Monthly Archives: Março 2019

Mariana: “mulher sem qualidades”

Personagem epônima do conto que, por sua vez, é epônimo da coletânea com que Maria Judite de Carvalho se estreia nas letras portuguesas, em 1959, Mariana é uma mulher comum, sem traços distintivos, que, sabendo ter os dias contados, faz uma retrospectiva de sua vida fracassada e trata de narrá-la em primeira pessoa. Sem família, sem recursos materiais, abatida por contingências que aceitou resignada, ela sintetiza metonimicamente a imagem que faz de si no adereço que usa para ir ao médico: “O chapéu de há seis anos, que, só hoje reparei nisso, tem dois buracos da traça e uma pena ridícula do lado direito. Um chapéu que me fica mal e a que eu fico mal. Como podia ser de outro modo?” (M. Judite de Carvalho, Tanta gente, Mariana. 2ª ed. Lisboa: Arcádia, s.d., pp. 7-8). Lendo-se aqui a palavra “pena” no sentido de “piedade”, compreende-se que a narradora-personagem considere ridícula a autocomiseração e procure contê-la em uma linguagem sóbria, econômica (mas com inúmeras repetições intensificadoras), alusiva e sutilmente irônica, o que só faz realçar a angústia, a mágoa e o sofrimento que a perpassam.

Confinada no quarto de pensão que, por força da banalização, “deixou pouco a pouco de ser horrível” (16), essa “velha de trinta e seis anos” (37) re-sente os fatos e emoções de sua existência trágica: a perda precoce da mãe; a consciência da solidão, compartilhada com o pai e dele recebida como herança; a inaceitação dos sogros, por ser ela “uma simples datilógrafa sem dinheiro e sem relações, que nem mesmo fosse bonita, nem bem feita, nem brilhante” (13); o abandono pelo marido, António, que se apaixona por uma escultora significativamente denominada Estrela, considerada, ela sim, como “atraente, bonita, uma mulher completa” (58); o desamparo em que se vê quando Luís Gonzaga, a quem se agarrou “com força, quase com desespero” (37) após o divórcio, cede à imposição familiar do sacerdócio, deixando-a grávida; a demissão do emprego de datilógrafa quando essa gravidez solteira se evidencia; a morte do tão desejado filho Fernandinho “e de todos os irmãos que poderia vir a ter” (48) quando, distraída ao projetar a figura da rival em uma passante, é atropelada; o desespero ao saber que essa mesma rival e o ex-marido têm um filho a quem chamam exatamente Fernando — nome do pai de Mariana, que ela sonhara atribuir ao filho desejado; a convivência com o fantasma da morte, tão onipresente quanto esses todos que lhe habitam a lembrança; a confirmação de que ela chega em breve.

(Eliane Fittipaldi Pereira, “Mariana Toledo”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler).

 

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A narrativa do mundo

No texto fundador da civilização que conhecemos como judaico-cristã, o universo criado por Deus e o próprio processo da criação ganham sentido, coerência e lógica por serem apresentados em forma de relato. Por outro lado, é a formulação narrativa que incute consistência a esse universo que tem um início, um desenvolvimento em seis episódios, uma sucessão temporal, uma progressão de estados em mudança e o surgimento de componentes que vão preenchendo e povoando aquele universo: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” ( Génesis, 1: 1 ); depois, distinguiu o Dia da Noite; nos dias seguintes criou os Céus, os Mares e a Terra, as ervas e as árvores, e os animais de várias espécies. Por fim, aparece um protagonista logo cindido em dois: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Génesis, 1: 27).

      Miguel Ângelo, A criação de Adão

O que se segue a isto confirma a matriz narrativa que rege a representação da génese do mundo e dos seres que o habitam, incluindo a transgressão do interdito e a conflitualidade entre as figuras que povoam a história contada: a tentação de Eva, o pecado original, a expulsão do Éden, o nascimento de Caim, Abel e Seth e o primeiro homicídio. A premência e a tensão interna da narrativa e do seu movimento fizeram destes episódios verdadeiros capítulos interligados de uma história mais longa. E assim, se no Evangelho segundo João se diz que “no princípio era o verbo” (Bíblia, 2016: 319), então esse verbo (logos) e a modelação narrativa que ele consente vêm a ser o oposto do caos desordenado;  para o cancelar, fez-se a luz (Génesis, 1: 3) e enunciou-se a narrativa.

Deduz-se da dinâmica do relato uma estrutura representacional que  determina a nossa relação com o mundo em geral e com o mundo das narrativas em particular. Em muitas delas reencontramos  o paradigma daquela experiência primeira e dos  procedimentos cognitivos por ela instaurados, desde que uma personagem chamada Homem emergiu do gesto criador de Deus. E não só isso: quando vemos representações não verbais dos episódios genesíacos, somos inevitavelmente conduzidos à narrativa primeira em que eles se inspiram, ou seja, a abertura do Antigo Testamento, que tenho citado. Se não for assim, não chegaremos ao entendimento do mundo em que nos encontramos, sendo certo que esse entendimento é intrínseca e virtualmente narrativo.

Para ilustrar o que fica dito, avanço dois exemplos. Primeiro: na imagem d’A criação de Adão pintada por Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina, não observamos apenas as formas e os gestos estabilizados das figuras pintadas pelo genial artista; está nelas tacitamente inscrito um passo do Génesis, como presença  que não pode ser ignorada. O mesmo se diga de uma outra imagem que, em segunda instância, convida ao mesmo movimento evocativo e à mesma silenciosa alusão narrativa: na imagem conhecida de E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg,  o contacto do dedo da criança como o do extraterrestre remete, obviamente, para Miguel Ângelo, mas também deste para a Bíblia, lá no princípio de tudo. Se prestarmos atenção, em ambos os casos “ouvimos” a narração que já citei: “E criou Deus o homem à sua imagem”. Segundo exemplo: a violência fratricida exercida por Caim sobre Abel continua a ecoar, como narrativa primordial, em incontáveis representações pictóricas (por Rubens, por  Bartolomeu Manfredi, por Lorenzo de Ferrari, por Tintoretto, por James Tissot, etc.); nelas e também num motivo muitas vezes glosado, o dos irmãos inimigos, com outros nomes e noutras condições, mas em situações correspondentes: Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, Artur e Lancelote. É deste motivo ancestral que provêm Pedro e Paulo, personagens de Machado de Assis, num romance com título inequívoco, Esaú e Jacó;  um pouco mais de cem anos depois, em Caim,  José Saramago revisitou, em registo pós-modernista, o mesmo motivo e o episódio narrativo que continua a ecoar no nosso imaginário: “E sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra seu irmão Abel, e o matou” (Génesis, 4: 8).

(Conferência “A narrativa do mundo ou o mundo como narrativa”; Madison, Universidade de Wisconsin-Madison, 5 de março de 2019).

 

 

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