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Estudos narrativos interdisciplinares

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Letras 53 – Estudos Literários – 2016/Segundo Semestre

Título: Estudos narrativos: Componentes interdisciplinares

Ementa: A proposta de Letras 53 supõe o aproveitamento da crescente revitalização interdisciplinar dos estudos narrativos. Referimo-nos a “estudos narrativos” ou mesmo “narratologias”, pois tais expressões indicam a pluralidade de abordagens de que se beneficia a narratologia desde os anos 1990, cuja amostra pode ser conferida em duas importantes coleções de ensaios: Narratologies, editada por David Herman (Columbus: Ohio  State University Press, 1999), e Narratologies Contemporaines, organizada por John Pier e Francis Berthelot (Paris: Éditions des Archives Contemporaines, 2010). Os termos, assim, já não designam apenas um subcampo da teoria literária estruturalista, mas a reemergência e transformação da análise narrativa por meio de uma ampla variedade de áreas de pesquisa – estudos cognitivos, linguísticos, culturais, fenomenológicos etc., que se alimentam daquela teoria e ao mesmo tempo rompem com seus limites, o que permite ainda estender os estudos narrativos a relatos transliterários, como os produzidos nas mídias digitais, no cinema, na televisão etc.  Portanto, este número temático da Revista Letras espera receber textos que promovam a ampliação e diversificação da concepção de narrativa, propondo novas formas de estudo para suas dinâmicas e efeitos.

Prazo de Submissão: 01 de agosto de 2016. Contacto: periodicoletras.ufsm@gmail.com

Organizadores: Raquel Trentin (UFSM) e Carlos Reis (Universidade de Coimbra).

 

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Arqueologia dos estudos narrativos

Cem anos depois do nascimento de Roland Barthes, é tempo de dizer que o seu contributo foi decisivo para estarmos onde estamos. Falarei, de forma breve, de três etapas dos estudos sobre a narrativa (expressão a não confundir com estudos narrativos), durante os últimos 50 anos.

Primeira etapa: a publicação, em 1966, do número 8 da revista Communications. Sob um título genérico bem explícito – Recherches sémiologiques : l’analyse structurale du récit –, reuniam-se ali textos assinados por aqueles que, nos anos seguintes, viriam a ser as superstares dos estudos sobre a narrativa e da semiótica literária: Tzvetan Todorov, Gérard Genette, Algirdas Julien Greimas, Umberto Eco, Christian Metz, Claude Bremond, outros ainda. Não estava no grupo Julia Kristeva, ainda muito jovem em 1966 (passe a indiscrição: tinha então 25 anos), tal como o seu compatriota búlgaro Todorov, com 27 anos. Mas estavam outros “estrangeirados”: Eco e Greimas, tal como os demais   religados pela força de atração nesse tempo exercida pela prestigiada École Pratique des Hautes Études. Retomo o título genérico de Communications 8, porque ele é o emblema e o guia desse momento fundador: analyse structurale du récit. O seu profeta, no ensaio que podemos ler no lugar simbólico de abertura da revista, não podia ser outro, senão Roland Barthes, que assinava (et pour cause) uma “Introduction à l’analyse structurale des récits”. Sublinho: des récits, porque o plural vale aqui mais do que parece. Voltarei a isto.

Querendo avançar, devemos dizer: “Enfin Genette vint, et, le premier en France” estabeleceu as bases da disciplina a que, durante vinte anos, chamámos, tout court, narratologia. Estou agora no segundo momento, seis anos depois de Communications 8, quando apareceu o ensaio “Le discours du récit”, integrado no volume Figures III. Trata-se, é bom lembrar, de um dos textos de teoria em língua francesa mais comentados, traduzidos e discutidos do século passado, a ponto de o seu autor, cerca de dez anos depois, ter revisto, confirmado e em certos pontos reajustado as suas propostas: refiro-me ao balanço que se encontra em Nouveaux discours du récit, de 1983.

O que sobrevive de Communications 8 em “Discours du récit”? Algumas coisas. E de Roland Barthes? Relativamente pouco. Em 1972, Barthes não estava ultrapassado, menos ainda esquecido, mas o seu trajeto ensaístico ia-se distanciando daquilo que para Genette era um sistema, na aceção mais exigente e consequente do termo. De forma mais explícita: para Genette, a narratologia (termo que aparece logo no Avant-propos de “Discours du récit”) fixava-se no plano do discurso e também no da narração, lá onde categorias como analepse, prolepse, focalização, homodiegético ou heterodiegético faziam um sentido novo e prolongado até hoje. Para Barthes, a análise estrutural da narrativa situava-se no plano da história: vinda de Propp e progredindo para uma translinguística de base saussuriana, a análise barthesiana procurava descrever as unidades funcionais que estruturam histórias relativamente simples, bem como a respetiva sintaxe narrativa.

Alguns excessos analíticos motivados pelas propostas de Barthes não anulam o impulso renovador daquelas propostas, no âmbito do estudo da narrativa e sob o signo do estruturalismo que estava na moda. Os tais excessos tiveram que ver, nalguns casos, com os termos em que a personagem era encarada pela análise estrutural. Recordo palavras de Barthes: “L’analyse structurale, très soucieuse de ne point définir le personnage en termes d’essences psychologiques, s’est éfforcé jusqu’à présent, à travers des hypothèses diverses (…), de définir le personnage non comme un «être», mais comme un «participant»” (Barthes, 1966: 16). Quase cinquenta anos depois, é bom dizer que a personagem (como o autor, de resto) está de novo entre nós e goza de boa saúde; e assim, tendo ressuscitado da morte que atingiu aquele “vivant sans entrailles” (Valéry dixit), a personagem é de novo um ser com a densidade ontológica e com a complexidade psicológica que Barthes (e também Genette, é justo dizê-lo) recusava.

(Extrato de “Roland Barthes ou l’archéologie des études narratives”, a apresentar Colloque International Roland Barthes intériorisé ou l’avenir da la littérature”; Institut Français/Ambassade de France, 11-12 de junho de 2015)

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