Monthly Archives: Junho 2018

Reinvenção da personagem

A Ficção Interativa é uma forma de experiência digital que confere ao jogador/interator poder de agenciamento (agency) por meio das suas decisões, com consequências diretas sobre a configuração narrativa da obra. Esta forma de medialidade veio trazer novos desafios e subverter noções tradicionais de representação narrativa (moldadas sobretudo a partir do campo da ficção impressa), na medida em que a estrutura não-linear abre caminho a percursos diferentes de ação, dependendo do desempenho e das escolhas do interator. Neste contexto, compreende-se que a natureza configurável da personagem, quer como entidade ficcional com determinadas propriedades diegéticas, quer como peça fundamental da mecânica do jogo, constitua objeto de crescente atenção por parte da comunidade académica e dos diversos agentes envolvidos no desenvolvimento de videojogos e de Ficção Interativa. O processo de construção da personagem, independentemente do seu estatuto específico (PC: jogável; NPC: não-jogável), assume aqui uma especificidade própria e levanta problemas que habitualmente não surgem com outros produtos literários e culturais, mesmo do contexto contemporâneo. Mais do que prolongar o aceso debate em torno do grau de adequação deste meio para narrar histórias que levou à formação de duas abordagens teóricas distintas – a ludológica e a narratológica –, importa desenvolver um método holístico capaz de congregar diversos ângulos de análise, reconhecendo que os videojogos tendem a desenvolver modelos narrativos complexos, mas que não podem subsistir sem uma estrutura consistente e um sistema de regras. De modo particular, os projetos recentes de Ficção Interativa com recurso a dispositivos de Inteligência Artificial que permitem selecionar, com base em procedimentos computacionais, eventos de modo coerente segundo o tipo de intervenção do interator e tirar o máximo da tensão narrativa levantam novas questões no que respeita à ontologia da personagem, ao seu potencial de manifestação de efeitos estéticos e à sua capacidade de gerar envolvimento emocional.

Paulo Pereira, “The Ghost in the Machine: Ludologia, Narratologia e reinvenção da personagem na Ficção Interativa”; workshop Figuras da Ficção, 20.6.2018.

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Figura em construção

Bernardo Soares é uma figura de ficção criada por Fernando Pessoa (1888-1935), mas é  também  quem escreve o Livro do Desassossego (1913-…). Para descrever este “semi-heterónimo” (Arquivo Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro – 13 Jan. 1935), é necessário ter em conta o processo de construção do livro onde ele acabaria por sobreviver. Num dos muitos momentos de introspeção que alicerçam o Livro do Desassossego, Bernardo Soares refere: “Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar” (Arquivo Pessoa, Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa: 4521). Veiculada em tom confessional, esta frase descreve o estado de espírito da personagem. Porém, ela parece igualmente espelhar a construção do próprio livro,  que João Gaspar Simões apelidou de “puzzle literário” (Simões, 1983: 130-131). Segundo Richard Zenith, o Livro do Desassossego “é, e será sempre muitos livros possíveis, sem que possa existir uma edição definitiva” (Zenith, 2003: 21). Em algumas das suas missivas, Fernando Pessoa refere-se à preparação de um “Livro do Dessossego” ou à estrutura de um “livro”. O autor de mais de cinquenta heterónimos acabaria por falecer antes de poder finalizar esse projeto.

Este livro tem um caráter fragmentado e é fundamentalmente um conjunto de fragmentos reunidos a várias mãos (por Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha,  Quadros, Richard Zenith, Jerónimo Pizarro, entre outros), de forma intermitente, a partir dos anos oitenta do século passado. Alguns desses fragmentos terão sido marcados com a sigla LdoD, outros ficaram por identificar. Por esse motivo, talvez esta obra não deva ser vista apenas como um livro inacabado, mas como um arquivo ou um texto em permanente geração. Em torno dos fragmentos deixados por Fernando Pessoa surgiram projetos como “Nenhum problema tem solução: um Arquivo Digital do Livro do Desassossego” (integrado no Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra), ou a base de dados Arquivo Pessoa, fruto da colaboração entre a Casa Fernando Pessoa e a Texto Editora.

Enquanto personagem, a evolução de Bernardo Soares está irremediavelmente ligada ao processo de construção do livro. À medida que  ele cresce, esta personagem adquire uma personalidade e assume a sua (própria) autoria. De acordo com João Gaspar Simões, isto acontece “fragmentariamente”, entre 1927 e 1935 (Simões, 1983: 134). Pessoa terá assinado um primeiro texto pertencente ao Livro do Desassossego intitulado “Na Floresta do Alheamento” (1913). Posteriormente, Vicente Guedes (também este ajudante de guarda-livros) surgiria como o autor do Livro de Desassossego. Segundo Ángel Crespo, um fragmento assinado por Bernardo Soares aparece, em 1929, na revista Solução Editora (Crespo, 1990: 314). Ainda no mesmo ano, o Barão de Teive assume a autoria deste livro. Contudo, em 1932, o Livro do Desassossego viria a ser exclusivamente escrito por Bernardo Soares. Neste sentido, Soares poderá não evoluir ao longo de um enredo ou cadeia de ações, mas sofre diversas metamorfoses durante o seu processo de composição. A ligação entre a personagem e o seu livro surge também representada pelo carácter autorreflexivo da obra que é motivado por momentos de introspeção verbalizados por um narrador autodiegético. Por seu turno, o estado fragmentário do livro sintoniza com a entidade estilhaçada, permanentemente em construção, da personagem Bernardo Soares (continuar a ler).

Daniela Côrtes Maduro, in Dicionário de personagens da ficção portuguesa

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Maria dos Prazeres: ironia do nome

Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre forma com o marido, Álvaro Silvestre, o casal que ocupa o centro da ação deste romance neorrealista [Uma abelha na chuva], publicado por Carlos de Oliveira em 1953. Dela pode dizer-se que, em irónico contraste com o nome de batismo, protagoniza uma história de desamor, solidão e ressentimento.

Oriunda de uma família fidalga em acentuado declínio económico, Maria dos Prazeres é levada a casar-se com um filho de comerciantes e proprietários rurais, consumando assim uma aliança negociada pelos pais de ambos. Para o casamento leva Maria dos Prazeres a fidalguia do sangue e da educação, mas também “a amarga obediência aos pais e o desejo de os ajudar, a curiosidade e o medo, o medo e um pouco de esperança” (Oliveira, 1980: 23). Ficando por esclarecer o objeto concreto dessa esperança, a personagem que o romance nos faz conhecer não deixa dúvidas de que a “amarga obediência”, com que sobe ao altar, se prolonga na eterna amargura que colhe no convívio com o marido – culturalmente distante, psicologicamente doentio e fraco de caráter. Em tudo oposta a estes traços, Maria dos Prazeres é forte, determinada e firme até à dureza. Profundamente orgulhosa, encontra no seu orgulho natural e de casta o meio de controlar as suas emoções e dominar as situações em que intervém. No jogo de hostilidade e conflito a que se reduz a sua vida de casada, cabe-lhe a ela a vitória e ao marido a submissão. (continuar a ler)

Maria do Rosário Cunha, em Dicionário de personagens da ficção portuguesa

 

Laura Soveral, em Uma abelha na chuva (real. de Fernando Lopes)

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