Monthly Archives: Janeiro 2020

Giovanni Fazio

Giovanni Fazio é a personagem principal do primeiro romance de Augusto Abelaira (1926-2003), A cidade das flores, publicado em 1959. Esta obra, cuja ação ocorre em Florença durante o período de vigência do regime fascista de Benito Mussolini, integra-se na segunda fase do movimento neorrealista português e pretendeu contornar a vigilância da censura política salazarista, camuflando a descrição das iniquidades e das injustiças do regime social vigente em Portugal a coberto da apresentação em dois tempos (antes e depois da segunda guerra mundial) da situação política italiana. Como refere explicitamente Abelaira no posfácio da obra, publicado somente em edições dadas à luz no pós-25 de abril, “quando eu escrevia Florença pensava em Lisboa, quando escrevia Mussolini (que já estava morto e enterrado) pensava em Salazar” (Abelaira, 1984: 307).

Giovanni Fazio surge, tal como Abelaira refere no posfácio à segunda edição, como o representante de “uma certa classe média simultaneamente cética e otimista, mais capaz de pensar que de agir, suscetível de heroísmo na recusa, mas pouco dado ao gesto ofensivo e prático” (295-296). Assim sendo, enreda-se nos problemas da sua consciência, por perceber que a procura da felicidade individual pode ser criminosa quando tantos outros dos seus concidadãos sofrem perseguições, abdicando do seu bem pessoal a favor da comunidade (algo que, manifestamente, Giovanni nunca conseguiu fazer). Nessa medida, esta personagem anuncia um tema que, no segundo romance de Abelaira, Os desertores (1960), se assume com maior premência e visibilidade: a segurança, o conforto pessoal e os desígnios individuais tornam a classe média urbana (em que as personagens deste romancista se integram) desistente, sem coragem, vil e propensa à autocomiseração, porque os seus elementos tentam, apesar de tudo, viver uma felicidade mitigada, constrangida, uma tristeza contentinha (como aquela que poetas como Alexandre O’Neill descreverão de forma lírica e desapaixonada). Esse dilema moral é assumido por Giovanni Fazio quando reconhece que “já não vale a pena lutar, nada poderemos, fomos traídos, até por nós mesmos” (158).

(por Carlos Machado, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

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Mulher do Médico

A personagem «mulher do médico» integra os romances Ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre a lucidez (2004), de José Saramago e é apresentada ao leitor no momento em que o seu marido, um oftalmologista, investiga a origem da «cegueira branca» que afetou alguns dos seus pacientes. Tal como as outras personagens deste romance, não conhecemos o seu nome próprio. Porém, ainda que identificada através de uma profissão que não é a sua e de um mero grau de parentesco, a mulher do médico desempenha uma função primordial nesta narrativa distópica. Ela é a única personagem que manterá a visão e, assim sendo, é a única que assiste a todas atrocidades cometidas durante uma misteriosa epidemia de cegueira.

Para que não seja separada do seu marido quando este é levado para a quarentena, a mulher do médico finge também estar cega. Esta decisão condena a mulher do médico a uma luta pela sobrevivência dentro de um espaço onde o ser humano desce «todos os degraus da indignidade» (Saramago, 1995: 262). Ainda que não o faça diretamente (contamos com a voz de um narrador e com a intervenção de outras personagens ao longo do percurso), é ela que guia o leitor e o ajuda a explorar os espaços de um antigo manicómio e de uma cidade pós-apocalíptica. Dotada do poder de visão, é a mulher do médico que, impiedosamente, torna o leitor numa testemunha dos atos bárbaros e cruéis praticados em Ensaio sobre a cegueira.

(Daniela Côrtes Maduro, “Mulher do Médico”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

Julianne Moore, em Blindness, realização de Fernando Meirelles.

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Álvaro Silvestre

Personagem do romance Uma abelha na chuva (1953), Álvaro Silvestre é casado com Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, com ela partilhando o protagonismo neste romance neorrealista.

Álvaro Silvestre nasce no seio de uma família de comerciantes e proprietários agrícolas, na terra pobre da Gândara, entre a Ria de Aveiro e o Baixo Mondego, onde um povo de jornaleiros arduamente arranca a sua precária subsistência a um solo pouco generoso. Talvez por isso tenha sido tão permeável ao pavor da miséria que o pai lhe incutiu desde criança e que, acompanhando-o ao longo da vida, está na origem da ganância dos seus atos, nos quais se traduz a lição paterna: “o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela” (Oliveira, 1980: 110-111). Esta ganância coabita, contudo, na pessoa de Álvaro Silvestre, com uma fraqueza de caráter que o lança em desesperados confrontos com o remorso, depois dos atos cometidos. É então vencido pelo medo da punição divina, o que faz dele, nas palavras de Maria dos Prazeres, sua mulher, “o homem cobarde que nem coragem tem para ser ganancioso. Faz tudo para saciar a cobiça, o justo e o injusto, mas depois cobre-lhe a alma a lepra do remorso e corre à igreja, ao confessionário, às penitências. Rói-o o pecado como rói o musgo a concha da lapa” (25). Ao ritmo destas cíclicas alterações de comportamento, o homem sem escrúpulos nos negócios, implacável com os fracos e até mesmo cruel, é rapidamente substituído por um ser acuado pelo medo e o remorso, frágil, doentio e paralisado pelas emoções que não controla. Como reação ao desconforto que assim o domina, procura no álcool o alheamento que a sua natureza indolente mais deseja. Esta indolência é, de resto, a marca que mais sobressai na primeira imagem de Álvaro Silvestre, facultada por um narrador que, ao proceder à figuração da personagem no início da ação, insiste na “lentidão natural”, no “passo oscilante e pesado”, nas “feições paradas, sonolentas” e nos “olhos pouco ágeis” (2, 3, 8).

(por Maria do Rosário Cunha, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesacontinuar a ler aqui)

(João Guedes como Álvaro Silvestre, no filme de Fernando Lopes, 1971)

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Intermedialidade: hipóteses de trabalho

A intermedialidade apoia-se no princípio do diálogo entre campos disciplinares, liga-se ao culto da interdisciplinaridade e à chamada teoria da integração conceptual (conceptual blending; cf. Schneider & Hartner, 2012). Sublinha-se, no quadro destes movimentos de interação, os seguintes aspetos que a intermedialidade comporta: uma conceção dinâmica e trans-semiótica da narrativa e dos discursos mediáticos; a tendência para a superação de fronteiras entre linguagens; a recusa de uma hierarquização que institua prioridades entre práticas culturais (do tipo: a literatura é superior ao cinema e este à televisão). A narrativa com propensão intermediática desenvolve uma vocação dinâmica e transnarrativa que solicita, no plano recetivo, um correlato dinamismo de leitura e análise, com os aprofundamentos exegéticos que daí decorrem.

(Resumo de “Intermedialidade: hipóteses de trabalho e casos de estudo”, in Intermedialidade, vol. 1, n.º especial (2019): Identidade e Retrato: Novos Paradigmas | Novos Media; ed. Eunice Ribeiro; artigo integral em  https://revistas.uminho.pt/index.php/2i/article/view/2433/2528)

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Figuras da Ficção 6

O Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6”, organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa, realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 27 a 29 de abril de 2020.

O presente colóquio conta com o contributo de investigadores do projeto “Figuras da Ficção” e abre-se a outros participantes, incluindo conferencistas com reconhecido prestígio internacional. Nomes confirmados: Darío Villanueva (Univ. de Santiago de Compostela) e Maria Eunice Moreira (Pontifícia Univ. Católica do Rio Grande do Sul).

O tema do Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” é “Sobrevidas da Personagem”. Trata-se de valorizar a personagem como entidade que, sobretudo a partir da figuração em narrativas literárias, pode ser reencontrada em relatos literários e não literários e em diversos cenários mediáticos. A transficcionalidade, as adaptações (p. ex., no cinema, na televisão ou na banda desenhada, mas também em filmes a partir de bandas desenhadas ou em livros baseados em filmes), os videojogos, a publicidade, as edições ilustradas ou os textos de imprensa são, entre outros, contextos e manifestações da sobrevida da personagem.

Ver em https://www.youtube.com/watch?v=wVDNLkfyu2c&feature=youtu.be

 

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