Monthly Archives: Outubro 2018

Dicionário de Estudos Narrativos

Inscrevendo no seu título a expressão estudos narrativos, este dicionário não busca apenas contemplar uma área científica com recorte nítido. Aquela expressão sugere também que esta não quer ser tão-só uma obra de teoria, no sentido mais forte e consequente do termo; ela encerra também (e muitas vezes explicita-as) propostas de trabalho, ou seja, de estudo da narrativa – ou das narrativas.  Vai neste plural muito daquilo que hoje está adquirido pelos estudos narrativos: num mundo que conhecemos, representamos e organizamos sub specie narrationis, é pertinente que muitos relatos e não apenas os literários sejam objeto de análise; neles – em contexto televisivo ou na Internet, nas páginas de um conto ou numa notícia de jornal –, está muito do que somos, como pessoas e como coletividade. Sem narrativas não sobreviveríamos, porque a nossa experiência do tempo, do espaço e da relação com os outros ficaria irremediavelmente mutilada.

E contudo, não deve estranhar-se que os exemplos e as referências a narrativas que aqui se encontram venham predominantemente do campo literário. Sem contrariar o que  fica dito, essa insistente presença (insistente, não exclusiva) traduz o que para mim e para muitos é inquestionável: provêm da literatura os mais complexos e densos textos narrativos a que a condição humana deu origem. Há milénios que assim é e assim continuará a ser por muito tempo, para além de preferências pessoais (a minha é de ordem literária, evidentemente) e de conveniências institucionais.

(C. Reis, Prefácio de Dicionário de estudos narrativos. Coimbra: Almedina, 2018, 582 pp.)

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Narrador

Da figuração do narrador digo igualmente que  é dinâmica, gradual e complexa, formando um  macrodispositivo que conjuga procedimentos de feição e de alcance muito diverso: por exemplo, a simples notação do nome (“Call me Ishmael”) ou a adoção de um imperativo ético (“é essa a nossa obrigação”, declara o narrador do Memorial do Convento). Por fim –  e por agora –,  também  a figuração do narrador é eventualmente  retomada em atos de refiguração: quando um narrador literário surge reelaborado, por remediação, noutro suporte e noutro contexto mediático, ele configura-se em função dos dispositivos vigentes nesse contexto e é remodelado pela linguagem narrativa que nele se enuncia.  O caso do cinema é, neste aspeto, muito significativo, mas não é o único. Tratando-se de um medium  multimodal, a figuração (ou a refiguração) do narrador no relato cinematográfico  não se restringe  a uma voz narrativa, com a nitidez e com a individualidade próprias do narrador literário. O conceito (não absolutamente consensual, diga-se) de  narrador cinemático proposto por Seymour Chatman procura justamente dar resposta às exigências de uma figuração que decorre numa específica “ecologia” mediática; nessa “ecologia”,  o narrador, segundo Chatman, é entendido como “composto formado por uma ampla e complexa variedade de dispositivos de comunicação” (Chatman, 1990: 134), dirigidos ao canal visual e ao canal auditivo.

(extrato de “Figura, pessoa, figuração”, in Colóquio/Letras, nº 199, setembro/dezembro de 2018, p. 17).

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