Monthly Archives: Janeiro 2017

Figuração não-natural

Como sabemos a noção de personagem ficou relegada a segundo plano pela narratologia clássica. E também não encontrei, entre os estudos da unnatural narratology, uma abordagem direta a essa categoria. Então, vou ousar aqui pensar sobre algumas estratégias que funcionam para abalar a figuração da personagem nos seus moldes típicos. São muito comuns, na literatura contemporânea, personagens que transgridem limites físicos, antropomórficos, assumindo naturezas, poderes, percepções sobre-humanas; mas muitas delas ainda recebem uma conformação mais ou menos convencional. Isso é o que acontece, por exemplo, com a personagem Blimunda, do romance Memorial do Convento, de José Saramago, de conteúdo notavelmente insólito, mas com uma apresentação regular, franca e coerente.

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J. Santa-Bárbara, Nunca te olharei por dentro

Gostaria antes de pensar em formas que rompem com o modus operandi realista de fazer personagem e ainda nos surpreendem. Para concluir essa modesta reflexão, direciono o meu olhar para a maneira como António Lobo Antunes constrói suas personagens, por ser ele um dos autores da literatura portuguesa que, a meu ver, mais bem estaria entre os estudos da unnatural  narratology. Cito o romance Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009), exemplar da última fase de produção do autor que exige ainda mais uma reinvenção dos protocolos de leitura tradicionais. (…)

Bem longe do retrato, cuja caracterização direta delineava, mais ou menos pormenorizadamente, qualidades físicas, psicológicas e morais, as personagens de Lobo Antunes perdem a nitidez dos seus contornos, mostrando-se mais como vultos ou espectros humanos. Tais vultos se projetam através da própria voz da personagem (que oferece de si alguns difusos traços, significativos psicologicamente, mas bastante controversos ou paradoxais) e da voz de outras personagens, que por vezes sublinham, mas também desalinham ou apagam aqueles traços. As próprias personagens se contradizem (“exagerei as manchas da pele também, não estou assim tão doente”; ANTUNES, 2009, p. 246; “nas manchas não exagerei, são verdade”; ANTUNES, 2009, p. 246), impedindo a construção de um sentido unívoco. Assim, suas imagens se renovam continuamente aos olhos do leitor, como em uma espécie de caleidoscópio, nunca assumindo uma forma definitiva: “eu não uma, várias alterando-se a cada instante” (ANTUNES, 2009, p. 192).

Além disso, não há, por parte dos narradores-protagonistas, o distanciamento ou a racionalidade necessários para apresentar os acontecimentos significativos de uma vida ou de parte dela em uma relação de causa e consequência; ou melhor, de configurar uma intriga com início, meio e fim. A narração parece reproduzir imagens mentais na sua instabilidade e fluxo, deformadas por uma descarga de afetos desencontrados. Também não se estabelecem diálogos efetivos entre as personagens-narradoras, confrontos ou acusações diretas. Há, isto sim, intimidades estranhas que conversam “frases e frases no interior do silêncio” (ANTUNES, 2009, p. 181). Das múltiplas narrações, inferimos gestos e movimentos, aludidos, contudo, ainda como puras intenções ou já como restos de vivências passadas: “o que não chega a ser quase sendo e o que deixou de ser sendo ainda” (ANTUNES, 2009, p. 335). Com essa dissolução dos moldes tradicionais da intriga e com o estabelecimento de uma espécie de atemporalidade na narrativa, não é possível sustentar aquela relação lógico-causal entre certo comportamento e determinada forma de pensar e ser, perdendo força também a noção de transformação do caráter no tempo e a possibilidade de recuperar a vida da personagem como destino.

Ref. bibliográfica: ANTUNES, A. Lobo. Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?  5ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 2009.

(Raquel Trentin, “Unnatural Narratology, Unnatural Narrative: Contribuições para o Estudo do Insólito”, III Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional. Rio de Janeiro, UERJ, 15 a 19 de novembro de 2016; extrato).

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Figuração da baiana

Na introdução de Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom (Vanderbilt University Press),   Kathryn Bishop-Sánchez  escreve: “Este é um livro acerca da criação, da interpretação e da imitação da imagem de Carmen Miranda, tal como foi filtrada, primeiro pela sociedade brasileira dos anos 30, depois por Broadway e Hollywood, do fim dos anos 30 até meados dos anos 50 e também acerca da importância social, política e cultural deste ícone de Hollywood, que suscita interesse até aos nossos dias” (p.  2).

O livro Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom não é uma biografia, no sentido convencional do termo. O que aqui está em causa é a construção de uma personagem que emana de um trajeto de vida singular: do nascimento português (em Marco de Canavezes) ao estrelato em Hollywood, a imagem de Carmen Miranda foi sendo construída pela articulação de dispositivos que dela fizeram uma figura. Ou seja, uma espécie de persona, motivada e modelada pela retórica mediática do seu tempo: a rádio e o cinema, como contextos de representação do espetáculo musical e da performance coreográfica.  E também a televisão, ainda em afirmação nos anos 50 e dependendo em vários aspetos dos discursos daqueles media. Curiosamente, foi para um programa de televisão, o então famoso Jimmy Durante Show, que a artista filmou a sua última atuação, poucas horas antes de morrer.

Nos seis capítulos do livro de Kathryn Bishop-Sánchez (mais uma conclusão), podemos ler a análise minuciosa da figuração da baiana, como imagem de marca que confina e mesmo se conjuga com dois outros sentidos: o da raça (“Miranda and Afro-Brazilianness on the Carioca Stage of the 1930s”) e o do exótico. Foi sobretudo neste último que se apoiou a “exportação” de Miranda para o cenário mediático norte-americano, uma opção artística recebida com reticências  pela consciência crítica brasileira, que recusava o estereótipo da baiana e os  atavios da sua indumentária garrida.

O capítulo central do livro de Bishop-Sánchez é consagrado à chamada estética camp. Em geral, a performance de Carmen Miranda constitui um terreno fértil para uma reflexão  centrada naquilo que um ensaio clássico de Susan Sontag identificou como os procedimentos camp: a  hipertrofia, a ostentação, a teatralidade provocatória  e  a artificial deformação de comportamentos, em confronto com o equilíbrio do chamado gosto prevalecente. É nesse domínio que se situa a figuração de Carmen Miranda, ilustrada por documentos iconográficos muito expressivos. Em função dessa figuração, compreende-se a sobrevida de Carmen Miranda; nesse sentido, a sua figura permanece ativa, em derivas e em imitações que permitem falar não apenas na sua condição de ícone, mas também no legado que ela inspirou.

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