Monthly Archives: Setembro 2012

A sobrevida das personagens (2)

Dom Quixote, por Gustave Doré

O Dom Quixote de Gustave Doré não é o mesmo Dom Quixote de Pablo Picasso, desenhado este numa gravura famosa de 1955 e com um traço, digamos, modernista que bem o distingue da atmosfera e dos valores românticos que, no primeiro caso, envolviam o Cavaleiro da Triste Figura. Entre ambos está o Dom Quixote de Miguel de Unamuno; enquanto exegeta da personagem e também em função do processo de figuração que esboçou na sua Vida de Don Quijote y Sancho, Unamuno pôde sublinhar, no prólogo à segunda edição daquele ensaio, que a autonomia da personagem determina a sua prevalência em relação ao autor e a sua condição de quixotista e não de cervantista. Diz Unamuno: “No creo deber repetir que me siento más quijotista que cervantista y que pretendo libertar al Quijote del mismo Cervantes, permitiéndome alguna vez hasta discrepar de la manera como Cervantes entendió y trató a sus dos héroes, sobre todo a Sancho.” E acrescenta: “Y es que creo que los personajes de ficción tienen dentro de la mente del autor que los finge una vida propia, con cierta autonomía, y obedecen a una íntima lógica de que no es del todo consciente ni dicho autor mismo. (M. de Unamuno, prólogo à segunda edição de Vida de Don Quijote y Sancho, 1914).Assim é. E assim o reconhecem, por outras palavras, quantos reencontram personagens famosas, sempre vivas e sempre renovadas, quando a leitura que delas é feita atinge um nível elevado de argúcia hermenêutica. Lembro palavras de Pirandello, quando o grande

´Paolo e Francesca da Rimini, por G. Doré

dramaturgo italiano nos diz que sempre que lemos a Divina Comédia “deparamos com uma Francesca viva”. E acrescenta: “Se voltássemos a ler ainda o episódio cem mil vezes, constataríamos, cem mil vezes, que Francesca fala as mesmas palavras, porém sem repeti-las mecanicamente, mas sempre como se fosse a primeira vez, isto é, com uma paixão tão viva e nova que Dante sentir-se-ia cada vez morrer novamente de compaixão. Tudo o que tem vida, justamente pelo fato de viver, possui forma e, por isso, está sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém, acontece o contrário: ela se perpetua viva, justamente porque é a forma” (L. Pirandello, prefácio a Seis Personagens à Procura de Autor).

(C. Reis, “Estudos Narrativos: a questão da personagem ou a personagem em questão”, em composição)

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Filed under Dom Quixote, Gustave Doré, Sobrevida

A sobrevida das personagens (1)

A sobrevida das personagens de ficção, em boa parte alimentada por sucessivas figurações, pode levar a consequências muito díspares: as leituras imbecis de uma nova figuração são devastadoras; outras leituras podem ser, entretanto, estimuladas por figurações reajustadas a contextos sócio-culturais muito diversos daqueles que a personagem (e o seu autor) originalmente conheceram. Don Juan, Robinson Crusoe ou Tarzan – todos eles tendo derivado da literatura para o cinema, para a ópera, para a banda desenhada, etc. – têm revelado uma vitalidade que se explica também pela pertinência de procedimentos de figuração ajustados a expectativas e a contextos recetivos próprios, bem como a inovadoras soluções retóricas e de casting. A grande personagem de Tirso de Molina está bem viva, mas é já outra em Don Giovanni ou o dissoluto absolvido de José Saramago. E não é verdade que há quem prefira (é o meu caso) o coronel Kurtz de Apocalipse Now, composto de forma sublime pelo rosto trágico e pela fala arrastada de Marlon Brando, ao “ser de papel” original que lemos em Heart of Darkness?

A vitalidade das personagens, potenciada por sucessivos atos de figuração, é indissociável de propósitos de ordem ética, moral e ideológica, beneficiários diretos da autonomização das ditas personagens, permitindo dilatar consideravelmente as virtualidades semântico-pragmáticas que elas encerram. São essas virtualidades que nos desafiam a conviver com personagens ficcionais que não abolimos da nossa memória, mesmo quando muito daquilo que no seu tempo parecia importante já desapareceu: neste aspeto e como Eça lembrou, nada mais fugaz do que a política e “as multidões de politiquetes e de politicões enroflados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta”; sendo improvável que “alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Cánovas, dos Bright”, continua o grande escritor, é bem seguro que de Emma Bovary continuamos a saber “a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia à quinta-feira na Hirondelle para ir encontrar Léon a Rouen!” (E. Queirós, carta-prefácio aos Azulejos, do Conde de Arnoso)

Seis Personagens à Procura de um Autor; encen. de Emiliano Bronzini

Em última instância, é a capacidade de autonomização das personagens que nos conduz àquele nível de transcendência que está no horizonte dos grandes criadores. Falo, evidentemente, daqueles escritores, sejam eles narradores ou dramaturgos, que “não aceitam representar figuras, casos e paisagens que não estejam embevecidos, vamos dizer assim, por um sentido particular da vida, com que tudo assume um valor universal” (L. Pirandello, prefácio a Seis Personagens à Procura de um Autor).

(C. Reis, de “Estudos narrativos: estado da questão e a questão da personagem”, em composição)

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Sentido e efeitos da personagem

Uma teoria semântica da personagem faz dela uma categoria nuclear na construção do que chamamos mundos possíveis ficcionais; sendo o que são, os mundos possíveis ficcionais não devem ser entendidos, todavia, nos termos de uma sua plena autonomia em relação ao mundo real e ao conhecimento empírico que dele temos. A radicalização da autonomia que eles reclamam – mesmo quando parecem apontar nesse sentido – traduzir-se-ia numa absurda conceção dos textos ficcionais como textos autotélicos e desligados do mundo.

Carmelo Gómez e Aitana Sánchez Gijón em La Regenta, adaptação para TV por Fernando Méndez Leite (1995)

O erro de um tal desligamento acentua-se quando falamos do realismo e quando nos seus romances observamos, como que em jeito de ponderação metaficcional, reações e comportamentos diretamente decorrentes de modos culturais de existência das personagens como leitoras de romances e espectadoras de teatro. Emma Bovary e Luísa, sua descendente em linha direta, não leem impunemente Walter Scott: aquele cavaleiro com uma pluma branca que galopa sobre um cavalo negro e que Emma deseja (cap. VI de Madame Bovary), tende a tornar-se real e (literalmente) palpável, mas sem a pluma nem o cavalo, quando a personagem amadurece, num cenário provinciano pouco propício a tais adereços. E em La Regenta, o Don Juan Tenorio de Zorrilla não é, para Ana Ozores, presença inócua; percebe-o bem o astuto Magistral, atento aos sentidos (à sensualidade) da confessada, quando se faz porta-voz nem mais nem menos do que da palavra de Deus pai: “Hija, pues para acordarte de mí no debes necesitar que a Zorrilla se le haya ocurrido pintar los amores de una monja y un libertino; ven a mi templo, y allí encontrarán los sentidos incentivo del alma para la oración, para la meditación y para esos actos de fe, esperanza y caridad que son todo mi culto en resumen…” (Clarín, La Regenta, cap. XVII).

O que estes comportamentos e decorrentes desafios mostram é que a semântica das figuras ficcionais (e antes de mais, as que são “lidas” por personagens que o realismo europeu consagrou) desenvolve-se e aprofunda-se numa pragmática da ficção que aos propósitos ideológicos do realismo muito convém. A personagem Don Juan não chega a passar fisicamente para o lado da espectadora Ana Ozores; e Luísa não é levada por Armand (hélas!) a passear no Bosque de Bolonha, cujos fascínios a estreiteza lisboeta do Passeio Público mais realçava. Mas o impulso metalético existe e é ele que, também por causa da desatenção de amigos e de maridos, contribui para traçar a sorte funesta daquelas mulheres – como diria o conde de Monte Redondo, do drama Honra e Paixão. Não é Ernestinho Ledesma, autor do drama, é o provinciano Artur Corvelo, nos “começos duma carreira” de escritor, quem se vê compelido a alterar, no seu drama Amores de Poeta, o nome de uma personagem, a Duquesa de S. Remualdo, porque uma embaraçosa semelhança onomástica ameaçava a respeitabilidade da Condessa de S. Remualdo: “Artur, atarantado, balbuciou: // – É duquesa. // – Duquesa, ou condessa. É um título da casa, é um título antiquíssimo. Sou relação da família, pessoas da primeira sociedade… (E. de Queirós, A Capital!, cap. IV).

O escritor neófito está, então, avisado: há componentes da personagem (o nome é um deles, mas há outros talvez mais traiçoeiros) que induzem procedimentos de identificação potencialmente ofensivos. Do mesmo modo, as Emmas, as Luísas e as Anas Ozores de carne e osso que leram Madame Bovary, O Primo Basílio e La Regenta ficam a saber que a permeabilidade entre mundos ficcionais e vidas reais gera movimentos de vaivém que podem ter consequências (de novo) funestas.

Carlos Reis, “Figurações da personagem realista: os bigodes e os rasgos de Tomás de Alencar”. Congresso Internacional “O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista”; Coimbra, Centro de Literatura Portuguesa da Fac. de Letras, 10 a 13.11.2011. 

 

 

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