Monthly Archives: Janeiro 2013

Chegam as personagens

“A relação entre filosofia e literatura é uma luta. O olhar dos filósofos atravessa a opacidade do mundo, apaga sua espessura carnosa, reduz a variedade do que existe a uma teia de relações entre conceitos gerais, estabelece as regras pelas quais um número finito de peões movimentando-se sobre um tabuleiro esgota um número talvez infinito de combinações. Chegam os escritores, e as abstratas peças de xadrez – reis, rainhas, cavalos e torres – são substituídas por um nome, uma forma determinada, um conjunto de atributos reais ou equinos; no lugar do tabuleiro, estendem campos de batalha poeirentos ou mares borrascosos; eis que as regras do jogo saltam pelos ares, eis que uma ordem diferente daquela dos filósofos se deixa descobrir aos poucos. Isto é: quem descobre essas novas regras do jogo são, novamente, os filósofos, que voltaram para a desforra, para demonstrar que a operação que os escritores cumprem pode ser reduzida à deles, filósofos, e que as torres e os bispos determinados não passavam de conceitos gerais disfarçados.”

Xadrez

Quem isto escreveu foi um dos grandes romancistas e pensadores do século XX, Italo Calvino, autor d’As cidades invisíveis (ed. original, 1972), de Se numa noite de inverno um viajante (1979) e de Palomar  (1983). E também dos ensaios insertos em Porquê ler os clássicos (1991) e no genial e premonitório conjunto de Seis propostas para o próximo milénio (1990).

 No texto que extensivamente acima está citado, Calvino aponta também para personagens  romanescas, sem ter que explicitar  nomes nem delinear rostos. Quando os escritores (os romancistas) dão nomes e feições humanas a figuras disseminadas nas ficções que engendram (algo mais do que peças de xadrez), não fazem outra coisa que não seja  atribuir corpo, voz e olhar carnal às ideias, aos valores e aos temas que os filósofos pensaram. Os campos de batalha e os mares borrascosos  por onde se espalham  as ideias feitas personagens são cidades e conflitos sociais, paisagens e mutações históricas, tensões amorosas, ambições recônditas, ofensas e perdões, pecados e atos de contrição, invejas e gestos de tolerância. Combinações infinitas, em suma. Só no mundo ficcional das ações  romanescas aquelas ideias e aqueles temas (o sentido da vida, a vivência do tempo, a inevitabilidade da morte, a questionação do Além, o absurdo da existência) ganham  densidade e concretude. É por essa densidade e por essa concretude que somos tocados, enquanto leitores comuns de personagens às vezes incomuns, sejam  Dom Quixote ou Ema Bovary,  Leopold Bloom ou Ana Ozores,  Brás Cubas ou Julien Sorel.

Italo Calvino (1923-1985)

Italo Calvino (1923-1985)

A desforra dos  filósofos de que fala Calvino  desvela e confirma a dimensão de transcendência que lemos e relemos nas personagens que atravessaram o seu tempo, chegaram até nós e entre nós permanecem. Uma outra maneira de fazer filosofia, afinal. Ou de descobrir que, por detrás de um grande romancista e das personagens que ele criou, sempre se esconde um filósofo que não ousou sê-lo plenamente. É quase isso que nos diz Eça de Queirós, quando, com mal disfarçada ironia, declara: “Eu era, sou ainda, em filosofia, um turista facilmente cansado”.

 C. Reis (o texto de Calvino encontra-se em Assunto encerrado. Discursos sobre literatura e sociedade, ed. Companhia das Letras, 2009).

3 comentários

Filed under Filosofia, Italo Calvino

A pintura de José Santa-Bárbara (3)

Nunca te olharei por dentroVolto ao Memorial do Convento, às Vontades de José Santa-Bárbara e a figuras históricas que são reclamadas pelo escritor e, depois dele, pelo pintor. Com elas e a par delas, emergem outras figuras, congenitamente ficcionais estas últimas, necessárias porém para que se faça justiça, mais de dois séculos depois, ao que terá sido o seu trabalho de “fazedores do capricho”, ou seja, de construtores de um enorme convento que o rei D. João V, na sua frívola megalomania, mandou erigir.

Há um passo do Memorial do Convento em que metadiscursivamente (e bem de acordo com o ethos pós-modernista) o narrador se refere à necessidade de redizer o já dito, mas agora num registo que mostre o que antes ficou oculto; e isto  porque, segundo o escritor, a instância e o testemunho historiográficos (“não mais que o primeiro livro”) legaram também  “uma grande zona de obscuridade” que deve agora ser iluminada. É quando, depois de descrever o árduo trabalho de quantos desbastam a pedra, a transportam e a trabalham, o narrador declara: “São trabalhos já ditos, que mais facilmente se recapitulam por serem de força bruta, porém, é causa da sua reiteração não consentir que esqueçamos o que, por tão comum e de tão mínima arte, se costuma olhar sem mais consideração que distraidamente vermos os nossos próprios dedos escrevendo, assim de um modo e outro ficando oculto aquele que faz sob aquilo que é feito” (Memorial do Convento. Lisboa: Caminho, 1982, p.  239).

Tal como aqui e em prol de uma memória renovada, torna-se necessário, então, rever figuras históricas e fazer com que, no universo da ficção, elas coabitem com entidades ficcionais, de modo a que “aquilo que é feito” (o convento) não condene ao esquecimento “aquele que faz” (quem trabalhou, a mando do poder real consubstanciado em D. João V). Aquela coabitação configura, assim, o que John Woods, em  The Logic of Fiction, chamou modalidades mistas de existência. 

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

De acordo com aquele conceito, o rei D. João V e o músico Domenico Scarlatti são seguramente personalidades históricas, confirmadas como tais em testemunhos diversos; Baltasar  Sete-Sóis e Blimunda são entidades ficcionais, sem outra existência que não seja a que o mundo possível ficcional de um romance  consente, o que não quer dizer que delas se faça uma leitura indiferente a possíveis fontes em que elas (em especial a segunda) se baseiam; por sua vez, Bartolomeu Lourenço, assim denominado no romance, revela-se-nos numa situação singularmente ambivalente: com o nome que tem no Memorial do Convento, ele assume  uma condição ontológica que tendemos a entender como sendo similar à de Baltasar e de Blimunda, com quem, de resto ele convive e sobre quem detém um claro ascendente. Mas ao ser Bartolomeu Lourenço quem concebe uma passarola voadora de que existem notícias algo fantasiosas, permitimo-nos reconhecê-lo como personalidade historicamente convalidada: trata-se do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido no Brasil em 1685 e falecido em Espanha, em 1724. Que conste desde já o seguinte e para memória futura: o nome de batismo Bartolomeu foi completado com o patronímico Lourenço e só mais tarde com o sobrenome Gusmão; para além disso, existe um retrato de Bartolomeu de Gusmão, datado de 1902 e pintado no Brasil por Bernardo Calixto, retrato que obviamente não está suportado pela observação de visu.

C. Reis (a publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento. No cabeçalho deste blogue são reproduzidos pormenores de quadros de Vontades, por J. Santa-Bárbara).

2 comentários

Filed under José Santa-Bárbara, José Saramago, Memorial do Convento

Antonio Candido e a personagem de ficção

Antonio Candido

Antonio Candido

Vale salientar que [o livro A personagem de Ficção (1976) de Antonio Candido] nasceu “de uma experiência de ensino” no “Seminário Interdisciplinar […] da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo” (CANDIDO, A. et alii,  A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 5), que foi realizada, em 1961, por Antonio Candido e por estudiosos em Filosofia (Anatol Rosenfeld), em Teatro (Décio de Almeida Prado e Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça) e em Cinema (Paulo Emílio Sales Gomes), e que girou em torno da personagem de ficção. Tal Seminário Interdisciplinar tinha a pretensão, como podemos perceber já pela forma como ele foi nomeado por Antonio Candido, de “pôr os estudantes em contato com as várias faces de um problema complexo (o problema existente em torno da personagem de ficção), a fim de que a teoria e a análise, do ponto de vista literário, ficassem o mais esclarecidas possível pela incidência de outros focos (o da Filosofia, o do Teatro e o do Cinema)” (CANDIDO, 1976, p. 6). Dito isso, passemos para as ideias de Antonio Candido em torno da personagem do romance.

Para Antonio Candido, uma obra literária, sobretudo um romance, só se realiza plenamente quando comunica aos leitores “a impressão da mais lídima verdade existencial”, por meio “de um ser fictício” (CANDIDO, 1976, p. 55). Noutras palavras, Candido quis dizer que uma obra literária só se realiza em toda a sua plenitude quando prima pelo princípio da verossimilhança, ou seja, quando procura convencer o leitor, através de suas personagens, de que tudo o que nela vai escrito pode ser verdade; é passível de ser

Maria Fernanda Cândido como Capitu (Globo, 2008)

Maria Fernanda Cândido como Capitu (Globo, 2008)

verdadeiro. Desse modo, o romance estabelece, inevitavelmente, uma relação com o mundo real e, consequentemente, as personagens daquele, uma relação com as pessoas que vivem neste. Assim, um romance é ainda mais verossímil quando as suas personagens trazem em si a mesma complexidade ou a mesma densidade psicológica das pessoas que fazem parte do mundo real. Antonio Candido afirma que, cientes disso, os escritores do século XIX (época em que despontaram o cientificismo, o materialismo, o psicologismo e o romance documental, dentre outras coisas), sobretudo os da segunda metade, tentaram imprimir mais realismo e mais verossimilhança às suas obras, aproximando as suas personagens dos homens e das mulheres do mundo real, no que concerne ao aspecto psicológico, ou seja, os autores procuraram, à maneira como acontece aos seres humanos, em termos psicológicos, tornar as personagens de seus livros mais complexas, mais misteriosas, mais difíceis de serem desvendadas, mais inesperadas e, consequentemente, mais intrigantes, mais atraentes e mais convincentes para os leitores. (…)

Como vimos, os escritores do século XIX (principalmente os da segunda metade desse século) procuraram tornar as personagens de seus romances mais complexas e mais densas psicologicamente, a partir da supressão ou da seleção minuciosa, cuidadosa, das suas falas, dos seus traços e dos seus gestos, de modo a quebrar com aquela unidade, com aquela coesão, com aquela lógica da personagem que tinha sido pré-estabelecida pelos escritores tradicionalistas (sobretudo os românticos) e que repousava no princípio duma descrição, seja ela física ou psicológica, exaustiva e duma repetição de determinadas falas e de certos comportamentos que, à custa de repetida, acabavam por caracterizar ou por rotular as personagens.

       (Excerto de um texto da autoria de  José William Craveiro Torres: “Capitu: exemplo maior de personagem do romance moderno no Brasil”)

1 Comentário

Filed under Antonio Candido