Category Archives: Metalepse

Figuração e ficcionalidade

Dulcinea del Toboso

Dulcinea del Toboso

A correlação entre figuração  e ficcionalidade diz respeito a um vasto problema que é o das tensões entre imanência e transcendência das obras artísticas em geral.

Sendo, em primeira instância e aparentemente, um ser imanente a um texto ficcional e como que nele “aprisionado”, a personagem tende a romper com aquela sua condição, projetando-se para uma dimensão de transcendência que ultrapassa as chamadas fronteiras da ficção. Um tal ímpeto de autonomização estimula uma visão fenomenológica da personagem;  é pela concretização, no ato de leitura, que a autonomização se decide, contribuindo para incutir sentidos renovados ao texto e atualizando-o, na esfera das preocupações, dos anseios e das experiências de vida do leitor. Com razão, o bacharel Sansón Carrasco diz a Dom Quixote que a história deste, divulgada na primeira parte do livro, permite que entidades nele lidas sejam reconhecidas e entrem na vida corrente de quem leu:  a história do “ingenioso hidalgo” é  “tan leída y tan sabida de todo género de gentes, que, apenas han visto algún rocín flaco, cuando dicen: ‘allí va Rocinante’”; em termos mais ousados, Tom Baxter, aventureiro e explorador, dos Baxters de Chicago, atravessa o écran, passa para a plateia e leva consigo, para “dentro” do filme A Rosa Púrpura do Cairo, a embevecida Cecily.

Ao  princípio que dinamiza tais idas e vindas – princípio que é o mesmo que nos permite dizer de alguém do nosso mundo real que é acaciano ou hamlético ou bovarista – chamo princípio da transposição ontológica. O dispositivo que materializa a transposição ontológica – uma espécie de oscilação pendular entre mundo real e mundo ficcional, com intercâmbio de posições e de estatutos – é a metalepse, originariamente uma figura de retórica que justamente designa uma transferência ou mudança de nível. As perguntas triviais que, por vezes, indagam de onde vêm as personagens e quem do mundo real é por elas retratado são justamente da esfera da metalepse. O que não quer dizer, obviamente, que esta se reduza às respostas procuradas por aquelas perguntas, não raro formuladas a partir de uma posição intelectual concessiva, ingénua ou imediatista. Como quem diz: as coisas não são assim tão lineares.

Em todo o caso, a metalepse ficcional é mais frequente do que parece à primeira vista: quando o narrador das Viagens reconhece que “as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem” conhecer alguma  coisa “do novo ator” que faz a sua entrada na história, é um gesto metaléptico que ali se  esboça, pelo cruzamento de dois níveis, o do narrador e o das leitoras. Passa-se isto, para mais, num relato em que predomina uma equívoca mas fecunda ambiguidade, no respeitante à vinculação (por fim, muito imprecisa) de viajantes e de personagens da novela aos respetivos níveis narrativos, níveis confundidos já no final do relato; diz o viajante-narrador a propósito do protagonista da história  que ouviu (a chamada novela sentimental) e de uma carta que leu: “Fui camarada de Carlos, não o vejo há muitos anos”. Em termos mais sistemáticos, o realista (Eça de Queirós, por exemplo) que observa uma pessoa real para construir uma personagem faz ecoar na figura ficcional sentidos que rastreou na tal observação, sentidos esses que dizem respeito a valores, a crenças e a atitudes ético-morais, mais do que à realidade contingente. Lembro o testemunho de Eça, quando descreve o trabalho de figuração do romancista realista: “Vai ver Virgínia, estuda-lhe a figura, os modos, a voz:  examina qual foi a sua educação; estuda o meio em que ela vive, as influências que a envolvem: que livros lê, que gostos tem. – E dá-nos enfim uma Virgínia  (…) que é a burguesa da baixa, em Lisboa, no Ano da Graça de 1879.”

1005491_425671570877452_301945516_n

Deixe um comentário

Filed under Ficcionalidade, Figuração, Metalepse

A sobrevida das personagens (3)

Aquilo a que tenho chamado a sobrevida das personagens envolve um processo de deriva: migrando dos mundos possíveis ficcionais para o mundo real, as personagens ficcionais ganham, em relação ao texto original em que foram objeto de figuração primeira, uma vida própria, que a fenomenologia da leitura contempla no amplo quadro da vida da obra literária. O que significa essa vida da obra literária e, por consequência, a das personagens ficcionais? Duas coisas: “1. A obra literária ‘vive’ na medida em que atinge a sua expressão numa multiplicidade de concretizações. 2. A obra literária ‘vive’ na medida em que sofre transformações em consequência de circunstâncias sempre novas estruturadas convenientemente por sujeitos conscientes” (R. Ingarden, A obra de arte literária, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 1973, p. 380).

Ana Ozores, por M. Álvarez Fernández

Podemos, assim, dizer que as personagens podem prevalecer sobre as ficções e ter uma vida para além delas, ou seja, uma sobrevida. E podemos nessa sobrevida surpreender manifestações bem singulares, correspondendo àquele movimento que G. Genette (em Métalepse. De la figure à la fiction; 2004) deduziu da figura de retórica chamada metalepse, ou seja, a passagem de um nível (narrativo, semântico, ontológico, etc.) para outro nível. Inclui-se nessa dinâmica o trânsito de entidades entre o mundo ficcional e o mundo real, como se entre eles se não levantassem fronteiras. Não é só em A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen que a personagem do filme invade o mundo da espectadora, para de seguida a transportar para o seu mundo ficcional (o de Cecília também o é, afinal…). Em termos mais ousados, Ana Ozores, protagonista de La Regenta, cruza-se conosco na praça da catedral de Oviedo: uma estátua em tamanho natural, da autoria do escultor Mauro Álvarez Fernández, integra a personagem no espaço real que terá servido de modelo à cidade de Vetusta do grande romance de Clarín. A tendência para o culto de uma estatuária de dimensão natural e pose corrente é conhecida: em Lisboa, podemos sentar-nos à mesa com Fernando Pessoa, moldado por Lagoa Henriques; no Rio de Janeiro, dividimos um banco da Avenida Atlântica com Drummond de Andrade, em escultura de Leo Santana. Nenhum deles, porém, vem do universo da ficção, por muitas ficções que tenham engendrado.

Note-se ainda: a inserção de Ana Ozores no espaço urbano da capital das Astúrias assume um significado diverso daquele que podemos “ler” nas estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança, situadas na Praça de Espanha, em Madrid. Neste caso, colocadas aos pés de Cervantes (são dois patamares que configuram dois níveis: o do criador e o das criaturas), as duas personagens integram-se num conjunto escultórico cuja  configuração afasta qualquer possibilidade de interação com quem as olha. Nesse sentido, Ana Ozores está mais viva e ativa do que Sancho Pança.

Entretanto, Sancho Pança e Dom Quixote regressam a uma dimensão que permite, de novo, a nossa aproximação, uma aproximação que é reencontro ou redescoberta de sentidos e de valores propostos pelas personagens refiguradas. Assim as reencontramos numa feira de artesanato.  Em Embu das Artes, município do estado de São Paulo, a Feira de Artesanato mostra-nos

D. Quixote e S. Pança por D. Maturro; foto de Bruna Grassi

uma composição de Dimitri Maturro, que representa o par criado por Cervantes, assim mesmo como o vemos: em movimento, para fora das mãos do artista, como que escapando, por isso, ao enquadramento de quem fotografou a peça. Um movimento também narrativo, desenvolvido para além do tempo e do cenário histórico que viu nascer personagens que reiteradamente têm sido objecto de figurações e de decorrentes manifestações de sobrevida.

Deixe um comentário

Filed under Dom Quixote, La Regenta, Metalepse, Sobrevida, Vida da obra