Monthly Archives: Julho 2018

Gustavo ou a paixão por Eva

Narrador e coprotagonista do romance saído em 1870, Gustavo conta ao leitor a difícil experiência amorosa vivida entre os dezanove e os vinte anos, na fase em que todas as quimeras e ilusões pareciam entrosar-se com a realidade. Num tom de progressivo desencanto e pessimismo ontológico (a raiar uma certa misoginia) a personagem relata, na primeira pessoa e com alguma distância crítica, o grande desengano da sua juventude: a paixão por Eva, uma mulher insidiosa e pérfida, que vem a revelar-se casada e presa a uma esfera social elevada de que nunca abdica.

O jovem escultor, que pouco mais tem para oferecer que o seu amor incondicional, tecido por um caráter “romântico” e por um espírito entregue ao platonismo (Nazaré, 1987: 79), faz a análise possível de uma aprendizagem que o levará a apontar o dedo acusatório àquela que o perdeu: “Que fizeste da minha mocidade, mulher?” (240) Trata-se de uma autonálise embotada, por vezes, nem sempre pautada pela lucidez, já que a confissão e o monólogo interior se expressam por via de um discurso torturado, envolto numa retórica sentimental de mágoa ainda irreprimida e um pouco fastidiosa. O uso excessivo do registo epistolar compromete a visão desapaixonada dos acontecimentos que só virá a ser reposta quando o amante de Eva tiver acesso ao diário da amada, denunciador da “hidra chamada mentira” (239) e da “ingratidão de víbora que envenena o próprio leite que a alimentou;” (240).

Leitor culto, como nos mostra ao longo do romance, Gustavo torna-se, no fundo, vítima ingénua e sonhadora das suas leituras (“Seduziu-me a forma aérea e vaporosa em que o poeta [Heinrich Heine] expressava os magníficos devaneios da sua alma sensível e apaixonada.”) e das suas personagens literárias prediletas. A identificação de Eva com Marion Delorme de Vítor Hugo, “un ange de lumière, / Une être chaste et doux…” (58), dita praticamente o equívoco da relação em que, em vez de uma mulher redimida, o jovem reconhece estar perante uma dissimulada calculista. (continuar a ler)

Marisa das Neves Henriques, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

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Um bispo de má memória

Personagem de O Arco de Sant’Ana, de Almeida Garrett, o Bispo do Porto (que nunca recebe nome) inspira-se numa figura histórica de má memória, evocada por Fernão Lopes na Crónica de El-Rei D. Pedro. O episódio que o envolve é aí sucintamente relatado no cap. VII, “Como El-Rei quisera meter um bispo a tormento porque dormira com uma mulher casada”. Garrett tira partido desta narrativa (centrada no castigo moral intentado pelo rei Justiceiro) para desenvolver uma figura romanesca adaptada a um romance histórico de fortes contornos políticos.

A situação ficcional – uma revolta popular contra o poder discricionário do bispo – reporta-se à Idade Média mas tem implicações diretas no contexto do cabralismo, nos anos 40 do século XIX: não só o bispo passa a desempenhar o papel de vilão face ao povo portuense, explorando-o e oprimindo-o, como o seu castigo serve de exemplo aos adeptos do regime autocrático vigente. Tratava-se, mais concretamente – segundo o Autor explica no Prólogo da 1ª edição (publicada anónima, em 1845), – de denunciar os perigos da “reação” antiliberal por parte da “oligarquia eclesiástica” (Garrett, 2004: 59) que voltava a rodear os bastidores do poder.

Embora o bispo não seja o protagonista, a sua composição é a mais elaborada das personagens do romance, seja pelas características negativas de que se reveste (algo exageradas na primeira parte), seja pela posterior evolução, em que se complexifica e humaniza. No capítulo inicial da obra, a tirania do bispo é denunciada numa conversa conspirativa entre duas mulheres; uma delas, Aninhas, a boa esposa de um ourives, recebeu ameaças de sedução e em breve será raptada a mando do abusador. Mais adiante a prepotência do clérigo revela-se de viva voz, quando em privado despreza os inimigos e o próprio rei (“tão senhor sou eu em meu feudo como ele em seu reino”; Garrett, 2004: 96); já em público, o domínio da sua majestática presença consegue conter o povo amotinado e os magistrados. Apenas em relação a Vasco, seu protegido, demonstra preocupação e afeto, e apenas o estudante rebelde lhe faz claudicar os gestos de autoridade. Adivinha-se um segredo: saber-se-á depois que é seu filho natural (continuar a ler).

Maria Helena Santana, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

 

 

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