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A personagem torguiana

Conforme geralmente é reconhecido, a obra de Torga tem no conto um dos seus componentes mais destacados, talvez até aquele que por mais tempo há de sobreviver na memória da história literária: é a eles que têm sido consagrados numerosos ensaios (…). Ainda que de forma indireta, os temas, os cenários e as personagens dos contos torguianos (Pão Ázimo, 1931; A Terceira Voz, 1934; Contos da Montanha, 1941; Rua, 1942; Novos Contos da Montanha, 1944; Pedras Lavradas, 1951) têm muito da vivência pessoal que é o fulcro do (…) “espaço autobiográfico”: é sobretudo a terra transmontana que nos contos está representada, terra rude e simples, mas também carregada de energia vital e atravessada por valores, por virtudes e por fraquezas primordiais e por aquela genuína dimensão humana que as personagens protagonizam, quando conhecem a experiência da morte, as pulsões da sexualidade ou a renovação da natureza. É assim, mesmo quando as personagens têm a feição de animais, como em Bichos (1940), título em geral considerado marco cimeiro da contística torguiana; do ponto de vista técnico distingue-se essa contística por uma agilidade narrativa e por uma singeleza de processos que dizem bem da vocação torguiana para este difícil género, cuja presença difusa já foi rastreada mesmo nas páginas do Diário (…).

(C. Reis e A. Apolinário Lourenço, História Crítica da Literatura Portuguesa. O Modernismo. Lisboa: Verbo, 2015, pp. 370-371)

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