Monthly Archives: Janeiro 2019

Um dicionário que faltava

No ano já distante de 1987, dois jovens estudiosos da Literatura e da Língua (Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes), traziam a público um Dicionário de Narratologia.

O citado livro preencheu decerto uma lacuna importante numa época em que os estudos literários e os estudos linguísticos convergiam na oferta formativa das universidades, partilhando métodos e objetivos.  Após ter sido reeditado por várias vezes, em Portugal e no estrangeiro, poderia supor-se que o citado Dicionário tinha cumprido a sua função. De forma algo inesperada, porém, C. Reis (já sem a companhia da colega) decidiu empreender um vasto esforço de renovação e transformação, que se traduz no livro realmente novo que acaba de sair.

É justo destacar, em primeiro lugar, que esta obra resulta de um ato de vontade determinada, que exigiu um trabalho longo, escrupuloso e porfiado, onde confluem investigação ampla e exigente, espírito seletivo e apurado sentido pedagógico.

Redigir cada um dos verbetes que fazem parte deste Dicionário implica conhecimento profundo e atualizado das matérias em causa.  Mas exige ainda outros dois requisitos preciosos: rigor e sentido de equilíbrio. Sobre conceitos como analepse, banda desenhada, cinema, identidade, interdisciplinaridade, narrativa digital ou personagem (para citar apenas alguns dos artigos mais extensos que figuram na obra) é bastante mais difícil escrever um artigo de 3 000 caracteres do que um ensaio de 20 000. Nos artigos maiores como nos mais breves, adivinha-se o ideal que norteou o autor: não podia faltar o essencial e não devia subsistir o dispensável.

J. A. Cardoso Bernardes, “Um Dicionário que faltava”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1260, 16 a 29 de janeiro de 2019, pp. 18-19;(continuar a ler)

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Rodrigo de Sousa, personagem de Garrett

Personagem do último romance (inacabado) de Almeida Garrett, Rodrigo de Sousa é um emigrante português radicado no Brasil. A ação passa-se no ano 1839, em Itahé, algures no Recôncavo Baiano. Como figura social, o visconde, talvez o primeiro “brasileiro” da nossa literatura romântica, difere muito dos estereótipos mais tarde popularizados pela novelística camiliana: proprietário de um vasto domínio agrícola, “senhor de inumeráveis engenhos, de minas de brilhantes […] e capitalista”, é um homem culto, de costumes urbanos e afidalgados, características muito pouco consentâneas com o espaço sertanejo.

A família – o visconde, a mulher e a filha, ambas igualmente cultas e elegantes – habita um palácio excêntrico praticamente isolado do mundo, tendo sob sua dependência numerosos criados e escravos negros. Além destes, reside também nos limites da propriedade uma pequena comunidade índia que disfruta de certa autonomia. Os dois grupos étnicos não se relacionam bem, pois os índios desprezam os negros, sendo fator de harmonia a tutela paternal dos viscondes. Rodrigo administra com humanidade todo este utópico microcosmo, auxiliado pela ação filantrópica da mulher. Os escravos respeitam-no, os índios livres toleram-no: graças às suas qualidades de caráter, mas também pelo facto de ser casado com uma brasileira nativa, o colonizador branco (“o estrangeiro”) não é visto por eles como um opressor.

Ao contrário do que sucede com as outras personagens, que dispõem de capítulos dedicados, a caraterização de Rodrigo é essencialmente indireta e descontínua. A primeira apresentação faz-se através da perspetiva de um visitante francês, um botânico amador que ali passa alguns dias em viagem de estudo. O visconde aparenta ter cerca de 40 anos, e a sua atitude desenvolta impressiona bem, de “uma cortesia fashionável” mas de “fisionomia aberta e cordial” (p. 222). Em conversas de circunstância mostra-se cosmopolita mas diz-se saudoso da sua pátria, cuja situação política o desgosta. É também sob o olhar surpreendido (e divertido) do velho fidalgo francês que se vai conhecendo o exótico palácio dos viscondes e o ambiente ultrarrefinado que cultivam, como se estivessem em Londres ou em Paris. A imagem social do anfitrião não fica, porém, comprometida com este contexto algo paródico, pois não tem maneiras de parvenu – antes de “uma simplicidade de gran’senhor, familiarizado com a opulência e superior a ela” (p. 242). Seguro de si, mostra-se desprendido em relação aos luxos britânicos da casa, decorada ao gosto caprichoso da mulher.

(Maria Helena Santana, “Rodrigo de Sousa”, in  Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

 

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