Monthly Archives: Setembro 2013

Colóquio Aquilino Ribeiro

Aquilino_Ribeiro_Cartaz

Anúncios

Deixe um comentário

30 de Setembro de 2013 · 22:30

Figuração e ficcionalidade

Dulcinea del Toboso

Dulcinea del Toboso

A correlação entre figuração  e ficcionalidade diz respeito a um vasto problema que é o das tensões entre imanência e transcendência das obras artísticas em geral.

Sendo, em primeira instância e aparentemente, um ser imanente a um texto ficcional e como que nele “aprisionado”, a personagem tende a romper com aquela sua condição, projetando-se para uma dimensão de transcendência que ultrapassa as chamadas fronteiras da ficção. Um tal ímpeto de autonomização estimula uma visão fenomenológica da personagem;  é pela concretização, no ato de leitura, que a autonomização se decide, contribuindo para incutir sentidos renovados ao texto e atualizando-o, na esfera das preocupações, dos anseios e das experiências de vida do leitor. Com razão, o bacharel Sansón Carrasco diz a Dom Quixote que a história deste, divulgada na primeira parte do livro, permite que entidades nele lidas sejam reconhecidas e entrem na vida corrente de quem leu:  a história do “ingenioso hidalgo” é  “tan leída y tan sabida de todo género de gentes, que, apenas han visto algún rocín flaco, cuando dicen: ‘allí va Rocinante’”; em termos mais ousados, Tom Baxter, aventureiro e explorador, dos Baxters de Chicago, atravessa o écran, passa para a plateia e leva consigo, para “dentro” do filme A Rosa Púrpura do Cairo, a embevecida Cecily.

Ao  princípio que dinamiza tais idas e vindas – princípio que é o mesmo que nos permite dizer de alguém do nosso mundo real que é acaciano ou hamlético ou bovarista – chamo princípio da transposição ontológica. O dispositivo que materializa a transposição ontológica – uma espécie de oscilação pendular entre mundo real e mundo ficcional, com intercâmbio de posições e de estatutos – é a metalepse, originariamente uma figura de retórica que justamente designa uma transferência ou mudança de nível. As perguntas triviais que, por vezes, indagam de onde vêm as personagens e quem do mundo real é por elas retratado são justamente da esfera da metalepse. O que não quer dizer, obviamente, que esta se reduza às respostas procuradas por aquelas perguntas, não raro formuladas a partir de uma posição intelectual concessiva, ingénua ou imediatista. Como quem diz: as coisas não são assim tão lineares.

Em todo o caso, a metalepse ficcional é mais frequente do que parece à primeira vista: quando o narrador das Viagens reconhece que “as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem” conhecer alguma  coisa “do novo ator” que faz a sua entrada na história, é um gesto metaléptico que ali se  esboça, pelo cruzamento de dois níveis, o do narrador e o das leitoras. Passa-se isto, para mais, num relato em que predomina uma equívoca mas fecunda ambiguidade, no respeitante à vinculação (por fim, muito imprecisa) de viajantes e de personagens da novela aos respetivos níveis narrativos, níveis confundidos já no final do relato; diz o viajante-narrador a propósito do protagonista da história  que ouviu (a chamada novela sentimental) e de uma carta que leu: “Fui camarada de Carlos, não o vejo há muitos anos”. Em termos mais sistemáticos, o realista (Eça de Queirós, por exemplo) que observa uma pessoa real para construir uma personagem faz ecoar na figura ficcional sentidos que rastreou na tal observação, sentidos esses que dizem respeito a valores, a crenças e a atitudes ético-morais, mais do que à realidade contingente. Lembro o testemunho de Eça, quando descreve o trabalho de figuração do romancista realista: “Vai ver Virgínia, estuda-lhe a figura, os modos, a voz:  examina qual foi a sua educação; estuda o meio em que ela vive, as influências que a envolvem: que livros lê, que gostos tem. – E dá-nos enfim uma Virgínia  (…) que é a burguesa da baixa, em Lisboa, no Ano da Graça de 1879.”

1005491_425671570877452_301945516_n

Deixe um comentário

Filed under Ficcionalidade, Figuração, Metalepse

Figuração (2)

Observo agora aquilo a que chamei os dispositivos de figuração ou, de forma menos rebuscada, os procedimentos que levam a fazer personagem, em particular a personagem narrativa e ficcional.

Assim, no tocante aos chamados dispositivos retórico-discursivos (que são aqueles em que o labor textual é mais flagrante),  importa lembrar que estamos  naquele domínio que o narrador das Viagens na minha terra explicita, quando desvela a autoconsciência compositiva que  aqui surge:  “As amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou apresentar em cena” (cap. XX). Em função desta alusão ao ator, noto, apenas de passagem, algo que já sublinhei: que é possível alargar a noção de figuração ao universo dramático.

Aquela referência ao ator (que consabidamente age em tensão dialética com a personagem do drama ou do filme) conduz-nos a um princípio diretamente relacionado com o trabalho compositivo, com  dimensão cognitiva; chamo-lhe  princípio  da dupla perceção, num sentido  que  deduzo da propriedade  que Murray Smith designou como twofoldness  ou (em tradução expedita) dupla face, verso e reverso de uma entidade dual que apreendemos nessa sua condição de duplicidade; apetece-me até, para melhor traduzir o movimento percetivo que aqui está em equação, apelar à noção pessoana de duplo, em Chuva Oblíqua: “Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo…/O vulto do cais é a estrada nítida e calma/Que se levanta e se ergue como um muro (…)”.

Cito o texto de Smith de onde parto para falar em dupla perceção:  “Quando nos envolvemos com uma personagem literária, o nosso conhecimento dessa personagem traz consigo, ao mesmo tempo, uma compreensão do seu lugar no mundo ficcional e uma apreciação do seu lugar no desenho da obra” (“On the Twofoldness of Character”, New Literary History, 42: 2, 2011, p. 283). Ou seja: não é possível dissociar o lugar funcional da personagem (Carlos é o herói da novela das Viagens) de um certo desenho da narrativa (que inclui a tal “esquiça rápida” e que afinal não é assim tão rápida…). Num outro domínio, que é homólogo deste, falamos em atores ou em atrizes de culto, como elementos decisivos para a conformação de certos tipos de personagem, em determinados universos fílmicos (p. ex., os de Alfred Hitchcock, Woody Allen ou Manuel de Oliveira). Em ambos os casos, trata-se de um ato de contemplação em simultâneo de duas faces (twofoldness) de uma entidade que se dá a “ler” nessa condição dúplice, sem que uma oculte a outra  (de novo a Chuva Oblíqua: “Vai e vem a bola, ora um cão verde,/Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…”).

(de “Retratos de personagem: para uma fenomenologia da figuração ficcional”, em composição)

Kim Novak, em Vertigo, de Hitchcock

Kim Novak, em Vertigo, de Hitchcock

Deixe um comentário

Filed under Figuração

Retrato e figuração

Distingo e exemplifico dois modos de ser do retrato no universo da ficção, apontando para a sua relação com o processo da figuração.

Primeiro: o retrato como dispositivo descritivo da personagem, em contexto narrativo. Recorro  às Viagens na minha terra  para ilustrar esta funcionalidade.  Lembro o retrato de Carlos que  se encontra no capítulo XX (“O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos” e assim por diante), mas sobretudo convoco o testemunho e a autoconsciência de quem o elabora: “O oficial… –  Mas certo que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou apresentar em cena. // Têm razão as amáveis leitoras, é um dever de romancista a que se não pode faltar.”

Segundo: o retrato como objeto ficcional, pintado, desenhado ou fotografado e presente numa ação narrativa antes de mais como elemento decorativo. Podendo interagir com as personagens (caso extremo: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde), o retrato chega a induzir sentidos  que superam largamente aquele propósito decorativo. Outro exemplo, também garrettiano, mas agora em contexto dramático: os retratos que aparecem na abertura do segundo ato do Frei Luís de Sousa.

De forma algo esquemática, pode dizer-se que é a primeira das funcionalidades mencionadas (o retrato como modelação discursiva e descritiva da personagem) que expressamente determina   e condiciona a figuração. Mas indireta e subtilmente o segundo também o faz, em função do cruzamento entre ambas as funcionalidades – a descritiva e a decorativa – e também de fatores e de contextos genológicos, periodológicos e genericamente histórico-culturais. Abrindo desde já pistas de reflexão: os tempos literários do romantismo, do realismo ou do naturalismo são muito fecundos  quanto ao culto de uma verdadeira estética do retrato; já o tempo literário pós-naturalista, incluindo a poética e a prática literárias do simbolismo, retrai e redimensiona a funcionalidade descritiva do retrato,  quando é posta em causa a possibilidade de a literatura, enquanto linguagem, representar o real ou então quando a fragmentação da personagem (por exemplo, a personagem modernista) inviabiliza a fixação da sua identidade.

(de “Retratos de personagem: para uma fenomenologia da figuração ficcional”, em elaboração)

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

Deixe um comentário

Filed under Figuração, Retrato