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Refiguração e sobrevida: da crónica à TV

nelson-rodrigues-12A dissertação Sobrevida das Personagens de A Vida como ela é… Refiguração seriada, da autoria de Nayane Taniguchi Cunha, reflete sobre a sobrevida de Sandra, Luci, Moema e Solange, de A vida como ela é…, personagens que transcendem as crónicas  escritas pelo jornalista brasileiro Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1960 e ganham novas figuras, derivadas de um processo de transmediação. Pela análise dos episódios televisivos “O monstro”, “Uma senhora honesta”, “Fruto do amor” e “Dama do lotação”, que integram a série A vida como ela é…, observa-se como a linguagem desse meio introduz fatores que concretizam a refiguração dessas personagens no contexto televisivo.

Na televisão, os dispositivos retórico-discursivos, de ficcionalização e de conformação acional e comportamental, que compõem o processo de figuração das personagens na narrativa impressa, processam-se pela linguagem verbal oral, visual e auditiva, atribuindo-se ao casting fundamental importância. Na transposição dessas personagens para a série televisiva produzida pela Rede Globo, atenta-se ainda no lapso temporal entre a publicação das crónicas e a transmissão dos episódios em 1996 e as possíveis implicações existentes no processo de produção, de modo a adequar esse conteúdo televisivo às expectativas do público.

Enquanto produto, a série A vida como ela é…, mostra ao espectador da década de 1990  o estilo rodrigueano de retratar a sociedade carioca. Sob a tónica do adultério, o escritor apresenta as mulheres como protagonistas das histórias, representadas por tipos sociais característicos dessa temática: a amante, a fiel, a traída e a adúltera, que vivem conflitos acerca do amor, do desejo, da traição e da tragédia, em relatos que muito se aproximam dos contos literários. À luz da atual conformação dos estudos narrativos, caracterizada pela interdisciplinaridade e pela transnarratividade, este trabalho reafirma não só a valorização da personagem, mas também do estudo da narrativa aplicado em outros campos, como o da comunicação televisiva.

(do Resumo, adaptado)

nayane

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Filed under Crónica, Nelson Rodrigues, Refiguração, Sobrevida

O Capuchinho Vermelho defende-se (2)

Chego ao caso de um Capuchinho Vermelho preparado para se defender, a partir de uma notícia recente, que aprofundei.

A história é conhecida. O Capuchinho Vermelho era “uma pequena muito doce” e apegada à avó.

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Um dia foi despachada para ir levar à dita avó, que andava adoentada, um bolo e uma garrafa de vinho (supõe-se que a avó não sofria do fígado). Eis senão quando, atravessa-se-lhe um lobo no caminho. A menina, ingénua como eram as meninas nesse tempo, diz-lhe ao que vai e o lobo malvado logo engendra um plano: comer neta e avó, pensando com os seus botões (metafóricos, é claro): “Mas que coisinha tenra”. Referia-se à neta e o juízo era puramente gastronómico. O resto já se sabe: o lobo distrai a menina, come a avó e a seguir engole o Capuchinho Vermelho. Para alegria de todos (menos do lobo), chega um caçador que esventra o lobo, resgata avó e neta e, com a ajuda da menina, enche a barriga do animal com pedras. Com o peso, o lobo cai e morre. A avó, é claro, bebe o vinho, come o bolo e melhora.

Resumo a história (e cito) tal como ela se encontra na recolha dos Irmãos Grimm, Contos da Infância e do Lar (edição Temas e Debates; tradução de Teresa Aica Barros, coordenação científica de Francisco Vaz da Silva). Pois bem, a história, afinal, não estava fechada, coisa que, de resto, não é estranha, em relatos da tradição popular: na recolha dos Irmãos Grimm, pode ler-se outra versão do Capuchinho Vermelho, substancialmente diferente daquela, menos quanto ao desenlace: o lobo também morre.

Ora estas personagens, que pareciam aprisionadas na sua configuração tão vetusta como estereotipada – a menina amorosa, mas distraída, a avó bondosa e adoentada, o lobo mau –, foram objeto de refiguração, por motivos bem prosaicos. Leio no site da NRA Family (NRA é a sigla da National Rifle Association, a poderosa organização norte-americana que defende e promove o uso de armas) que o conto do Capuchinho Vermelho foi reajustado e as suas personagens refiguradas.

Graças ao trabalho de uma prestável escritora, Amelia Hamilton (“a lifelong writer and patriot”, tal como se apresenta), o Capuchinho Vermelho tem uma arma de fogo e sabe usá-la. Quando o lobo lhe aparece pela frente, a simples vista da espingarda basta para que o bicho sossegue: “His wolfish smile disappeared for a moment when his eyes fell on her rifle”. Mas há mais: também a avó tem uma arma. Resultado: quando chega o caçador, o lobo foi metido na ordem e já está firmemente amarrado, para que ele o leve. Final: avó e neta “sat in companionable silence, happy in the security that comes with knowing they could defend themselves.”

A segurança de cidadãos armados, de avós e de netas antes indefesas está, então, justificada, de acordo com a moral da NRA e de Amelia Hamilton (uma história destas sempre tem uma moral). A pergunta que enquadra a nova versão anuncia, aliás, a conclusão moral: “Have you ever wondered what those same fairy tales might sound like if the hapless Red Riding Hoods, Hansels and Gretels had been taught about gun safety and how to use firearms?” Assim mesmo: o infeliz Capuchinho Vermelho e também Hänsel e Gretel (Joãozinho e Margarida, na versão portuguesa), pois que, na nova versão da benemérita escritora, também eles aprenderam a usar armas de fogo.

Tivesse algum escritor fornecido ao Cavaleiro da Triste Figura uma poderosa metralhadora M60, em vez de uma lança tão caquética como era o dono, e o combate com os moinhos de vento teria conhecido outro desenlace. Talvez ainda alguém vá a tempo.

little-red-riding-hood

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O Capuchinho Vermelho defende-se (1)

A fortuna das personagens e a sua capacidade de sobrevivência, transcendendo o mundo ficcional em que surgem, depende de muitos fatores e assume diversas feições. O romancista Camilo José Cela escreveu, a propósito do seu romance La familia de Pascual Duarte: “Lo que sucede es que el libro, después de nacer, sigue creciendo (…) y evolucionando: en la cabeza de su autor, en la imaginación o en el sentimiento de los lectores y, por descontado, en las páginas de sus ulteriores ediciones”.

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Este crescimento do livro (da história contada, entenda-se) atinge sobretudo a personagem, figura fugidia que não raras vezes escapa ao controlo do seu autor. Os testemunhos que o atestam são incontáveis. O que significa que o crescimento, a evolução e a refiguração da personagem – a sua sobrevida, em suma – constitui um desafio que inúmeros relatos enfrentam. O potencial de subversão da personagem revela uma dinâmica acentuada, quando a refiguração que a leva a cabo se dá em contextos, em suportes e por linguagens diferentes da literária. Por exemplo, na ilustração, na televisão, no cinema, na banda desenhada ou no videogame. A personagem é, então, ainda a mesma (porque somos capazes de a reconhecer), mas também já outra.

Estas possibilidades de crescimento levantam várias questões interessantes. Por exemplo: até que ponto o ficcionista pode controlar, caucionar ou interditar a reformulação por outrem de uma história que concebeu e relatou? E onde está (se é que existe) o limite para a refiguração da personagem? De que ordem são os condicionamentos do trabalho de quem retoma e refigura uma personagem de autoria alheia e respeitável? De ordem ética? De natureza estritamente artística? De caráter ideológico? Noutros termos: Blimunda continua a ser Blimunda, se uma ficção (literária, cinematográfica, etc.) lhe retirar a capacidade de ver o interior das pessoas? E o engenheiro Palma Bravo, d’O Delfim, é ainda a mesma personagem, se uma versão televisiva do romance fizer dele um marido modelar? Em ambos os casos, as personagens trazem consigo a marca forte dos ficcionistas que as engendraram. Sendo assim, existe aqui um potencial de conflitualidade, tendo a ver com a propriedade intelectual, conflitualidade que pode acabar num tribunal – agora que os duelos estão um tanto desatualizados…

Por fim (mas só por agora): como equacionamos estas questões, quando a personagem tem autoria desconhecida ou, por um outro ângulo, coletiva? Por exemplo: o Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira ou o Polegarzinho. Seguindo este caminho: é aceitável que um dos sete anões (qual? Inclino-me para o Tímido, no Brasil chamado Dengoso) tenha uma relação amorosa com a Branca de Neve? E como serão os filhos de ambos? Anõezinhos? Morenos? E o Capuchinho Vermelho será uma menina tão inofensiva como parece?

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

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