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O retrato segundo Saramago

digitalizar0009O que este estudo quis, num primeiro momento, foi pensar que a galeria em que estão pousados os retratos da história, predominantemente de retratos masculinos, os retratos das mulheres, poucos dos que há, são todos muito recentes e muitos deles não feitos por mulheres. Não é que no decorrer da história não tenha havido mulheres ou para usar de um termo desconexo, “grandes mulheres”. Mas é que numa história de homens e contada por homens o espaço reservado a elas foi sempre o de serem projetos amontoados à sombra; essas figuras ocupam espaços recônditos, ficam atrás das cortinas onde são manipuladas as danças das marionetes, fazendo jus ao dito excludente de que “Por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher”.

A projeção de um imaginário feminino se dá somente quando as mulheres passam a alimentar os discursos que sustêm seus próprios retratos. E somente se configura como relevo histórico quando os homens passam a entender  que a configuração do mundo só pode ser apreendida no diálogo entre masculino e feminino. A supressão de ambos os polos parece ser tão danosa quanto a supressão do mal em detrimento do bem. Tudo parece depender de um equilíbrio para que se pense num conceito coerente acerca do mundo. Essa tomada de cenário pelo que estava na sombra parece ser o grande tema que sustenta essas mulheres saramaguianas aqui lidas. Não é à toa que as protagonistas são signos de visão.

O resultado desse esboço é o que aqui se apresenta significando o reengendrar de outras imagens nessa galeria de discursos em torno seja do feminino seja da obra saramaguiana. Não se constitui, claro está, num estudo definitivo e, quando falo de prosa e/ou obra saramaguiana, estou levando em consideração a produção literária do escritor – crônica, conto, teatro, romance – editada até seu último romance publicado em vida, Caim. Essa ressalva é necessária porque em outubro de 2011 é publicado aquele que seria o segundo romance da carreira do escritor português e que findou sendo o último, Clarabóia,  obra que este estudo não cita e que ficará como consideração para uma futura reedição deste trabalho.

  Pedro Fernandes Neto, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago. Curitiba: Appris, 2012 (do prefácio).

 

Sete-Sóis, Sete-Luas, por J. Santa-Bárbara

Sete-Sóis, Sete-Luas, por J. Santa-Bárbara

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Retrato e figuração

Distingo e exemplifico dois modos de ser do retrato no universo da ficção, apontando para a sua relação com o processo da figuração.

Primeiro: o retrato como dispositivo descritivo da personagem, em contexto narrativo. Recorro  às Viagens na minha terra  para ilustrar esta funcionalidade.  Lembro o retrato de Carlos que  se encontra no capítulo XX (“O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos” e assim por diante), mas sobretudo convoco o testemunho e a autoconsciência de quem o elabora: “O oficial… –  Mas certo que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou apresentar em cena. // Têm razão as amáveis leitoras, é um dever de romancista a que se não pode faltar.”

Segundo: o retrato como objeto ficcional, pintado, desenhado ou fotografado e presente numa ação narrativa antes de mais como elemento decorativo. Podendo interagir com as personagens (caso extremo: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde), o retrato chega a induzir sentidos  que superam largamente aquele propósito decorativo. Outro exemplo, também garrettiano, mas agora em contexto dramático: os retratos que aparecem na abertura do segundo ato do Frei Luís de Sousa.

De forma algo esquemática, pode dizer-se que é a primeira das funcionalidades mencionadas (o retrato como modelação discursiva e descritiva da personagem) que expressamente determina   e condiciona a figuração. Mas indireta e subtilmente o segundo também o faz, em função do cruzamento entre ambas as funcionalidades – a descritiva e a decorativa – e também de fatores e de contextos genológicos, periodológicos e genericamente histórico-culturais. Abrindo desde já pistas de reflexão: os tempos literários do romantismo, do realismo ou do naturalismo são muito fecundos  quanto ao culto de uma verdadeira estética do retrato; já o tempo literário pós-naturalista, incluindo a poética e a prática literárias do simbolismo, retrai e redimensiona a funcionalidade descritiva do retrato,  quando é posta em causa a possibilidade de a literatura, enquanto linguagem, representar o real ou então quando a fragmentação da personagem (por exemplo, a personagem modernista) inviabiliza a fixação da sua identidade.

(de “Retratos de personagem: para uma fenomenologia da figuração ficcional”, em elaboração)

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

Ben Barnes em O Retrato de Dorian Gray de Oliver Parker

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O retrato e a biografia

O retrato e a biografia                “O retrato literário, conforme o podemos perceber já com Heródoto, é desde cedo explorado pelo historiador como forma de transmitir a sua perceção dos mecanismos da História e do modo como, por detrás do facto histórico singular, é passível de apreensão esse jogo entre contingente e necessário que leva o homem a agir como age” (“Preâmbulo” a A. Pérez Jiménez, J. Ribeiro Ferreira e M. do Céu Fialho (coords.), O Retrato e a Biografia como estratégia de teorização política. Coimbra: Imp. da Univ. de Coimbra/Univ. de Málaga, 2004, p. 7). Ou seja: o retrato constitui uma prática extremamente remota, situada no lugar de cruzamento entre ficção,  historiografia e biografia; e nem sempre as fronteiras artificiais que as delimitam são percetíveis.

Desenvolve-se no sentido de conviver com aquela fluida ambiguidade e de a valorizar o conjunto de estudos que integram o volume referido. Trata-se nele de mostrar que “a retórica do retrato literário (…) virá a converter-se em estratégia de teorização política e converter-se-á num poderoso filão discursivo” (p. 7).

Alguns contributos significativos,   de onde podemos recolher pistas de reflexão que interessam à teoria da personagem, às relações entre ficção e História e à axiologia e figuração do retrato literário.  Para José Luis Calvo Martínez, importa recuperar a Oratória pelo contributo que ela pode dar à biografia e ao retrato: “es fácil observar que casi en cada discurso hay una pequeña biografía o, al menos, un retrato” (p. 38). Francisco de Oliveira debruça-se sobre Plínio o Antigo enquanto historiador, analisa a História Natural e destaca nela o recurso à técnica do retrato (pp. 119 ss.). Rita Marnoto ocupa-se d’O Príncipe de Maquiavel e nota: “A solidez e a coerência do retrato do Príncipe são postas em relevo pelo facto de as opções literárias que lhe subjazem serem sustidas pelo caráter effetuale da estratégia pessoal e política investida”, o que não implica “a subalternização do literário relativamente ao pessoal e ao político” (p. 180). Mais próxima do nosso tempo, Maria Helena Santana estuda o motivo do grande homem em Eça de Queirós, tendo em conta textos cronísticos e textos ficcionais; e assim, O Conde d’Abranhos condivide o registo da paródia com o da biografia modelar. Por fim, Fernando Catroga reflete sobre a teoria da História de Oliveira Martins e sobre o recurso ao mesmo motivo dos grandes homens: quando o objeto do historiador “diz respeito às encarnações subjetivas, ou melhor, quando visa uma espécie de terceiro nível, aí o historiador deve ir «buscar aos carateres e às biografias» o fio dramático que liga as diversas épocas, pois é nessa análise mais microscópica, exemplarmente consubstanciada na vida dos «grandes homens», que a história melhor se revela como teatro” (p. 280).

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