Monthly Archives: Outubro 2013

Morte e ressurreição da personagem

Os estudos narrativos, no estado em que hoje os conhecemos,  reincorporaram no seu âmbito uma categoria narrativa que durante algumas décadas foi subalternizada. Chama-se personagem essa categoria sem a qual não há relato que se sustente. Mas de certa forma foi isso mesmo que os pais fundadores dos estudos narrativos ignoraram, quando a análise estrutural da narrativa dos gloriosos anos 60 procurou cumprir um projeto de trabalho de base dedutiva. “Perante  milhões de relatos”, dizia Roland Barthes, a análise da narrativa está “forçosamente condenada a um procedimento dedutivo;  está obrigada a conceber antes de mais um modelo hipotético de descrição (…), descendo em seguida, pouco a pouco, a partir desse modelo, até às espécies que, ao mesmo tempo, nele participam e dele se afastam”  (“Introduction à l’analyse structurale des récits”, Communications, 8, 1966, p. 2).

esqueletos_de_caricaturas_9iL_wide           O projeto estruturalista era de índole translinguística e o seu aprofundamento semiótico,  na abordagem greimasiana, acentuou a dimensão funcionalista dos agentes narrativos,  reduzidos à condição  abstrata de papéis actanciais sem densidade humana. Exagerando um pouco, mas não muito, podemos mesmo dizer: nesse tempo, o autor foi morto e levou consigo, para a cova que lhe abriram, a personagem, companhia solidária e a vários títulos conveniente (modestamente também  ajudei ao funeral, mas não foi por mal…). Mesmo a narratologia de Genette, verdadeira revolução copernicana dos estudos sobre a narrativa, cuja sistemática construção até hoje tem validade, fixou-se na articulação do discurso e na dinâmica da narração e dos protagonistas que nela intervêm. Quando, em 1983, reviu e reajustou as suas propostas, Genette respondeu a quem nelas criticara a omissão da personagem, notando que em “Le discours du récit” se ocupara “do discurso narrativo e não dos seus objetos” (G. Genette, Nouveau discours du récit. Paris: Seuil, 1983, p. 93); uma distinção que, evidentemente, reiterava a dicotomia história/discurso que fundamentava a narratologia de então. Sendo assim, a personagem ficava de fora, abandonada à sua sorte e olhada  como  “esse ‘ser vivo sem entranhas’ que aqui não é (…) senão um efeito de texto” (G. Genette, op. cit.,  p. 93).

Terá sido por estas (e por outras) que a pertinência operatória da narratologia se foi desvanecendo? Talvez, mas não só. Em todo o caso,  é preciso dizer que alguma coisa dela perdurou e perdura, em parte porque a narratologia incorporou subdomínios muito fecundos (como a pragmática narrativa) e abriu-se interdisciplinarmente à psicanálise, à sociocrítica, à teoria da receção, à retórica, aos estudos fílmicos,  etc. De modo que, not so fast, a narratologia não morreu. Ou então, para o dizer como David Herman:  “Parece, em resumo, que os boatos acerca da morte da narratologia têm sido enormemente exagerados” (D. Herman, Nartatologies. Columbus: Ohio Statate Univ. Press, 1999, p.  2). E foram mesmo, conforme se percebe do que hoje conhecemos como narratologia pós-clássica ou, como prefiro dizer, estudos narrativos; a sua conjugação com as solicitações e com os fundamentos epistemológicos da retórica, das ciências cognitivas, dos estudos femininos, dos estudos culturais ou dos estudos mediáticos trouxe de novo ao nosso convívio a personagem, essa figura que nenhuma narrativa dispensa, porque nela, como magistralmente explicou Paul Ricoeur, está inscrita uma temporalidade humana que é co-natural à própria temporalidade narrativa.

(“Pessoas de livro: figuração e sobrevida da personagem”, em preparação)

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O retrato segundo Saramago

digitalizar0009O que este estudo quis, num primeiro momento, foi pensar que a galeria em que estão pousados os retratos da história, predominantemente de retratos masculinos, os retratos das mulheres, poucos dos que há, são todos muito recentes e muitos deles não feitos por mulheres. Não é que no decorrer da história não tenha havido mulheres ou para usar de um termo desconexo, “grandes mulheres”. Mas é que numa história de homens e contada por homens o espaço reservado a elas foi sempre o de serem projetos amontoados à sombra; essas figuras ocupam espaços recônditos, ficam atrás das cortinas onde são manipuladas as danças das marionetes, fazendo jus ao dito excludente de que “Por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher”.

A projeção de um imaginário feminino se dá somente quando as mulheres passam a alimentar os discursos que sustêm seus próprios retratos. E somente se configura como relevo histórico quando os homens passam a entender  que a configuração do mundo só pode ser apreendida no diálogo entre masculino e feminino. A supressão de ambos os polos parece ser tão danosa quanto a supressão do mal em detrimento do bem. Tudo parece depender de um equilíbrio para que se pense num conceito coerente acerca do mundo. Essa tomada de cenário pelo que estava na sombra parece ser o grande tema que sustenta essas mulheres saramaguianas aqui lidas. Não é à toa que as protagonistas são signos de visão.

O resultado desse esboço é o que aqui se apresenta significando o reengendrar de outras imagens nessa galeria de discursos em torno seja do feminino seja da obra saramaguiana. Não se constitui, claro está, num estudo definitivo e, quando falo de prosa e/ou obra saramaguiana, estou levando em consideração a produção literária do escritor – crônica, conto, teatro, romance – editada até seu último romance publicado em vida, Caim. Essa ressalva é necessária porque em outubro de 2011 é publicado aquele que seria o segundo romance da carreira do escritor português e que findou sendo o último, Clarabóia,  obra que este estudo não cita e que ficará como consideração para uma futura reedição deste trabalho.

  Pedro Fernandes Neto, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago. Curitiba: Appris, 2012 (do prefácio).

 

Sete-Sóis, Sete-Luas, por J. Santa-Bárbara

Sete-Sóis, Sete-Luas, por J. Santa-Bárbara

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O herói desportivo: the special one

Eusébio com Fernando Marques, o Formidável

             A biografia é um género  em que  se combinam  duas propriedades que muito importam à heroização do atleta. Primeiro: a biografia exalta uma personalidade que merece ser destacada do fluxo da História. Segundo: a biografia recorre a  elementos paraficcionais,  ou seja, componentes da “história” contada que, não sendo verificáveis empiricamente, às vezes ocultam  zonas pouco nobres da vida passada. Com a conivência, até com a exigência dos interessados, as chamadas biografias autorizadas são exímias em cultivar esses estratagemas de camuflagem.

Sintomaticamente, as biografias de homens e de mulheres  do  desporto são quase sempre da autoria de jornalistas ou, no mínimo, escritas em regime jornalístico. É o que se percebe quando consultamos  títulos como os que se seguem: Cristiano Ronaldo: A Verdadeira História do Melhor Futebolista do Planeta (2008), por Tom Oldfield; Rosa Mota: Memória de uma Carreira (1999), por Leonor Pinhão;  Carlos Lopes (1992), por Carlos Pinhão. Para além destes e de outros mais, lembro  o caso  bizarro de uma autobiografia escrita não pelo próprio, como mandam as regras do género, mas por um escriba de serviço:  Meu nome é Eusébio: autobiografia do maior futebolista do mundo (1966),  prefácio e narrativa recolhida por Fernando F. Garcia. Recolhida e certamente reescrita,  porque  quem tem talento com os pés não o tem necessariamente com a pena.

Trata-se, em geral, de obras de extensão  reduzida, em estilo simples, direto e pouco dado a flores de retórica (a não ser a hipérbole, é claro), relatando origens humildes, a que se seguiu a árdua superação de obstáculos de toda a ordem, com o justo prémio de taças, campeonatos, medalhas e recordes, por entre viagens incessantes, duros treinos e algumas lesões; um trajeto de vitórias, em suma, aqui e ali alternando com uma ou outra chorada derrota. Não faltam na biografia testemunhos do visado e não poucos depoimentos de familiares, amigos, treinadores e companheiros de profissão. Tudo isso e  muitas imagens, sobretudo das proezas, às vezes também de fracassos que humanizam o herói.

Retomo aqui um aspeto relevante desta reflexão: o império das imagens enquanto instância de consolidação  do herói desportivo. E recupero  imagens talvez já esquecidas, que deram a volta ao  pequeno mundo português, recolhidas no dia em que um herói  foi derrotado e com ele uma nação. Refiro-me às fotografias de  Eusébio  em lágrimas,  a 26 de julho de 1966, logo depois da derrota por 2 a 1 com a Inglaterra. Pois bem: o que impressiona  não é apenas a desolação de um moço simples de 24 anos; a desolação fala por si e não carece de mais comentários. Mas a imagem é também fotografia do fotógrafo, não do que a captou, é claro, mas da figura que apoia Eusébio,  uma presença que ali significa o seguinte:  o fotógrafo estava lá, como tinha que estar, mas por instantes fez parte do drama como ser humano. Com a câmara fotográfica momentaneamente esquecida, o fotógrafo diz-nos, sem o dizer: houve um tempo em que o espetáculo desportivo e o seu herói, começando  já a ser imagem, consentiam  a trégua de um gesto de carinho. E assim, o fotógrafo não fotografou porque preferiu confortar o herói vencido, porventura inocente dessa sua condição.

Quer isto dizer que os atletas já não choram? De modo algum. Quase quatro décadas depois, no derradeiro jogo do Euro 2004, um  herói  ainda em crescimento  não conteve o pranto. Mas nesse dia, o jovem quase adolescente não teve consigo quem o acalentasse; Ronaldo lágrimas 3todo ele era imagem, uma imagem de que o fotógrafo não abdicou. Por isso, quando terminou a final, Cristiano Ronaldo  chorou sozinho, perdido no relvado onde foi herói por cumprir e vítima  abandonada à crueza de imagens  quase indecorosas. Nesse dia, o fotógrafo estava onde devia, atrás da câmara; com ele estavam  todos os agentes das imagens que (passe a redundância) fazem ícones e configuram heróis. Heróis que, quando derrotados, pagam o preço de uma cruel solidão que o poder das imagens maldosamente acentua.

Foi de peito aberto que, em junho desse ano de 2004, em Londres, um treinador português contratado por um milionário russo e chamado José Mourinho proferiu uma declaração que o acompanhará pelo resto da vida:  “I am the European champion. I think I am a special one.” Assim mesmo, sem medos, rodeios ou modéstias, ficava enunciado o que parecia ser o princípio de uma narrativa, mas que, afinal, era já a sua continuação e a promessa de novos e mais excitantes capítulos. Mourinho, de resto, logo em 2003 tivera direito a uma biografia, da autoria de Luís Lourenço, biografia que hoje sabemos provisória, porque falta muito para a história  acabar.

Quem era  José Mourinho e por que razão este herói então em projeto indignou alguns, chocou outros e seduziu não poucos? Era alguém que sabia que, ali no coração da chamada “pátria do futebol”, estava a falar para o mundo (as televisões filmaram e as imagens permanecem no ciberespaço); alguém que afirmava um poder que nada autorizava, a não ser a  crença  nas virtudes de um heroísmo  por provar. E assim,  um treinador jovem, chegado de um pequeno país do sul, historicamente colónia económica da Grã-Bretanha,  afrontava o John Bull robusto e prosaico. E fazia-o na própria casa de quem o acolhia, como que compensando, quase quarenta anos depois, a derrota no Mundial de 66. As lágrimas de Eusébio estavam vingadas e os portugueses juntamente com elas; e mais vingadas ficaram quando o jovem treinador mostrou que era herói por palavras e por atos. Por tudo isso e pela imagem que soube cultivar, mais o cognome que o próprio Mourinho escolheu, como se assim se definisse a marca de água que o distingue como herói desportivo.

(Excerto de “The Special One. Fenomenologia do herói desportivo”, in Comunicação & Educação, ano XVIII, 2, pp. 63-74)

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