Category Archives: Almeida Garrett

Rodrigo de Sousa, personagem de Garrett

Personagem do último romance (inacabado) de Almeida Garrett, Rodrigo de Sousa é um emigrante português radicado no Brasil. A ação passa-se no ano 1839, em Itahé, algures no Recôncavo Baiano. Como figura social, o visconde, talvez o primeiro “brasileiro” da nossa literatura romântica, difere muito dos estereótipos mais tarde popularizados pela novelística camiliana: proprietário de um vasto domínio agrícola, “senhor de inumeráveis engenhos, de minas de brilhantes […] e capitalista”, é um homem culto, de costumes urbanos e afidalgados, características muito pouco consentâneas com o espaço sertanejo.

A família – o visconde, a mulher e a filha, ambas igualmente cultas e elegantes – habita um palácio excêntrico praticamente isolado do mundo, tendo sob sua dependência numerosos criados e escravos negros. Além destes, reside também nos limites da propriedade uma pequena comunidade índia que disfruta de certa autonomia. Os dois grupos étnicos não se relacionam bem, pois os índios desprezam os negros, sendo fator de harmonia a tutela paternal dos viscondes. Rodrigo administra com humanidade todo este utópico microcosmo, auxiliado pela ação filantrópica da mulher. Os escravos respeitam-no, os índios livres toleram-no: graças às suas qualidades de caráter, mas também pelo facto de ser casado com uma brasileira nativa, o colonizador branco (“o estrangeiro”) não é visto por eles como um opressor.

Ao contrário do que sucede com as outras personagens, que dispõem de capítulos dedicados, a caraterização de Rodrigo é essencialmente indireta e descontínua. A primeira apresentação faz-se através da perspetiva de um visitante francês, um botânico amador que ali passa alguns dias em viagem de estudo. O visconde aparenta ter cerca de 40 anos, e a sua atitude desenvolta impressiona bem, de “uma cortesia fashionável” mas de “fisionomia aberta e cordial” (p. 222). Em conversas de circunstância mostra-se cosmopolita mas diz-se saudoso da sua pátria, cuja situação política o desgosta. É também sob o olhar surpreendido (e divertido) do velho fidalgo francês que se vai conhecendo o exótico palácio dos viscondes e o ambiente ultrarrefinado que cultivam, como se estivessem em Londres ou em Paris. A imagem social do anfitrião não fica, porém, comprometida com este contexto algo paródico, pois não tem maneiras de parvenu – antes de “uma simplicidade de gran’senhor, familiarizado com a opulência e superior a ela” (p. 242). Seguro de si, mostra-se desprendido em relação aos luxos britânicos da casa, decorada ao gosto caprichoso da mulher.

(Maria Helena Santana, “Rodrigo de Sousa”, in  Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

 

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Um bispo de má memória

Personagem de O Arco de Sant’Ana, de Almeida Garrett, o Bispo do Porto (que nunca recebe nome) inspira-se numa figura histórica de má memória, evocada por Fernão Lopes na Crónica de El-Rei D. Pedro. O episódio que o envolve é aí sucintamente relatado no cap. VII, “Como El-Rei quisera meter um bispo a tormento porque dormira com uma mulher casada”. Garrett tira partido desta narrativa (centrada no castigo moral intentado pelo rei Justiceiro) para desenvolver uma figura romanesca adaptada a um romance histórico de fortes contornos políticos.

A situação ficcional – uma revolta popular contra o poder discricionário do bispo – reporta-se à Idade Média mas tem implicações diretas no contexto do cabralismo, nos anos 40 do século XIX: não só o bispo passa a desempenhar o papel de vilão face ao povo portuense, explorando-o e oprimindo-o, como o seu castigo serve de exemplo aos adeptos do regime autocrático vigente. Tratava-se, mais concretamente – segundo o Autor explica no Prólogo da 1ª edição (publicada anónima, em 1845), – de denunciar os perigos da “reação” antiliberal por parte da “oligarquia eclesiástica” (Garrett, 2004: 59) que voltava a rodear os bastidores do poder.

Embora o bispo não seja o protagonista, a sua composição é a mais elaborada das personagens do romance, seja pelas características negativas de que se reveste (algo exageradas na primeira parte), seja pela posterior evolução, em que se complexifica e humaniza. No capítulo inicial da obra, a tirania do bispo é denunciada numa conversa conspirativa entre duas mulheres; uma delas, Aninhas, a boa esposa de um ourives, recebeu ameaças de sedução e em breve será raptada a mando do abusador. Mais adiante a prepotência do clérigo revela-se de viva voz, quando em privado despreza os inimigos e o próprio rei (“tão senhor sou eu em meu feudo como ele em seu reino”; Garrett, 2004: 96); já em público, o domínio da sua majestática presença consegue conter o povo amotinado e os magistrados. Apenas em relação a Vasco, seu protegido, demonstra preocupação e afeto, e apenas o estudante rebelde lhe faz claudicar os gestos de autoridade. Adivinha-se um segredo: saber-se-á depois que é seu filho natural (continuar a ler).

Maria Helena Santana, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

 

 

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