar os autores dos textos que adiante podemos ler, distribuídos por três secções, a saber:

  • Em “Teoria, figuração, interpretação” encontram-se três das conferências apresentadas no colóquio “Figuras da Ficção 4”, tratando de questões de teoria, de análise interdisciplinar e transnarrativa, bem como de exegese renovada, à luz da problemática da figuração.
  • Em “Figuração literária: estudos de personagem” a questão da figuração (uma questão que é axial, tendo em vista as bases e os objetivos do projeto) orienta-se para a análise de casos específicos (em Garrett, em Eça de Queirós, em Lídia Jorge, em Lobo Antunes, em Mia Couto, no romance barroco, em Dulce Maria Cardoso, etc.).
  • Em “Figurações transmediáticas” são inseridos aqueles textos que, confirmando o potencial de diversificação dos estudos narrativos e dos estudos de personagem, abordam narrativas do chamado universo mediático, em que a figuração e a figura ficcional conhecem também um destaque apreciável: no discurso de imprensa, na banda desenhada, no cinema e no relato televisivo.

Para além das habituais resenhas críticas, este número 4 da Revista de Estudos Literários inclui uma secção, também habitual, de arquivo. Tal como em números anteriores, trata-se aqui de relembrar textos com significado (digamos) histórico para os estudos literários. Neste caso, recolhemos um conjunto de textos de Júlio Dinis, escritos em circunstâncias singulares (o escritor encontrava-se na ilha da Madeira, tentando debelar a enfermidade de que viria a morrer, muito jovem ainda). Não é só a personagem, tema central deste número, que está em equação no arquivo que adiante se encontra; o autor d’As Pupilas do Senhor Reitor   alarga-se a considerações que dizem respeito a outros aspetos da escrita do romance, dando testemunho de uma argúcia e de uma capacidade de enunciação doutrinária que talvez sejam desconhecidas de quantos rapidamente catalogam Júlio Dinis como escritor “fácil”.

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Morte e ressurreição da personagem

Os estudos narrativos, no estado em que hoje os conhecemos,  reincorporaram no seu âmbito uma categoria narrativa que durante algumas décadas foi subalternizada. Chama-se personagem essa categoria sem a qual não há relato que se sustente. Mas de certa forma foi isso mesmo que os pais fundadores dos estudos narrativos ignoraram, quando a análise estrutural da narrativa dos gloriosos anos 60 procurou cumprir um projeto de trabalho de base dedutiva. “Perante  milhões de relatos”, dizia Roland Barthes, a análise da narrativa está “forçosamente condenada a um procedimento dedutivo;  está obrigada a conceber antes de mais um modelo hipotético de descrição (…), descendo em seguida, pouco a pouco, a partir desse modelo, até às espécies que, ao mesmo tempo, nele participam e dele se afastam”  (“Introduction à l’analyse structurale des récits”, Communications, 8, 1966, p. 2).

esqueletos_de_caricaturas_9iL_wide           O projeto estruturalista era de índole translinguística e o seu aprofundamento semiótico,  na abordagem greimasiana, acentuou a dimensão funcionalista dos agentes narrativos,  reduzidos à condição  abstrata de papéis actanciais sem densidade humana. Exagerando um pouco, mas não muito, podemos mesmo dizer: nesse tempo, o autor foi morto e levou consigo, para a cova que lhe abriram, a personagem, companhia solidária e a vários títulos conveniente (modestamente também  ajudei ao funeral, mas não foi por mal…). Mesmo a narratologia de Genette, verdadeira revolução copernicana dos estudos sobre a narrativa, cuja sistemática construção até hoje tem validade, fixou-se na articulação do discurso e na dinâmica da narração e dos protagonistas que nela intervêm. Quando, em 1983, reviu e reajustou as suas propostas, Genette respondeu a quem nelas criticara a omissão da personagem, notando que em “Le discours du récit” se ocupara “do discurso narrativo e não dos seus objetos” (G. Genette, Nouveau discours du récit. Paris: Seuil, 1983, p. 93); uma distinção que, evidentemente, reiterava a dicotomia história/discurso que fundamentava a narratologia de então. Sendo assim, a personagem ficava de fora, abandonada à sua sorte e olhada  como  “esse ‘ser vivo sem entranhas’ que aqui não é (…) senão um efeito de texto” (G. Genette, op. cit.,  p. 93).

Terá sido por estas (e por outras) que a pertinência operatória da narratologia se foi desvanecendo? Talvez, mas não só. Em todo o caso,  é preciso dizer que alguma coisa dela perdurou e perdura, em parte porque a narratologia incorporou subdomínios muito fecundos (como a pragmática narrativa) e abriu-se interdisciplinarmente à psicanálise, à sociocrítica, à teoria da receção, à retórica, aos estudos fílmicos,  etc. De modo que, not so fast, a narratologia não morreu. Ou então, para o dizer como David Herman:  “Parece, em resumo, que os boatos acerca da morte da narratologia têm sido enormemente exagerados” (D. Herman, Nartatologies. Columbus: Ohio Statate Univ. Press, 1999, p.  2). E foram mesmo, conforme se percebe do que hoje conhecemos como narratologia pós-clássica ou, como prefiro dizer, estudos narrativos; a sua conjugação com as solicitações e com os fundamentos epistemológicos da retórica, das ciências cognitivas, dos estudos femininos, dos estudos culturais ou dos estudos mediáticos trouxe de novo ao nosso convívio a personagem, essa figura que nenhuma narrativa dispensa, porque nela, como magistralmente explicou Paul Ricoeur, está inscrita uma temporalidade humana que é co-natural à própria temporalidade narrativa.

(“Pessoas de livro: figuração e sobrevida da personagem”, em preparação)

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