Monthly Archives: Fevereiro 2019

Alberto Soares, por Vergílio Ferreira

Filme Aparição (2018), real. de Fernando Vendrell

Alberto Soares é protagonista de um dos romances mais consagrados de Vergílio Ferreira, Aparição, publicado pela primeira vez em 1959. Alberto apresenta-se desdobrado em dois tempos principais: o tempo da recordação, da narração e da escrita, e o tempo da vivência da história.  No entanto, em sintonia com a sua própria crença de que “o tempo não existe senão no instante que sou”  (Ferreira, 1971[1959]: 190), o narrador relembra o passado, bem como antecipa certos eventos da história, conforme lhe aparecem no presente. Assim também deixa o instante da narração evidenciar-se em meio aos acontecimentos antigos (aliás, tal instante ganha espaços exclusivos no texto e destaques em itálico, numa espécie de exórdio e de peroração à narrativa). Só com a esposa, na velha casa da aldeia da Beira, já deserta dos pais, é na história vivida em Évora anos antes, que o narrador-protagonista tenta “descobrir a face última das coisas e ler aí” a sua “verdade perfeita” (9).

Como quem (res)sente nas vísceras a “branca cidade ermida” de Évora e o que ali se passou, desde a sua chegada à estação e a instalação na pensão do Senhor Machado até sua partida, o protagonista nos dá a conhecer cerca de um ano de sua vida.  Escritor e professor de Letras, Alberto Soares vai a Évora para lecionar. Seu anfitrião na cidade é um velho conhecido do pai, Dr. Moura, que abre sua casa para receber o filho do amigo. A narração persegue, então, a linha dos acontecimentos resultantes das suas relações com a família Moura, com suas filhas Cristina, Ana e Sofia, com Alfredo Cerqueira, marido de Ana, e com mais dois amigos da casa, Chico e Carolino. Entre diálogos, deambulações e contemplações da paisagem, ganham evidência alguns episódios de força mais dramática, como o suicídio de Bailote, um paciente de Moura, e a morte acidental de Cristina, os (des)encontros amorosos com Sofia, a briga com Carolino e o assassinato, por este, de Sofia. Alberto também atenta em duas visitas à casa da sua família ainda no mesmo ano, em certos antecedentes da história, como a morte do seu cão Mondego na infância e o falecimento do pai, dias antes de mudar-se para Évora, também em alguns eventos subsequentes, como o julgamento de Carolino pelo assassinato de Sofia, a mudança para Faro e o retorno, enfim, à casa paterna.

(Raquel Trentin, “Alberto Soares”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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Zé Metade, personagem de Mário de Carvalho

Personagem com grande relevância na ação de Casos do Beco das Sardinheiras, Zé Metade participa dos mais diversos eventos nos casos relatados, podendo ser considerada um dos tipos sociais mais relevantes dos casos. Para isso contribuem os procedimentos da sua inserção na história dos Casos do Beco das Sardinheiras, os tempos do “em uma ocasião”, que remetem ao “sinal textual de ficcionalidade mais óbvio”, o “era uma vez” (Eco, 2004: 126), e as relações que mantém com outras personagens, desde suas críticas aos outros moradores até às suas atitudes heroicas.

Zé Metade se destaca em diversos planos: pertence ao limitado número de personagens com caráter testemunhal, percebendo as modificações no beco, como acusador ou solucionador; aparece como o cavaleiro ou herói, capaz do autossacrifício para ajudar alguns moradores do beco; caracteriza-se, diversamente de outras personagens, também pela capacidade musical e hábito alimentar; participa das decisões a serem tomadas no e para o beco das sardinheiras.

As diferentes circunstâncias narrativas sobrepõem-se e intercalam-se; seu conjunto forma histórias que se desenrolam ao longo dos casos, permitindo que os padrões de figuração da personagem sejam desenvolvidos a partir de um fato ou fenômeno exagerado, passível de explicação lógica – “[…] Zé caiu-lhes mesmo a meio dos volteios. Ali ficou cortado em dois, sem conserto, busto para um lado, o resto para o outro” (Carvalho, 1991: 17) –, mas com uma latente anunciação da dúvida e do excesso, próprios do fantástico lato sensu – “O Zé é assim chamado desde que lhe aconteceu aquela infelicidade: quis separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro quando eles se envolveram à facada na esquina dos Elétricos […]. Ambos usavam grandes navalhas sevilhanas…” (17).

(Luciana Silva, “Zé Metade”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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Pessoas de Livro em acesso livre

O livro de ensaios que agora se publica reúne um conjunto de textos diretamente relacionados com  o projeto de investigação “Figuras da Ficção” que, nos últimos anos, tenho coordenado no Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Faculdade de Letras de Coimbra. Como unidade de investigação financiada e regularmente avaliada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o CLP integra um conjunto de investigadores envolvidos em diversos projetos de pesquisa, incluindo aquele que foi mencionado.

No caso de “Figuras da Ficção”,  cerca de vinte investigadores têm participado regularmente nas atividades do projeto, juntando-se a estes outros mais que, por se encontrarem fora de Portugal (em particular no Brasil), só episodicamente podem facultar a sua colaboração ao que regularmente vamos fazendo: colóquios, workshops, conferências, etc. No final do seu percurso, o projeto “Figuras da Ficção” pretende chegar a um Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, obra já em curso de preparação  (…).

Conselheiro Acácio, por Bernardo Marques

Centrando-se na personagem, nos seus modos de existência ficcional e paraficcional, nas suas figurações e nos seus avatares, o projeto “Figuras da Ficção” e, decorrentemente, este livro tratam de revalorizar a fundamental categoria narrativa que aqui está em equação. Durante décadas, a personagem viveu na penumbra para que foi relegada por desenvolvimentos da teoria literária que preferiram, com maior ou menor justificação epistemológica, centrar-se noutras categorias da narrativa. Nos últimos vinte anos, os estudos narrativos, tendo colhido muitas das conquistas conceptuais e metodológicas da narratologia dos anos 80 do século passado, redescobriram na personagem um apreciável potencial de investimento semântico, de dinamismo transficcional e de articulação intercultural. Por isso e com alguma ironia, David Herman, um dos protagonistas dos estudos narrativos  da  atualidade, declarou que os boatos sobre a morte  da narratologia foram claramente exagerados.

A redescoberta da personagem conduziu a ponderação teórica e os seus efeitos operatórios a outros terrenos, para além  da ficção  literária. Não impede isto que se reconheça  que é na ficção literária que a personagem continua a exibir tudo o que dela faz uma decisiva categoria da narrativa. Mas podemos continuar a falar da narrativa, da personagem e das suas figurações, quando estudamos o cinema, o discurso de imprensa, as narrativas televisivas, os videogames, a publicidade, a historiografia, a hiperficção, a banda desenhada, o romance gráfico e até mesmo a comunicação  quotidiana em que a narrativa se “naturaliza” a cada momento. Acudindo a todas estas (e a outras ainda) hipóteses de trabalho, os modernos estudos narrativos convocam, em fecundo movimento interdisciplinar, os estudos mediáticos, as ciências cognitivas, a cibercultura, os estudos femininos, os estudos comparados, os estudos culturais, etc.

(Da “Nota Prévia” a Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. 3ª ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018; obra em acesso livre aqui)

 

 

 

 

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