Monthly Archives: Outubro 2012

Eppur si muove!

As personagens movem-se? Depende. As personagens de ficção movem-se dentro das (aliás porosas) fronteiras da ficção (passeiam, dançam, lutam, amam-se) e migram até para além delas, quando as reencontramos nas nossas vidas: em Oviedo, em Lisboa, no Rio de Janeiro ou em Embu das Artes, São Paulo. Outros movimentos migratórios: D. João V move-se do século XVIII português para “dentro” do Memorial do Convento de José Saramago e chega ao nosso tempo; e o padre Bartolomeu de Gusmão transporta a passarola para o cenário do romance,  aparecendo lá, contudo, com outro nome que, aliás, também é o dele: Bartolomeu Lourenço. O que nos obriga a perguntar: é o mesmo? A resposta é obviamente ambivalente: sim e não.

Outros movimentos mais ousados: os das personagens que em princípio deveriam estar imobilizadas numa imagem estática, seja pictórica, fotográfica ou outra. Um texto de Marie-Laure Ryan sobre narração em contexto mediático (“Narration in Various Media”, em Peter Hühn et alii, Handbook of Narratology. Berlin/New York: Walter de Gruyter, 2009) diz-nos que as imagens, apesar de tudo, possuem alguma força narrativa, quando comparadas com a agilidade e com o potencial de narratividade da linguagem verbal; nas representações icónicas em políptico ou similar, a configuração de uma ação em diversas cenas confirma aquele vigor narrativo, antepassado ilustre da banda desenhada, que é consabidamente mais ousada e exigente quando não acompanhada por um texto verbal (os balões, é claro).

Benozzo Gozzoli, A dança de Salomé

Ryan evoca a este propósito uma tela de Benozzo Gozzoli, “A dança de Salomé e a decapitação de São João Batista” (1461-62). Nela vemos três momentos de uma ação conhecida: a sedução de Herodes Antipas por Salomé que dança e que depois oferece a sua mãe Herodias  a cabeça do profeta, porque o tetrarca cumprira a promessa feita.  Só que a sequência temporal e o movimento das personagens decorre num mesmo quadro, fragmentado, contudo, em três microcenários: o da dança, o da decapitação e o da oferta. Assinala Ryan: “os olhos não leem  linearmente a história contada pelo quadro (i.e., da esquerda para a direita), mas seguem um trajeto circular, da direita para a esquerda e para o centro”; de tal modo, que “um espetador não familiarizado com a história bíblica seria incapaz de descodificar a lógica narrativa”.

Do mesmo modo, o movimento dos cegos que caem, na famosa tela de Pieter Bruegel (o velho), de 1568, será célere e imparável, na medida em que a “leitura” do quadro for capaz de evocar o relato bíblico de Mateus: “Deixai-os, são cegos guias de cegos. Se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco.” Num outro contexto e mais próximo de nós:  no final d’Os Maias,

Pieter Bruegel, A parábola dos cegos

durante a sombria e quase sinistra visita de Carlos da Maia e João da Ega ao Ramalhete desabitado, reaparece num quadro a condessa de Runa, que aliás só assim, como personagem retratada, surgira no romance. Agora, quebrando a imobilidade que a amarra à imagem e ao tempo recôndito a que pertence, a personagem  aparenta, aos olhos de Carlos, um movimento que diz tudo acerca do destino da família: “No salão nobre os móveis de brocado, cor de musgo, estavam embrulhados em lençóis de algodão, como amortalhados, exalando um cheiro de múmia a terebintina e cânfora. E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça…” (Os Maias, cap. XVIII).

Carlos Reis

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A sobrevida das personagens (3)

Aquilo a que tenho chamado a sobrevida das personagens envolve um processo de deriva: migrando dos mundos possíveis ficcionais para o mundo real, as personagens ficcionais ganham, em relação ao texto original em que foram objeto de figuração primeira, uma vida própria, que a fenomenologia da leitura contempla no amplo quadro da vida da obra literária. O que significa essa vida da obra literária e, por consequência, a das personagens ficcionais? Duas coisas: “1. A obra literária ‘vive’ na medida em que atinge a sua expressão numa multiplicidade de concretizações. 2. A obra literária ‘vive’ na medida em que sofre transformações em consequência de circunstâncias sempre novas estruturadas convenientemente por sujeitos conscientes” (R. Ingarden, A obra de arte literária, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 1973, p. 380).

Ana Ozores, por M. Álvarez Fernández

Podemos, assim, dizer que as personagens podem prevalecer sobre as ficções e ter uma vida para além delas, ou seja, uma sobrevida. E podemos nessa sobrevida surpreender manifestações bem singulares, correspondendo àquele movimento que G. Genette (em Métalepse. De la figure à la fiction; 2004) deduziu da figura de retórica chamada metalepse, ou seja, a passagem de um nível (narrativo, semântico, ontológico, etc.) para outro nível. Inclui-se nessa dinâmica o trânsito de entidades entre o mundo ficcional e o mundo real, como se entre eles se não levantassem fronteiras. Não é só em A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen que a personagem do filme invade o mundo da espectadora, para de seguida a transportar para o seu mundo ficcional (o de Cecília também o é, afinal…). Em termos mais ousados, Ana Ozores, protagonista de La Regenta, cruza-se conosco na praça da catedral de Oviedo: uma estátua em tamanho natural, da autoria do escultor Mauro Álvarez Fernández, integra a personagem no espaço real que terá servido de modelo à cidade de Vetusta do grande romance de Clarín. A tendência para o culto de uma estatuária de dimensão natural e pose corrente é conhecida: em Lisboa, podemos sentar-nos à mesa com Fernando Pessoa, moldado por Lagoa Henriques; no Rio de Janeiro, dividimos um banco da Avenida Atlântica com Drummond de Andrade, em escultura de Leo Santana. Nenhum deles, porém, vem do universo da ficção, por muitas ficções que tenham engendrado.

Note-se ainda: a inserção de Ana Ozores no espaço urbano da capital das Astúrias assume um significado diverso daquele que podemos “ler” nas estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança, situadas na Praça de Espanha, em Madrid. Neste caso, colocadas aos pés de Cervantes (são dois patamares que configuram dois níveis: o do criador e o das criaturas), as duas personagens integram-se num conjunto escultórico cuja  configuração afasta qualquer possibilidade de interação com quem as olha. Nesse sentido, Ana Ozores está mais viva e ativa do que Sancho Pança.

Entretanto, Sancho Pança e Dom Quixote regressam a uma dimensão que permite, de novo, a nossa aproximação, uma aproximação que é reencontro ou redescoberta de sentidos e de valores propostos pelas personagens refiguradas. Assim as reencontramos numa feira de artesanato.  Em Embu das Artes, município do estado de São Paulo, a Feira de Artesanato mostra-nos

D. Quixote e S. Pança por D. Maturro; foto de Bruna Grassi

uma composição de Dimitri Maturro, que representa o par criado por Cervantes, assim mesmo como o vemos: em movimento, para fora das mãos do artista, como que escapando, por isso, ao enquadramento de quem fotografou a peça. Um movimento também narrativo, desenvolvido para além do tempo e do cenário histórico que viu nascer personagens que reiteradamente têm sido objecto de figurações e de decorrentes manifestações de sobrevida.

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