Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Colóquio “Figuras da Ficção 6”

Por força das várias restrições a que a crise pandémica em curso obriga, a Comissão Executiva do Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” viu-se obrigada a adiar o evento para os dias 2, 3 e 4 de novembro próximo. Mais informações aqui.

 

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Personagens em movimento: a sobrevida de Basílio & C.ª

No Colóquio Internacional “Figuras da Ficção 6” (ver https://www.uc.pt/fluc/clp/article?key=a-7a89b362ca) terá lugar uma palestra-debate por Fernando Duarte, codiretor artístico de “Danças em Diálogo” e autor da coreografia de O Primo Basílio. Bailado em II Atos. Na adaptação que realizou, Fernando Duarte incutiu sobrevida, pelo movimento da dança, a personagens que conhecemos da leitura de um dos mais conhecidos romances de Eça de Queirós; a sobrevida de Luísa e Basílio, de Juliana e Jorge, de Leopoldina e Sebastião, no bailado que os seus corpos desenham, traduz uma outra forma de reler Eça de Queirós. E assim, O Primo Basílio, romance que tem conhecido múltiplas e inesgotáveis interpretações, surge-nos, mais uma vez, sendo ainda o mesmo e contudo já outro.

Disto e do mais que o debate suscitar falará Fernando Duarte, com o apoio de imagens e a partir da sua experiência de releitura coreografada de um relato queirosiano e de algumas das suas personagens. (ver também “Dançar Eça: O Primo Basílio em bailado”).

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Eva Lopo

Personagem central d’A Costa dos Murmúrios (1988), de Lídia Jorge, Eva Lopo é também a narradora que, pelos artifícios da memória, articula a estrutura do romance que tematiza a guerra colonial em Moçambique. A obra é composta por duas narrativas que, pela justaposição, em diálogo, confrontam os efeitos do discurso histórico-documental e do discurso ficcional. Na primeira, capítulo que abre o romance, intitulado “Os gafanhotos”, a figura “a quem todos já chamavam simplesmente de Evita” (Jorge, 2004: 10) é conhecida pela perspectiva do narrador heterodiegético, limitada ao cumprimento de seu papel: “a noiva suspirou não de cansaço ou de sono mas de deslumbramento” (Jorge, 2004: 11). O capítulo consiste no episódio de cerimônia das bodas da portuguesa Evita e do alferes português, Luís Alex, miliciano a serviço da guerra colonial em África, em fins da década de 60. A partir da focalização sobre os convidados militares e suas perspectivas sobre a guerra, são apresentados os eventos ocorridos durante a comemoração do casamento: a aparição de maciço número de negros mortos na praia, a chuva de gafanhotos e a trágica morte do noivo. Esses acontecimentos decorrem em dois dias nos arredores e, sobretudo, no terraço do Hotel Stella Maris, Beira, em Moçambique, espaço de vista privilegiada voltado ao Índico que abrigava as famílias dos oficiais durante a guerra colonial. Apesar do caráter pretensamente objetivo e descritivo dessa primeira narrativa, os raros momentos de onisciência do narrador permitem já inferir a centralidade dessa personagem na trama.

A segunda narrativa, em contraste com os princípios de exteriorização e objetividade que regem a primeira, consiste no relato feito pela própria voz de Eva Lopo. Vinte anos depois, a narradora, espirituosa e sarcástica, revela a sua versão dos fatos apresentados em “Os gafanhotos”, desconstruindo o quadro inicialmente emoldurado: “Prefere a harmonia? Eu também, é por isso que tanto estimo a paz que se respira na noite d’Os gafanhotos.” (Jorge, 2004: 69) Nos nove capítulos que dão sequência à narrativa inicial, o testemunho questionador de Eva Lopo revela, gradualmente, a transformação e o desdobramento de sua figura desde a suposta ingênua e concordante “então conhecida por Evita, o nome de som mais frágil de que há memória” (Jorge, 2004: 70), até a cínica Evita – “Oh, como Evita era cínica” (Jorge, 2004: 80), e que se torna a irônica e emblemática Eva Lopo: “estimo os países de vocação metafísica total, os que não investem na fixação de nada. (…) Aprecio imenso esse esforço de tudo apagar para se colaborar com o silêncio da Terra” (Jorge, 2004: 131).

(Ilse Vivian, “Eva Lopo”, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui)

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Giovanni Fazio

Giovanni Fazio é a personagem principal do primeiro romance de Augusto Abelaira (1926-2003), A cidade das flores, publicado em 1959. Esta obra, cuja ação ocorre em Florença durante o período de vigência do regime fascista de Benito Mussolini, integra-se na segunda fase do movimento neorrealista português e pretendeu contornar a vigilância da censura política salazarista, camuflando a descrição das iniquidades e das injustiças do regime social vigente em Portugal a coberto da apresentação em dois tempos (antes e depois da segunda guerra mundial) da situação política italiana. Como refere explicitamente Abelaira no posfácio da obra, publicado somente em edições dadas à luz no pós-25 de abril, “quando eu escrevia Florença pensava em Lisboa, quando escrevia Mussolini (que já estava morto e enterrado) pensava em Salazar” (Abelaira, 1984: 307).

Giovanni Fazio surge, tal como Abelaira refere no posfácio à segunda edição, como o representante de “uma certa classe média simultaneamente cética e otimista, mais capaz de pensar que de agir, suscetível de heroísmo na recusa, mas pouco dado ao gesto ofensivo e prático” (295-296). Assim sendo, enreda-se nos problemas da sua consciência, por perceber que a procura da felicidade individual pode ser criminosa quando tantos outros dos seus concidadãos sofrem perseguições, abdicando do seu bem pessoal a favor da comunidade (algo que, manifestamente, Giovanni nunca conseguiu fazer). Nessa medida, esta personagem anuncia um tema que, no segundo romance de Abelaira, Os desertores (1960), se assume com maior premência e visibilidade: a segurança, o conforto pessoal e os desígnios individuais tornam a classe média urbana (em que as personagens deste romancista se integram) desistente, sem coragem, vil e propensa à autocomiseração, porque os seus elementos tentam, apesar de tudo, viver uma felicidade mitigada, constrangida, uma tristeza contentinha (como aquela que poetas como Alexandre O’Neill descreverão de forma lírica e desapaixonada). Esse dilema moral é assumido por Giovanni Fazio quando reconhece que “já não vale a pena lutar, nada poderemos, fomos traídos, até por nós mesmos” (158).

(por Carlos Machado, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

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Mulher do Médico

A personagem «mulher do médico» integra os romances Ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre a lucidez (2004), de José Saramago e é apresentada ao leitor no momento em que o seu marido, um oftalmologista, investiga a origem da «cegueira branca» que afetou alguns dos seus pacientes. Tal como as outras personagens deste romance, não conhecemos o seu nome próprio. Porém, ainda que identificada através de uma profissão que não é a sua e de um mero grau de parentesco, a mulher do médico desempenha uma função primordial nesta narrativa distópica. Ela é a única personagem que manterá a visão e, assim sendo, é a única que assiste a todas atrocidades cometidas durante uma misteriosa epidemia de cegueira.

Para que não seja separada do seu marido quando este é levado para a quarentena, a mulher do médico finge também estar cega. Esta decisão condena a mulher do médico a uma luta pela sobrevivência dentro de um espaço onde o ser humano desce «todos os degraus da indignidade» (Saramago, 1995: 262). Ainda que não o faça diretamente (contamos com a voz de um narrador e com a intervenção de outras personagens ao longo do percurso), é ela que guia o leitor e o ajuda a explorar os espaços de um antigo manicómio e de uma cidade pós-apocalíptica. Dotada do poder de visão, é a mulher do médico que, impiedosamente, torna o leitor numa testemunha dos atos bárbaros e cruéis praticados em Ensaio sobre a cegueira.

(Daniela Côrtes Maduro, “Mulher do Médico”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

Julianne Moore, em Blindness, realização de Fernando Meirelles.

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Álvaro Silvestre

Personagem do romance Uma abelha na chuva (1953), Álvaro Silvestre é casado com Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, com ela partilhando o protagonismo neste romance neorrealista.

Álvaro Silvestre nasce no seio de uma família de comerciantes e proprietários agrícolas, na terra pobre da Gândara, entre a Ria de Aveiro e o Baixo Mondego, onde um povo de jornaleiros arduamente arranca a sua precária subsistência a um solo pouco generoso. Talvez por isso tenha sido tão permeável ao pavor da miséria que o pai lhe incutiu desde criança e que, acompanhando-o ao longo da vida, está na origem da ganância dos seus atos, nos quais se traduz a lição paterna: “o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela” (Oliveira, 1980: 110-111). Esta ganância coabita, contudo, na pessoa de Álvaro Silvestre, com uma fraqueza de caráter que o lança em desesperados confrontos com o remorso, depois dos atos cometidos. É então vencido pelo medo da punição divina, o que faz dele, nas palavras de Maria dos Prazeres, sua mulher, “o homem cobarde que nem coragem tem para ser ganancioso. Faz tudo para saciar a cobiça, o justo e o injusto, mas depois cobre-lhe a alma a lepra do remorso e corre à igreja, ao confessionário, às penitências. Rói-o o pecado como rói o musgo a concha da lapa” (25). Ao ritmo destas cíclicas alterações de comportamento, o homem sem escrúpulos nos negócios, implacável com os fracos e até mesmo cruel, é rapidamente substituído por um ser acuado pelo medo e o remorso, frágil, doentio e paralisado pelas emoções que não controla. Como reação ao desconforto que assim o domina, procura no álcool o alheamento que a sua natureza indolente mais deseja. Esta indolência é, de resto, a marca que mais sobressai na primeira imagem de Álvaro Silvestre, facultada por um narrador que, ao proceder à figuração da personagem no início da ação, insiste na “lentidão natural”, no “passo oscilante e pesado”, nas “feições paradas, sonolentas” e nos “olhos pouco ágeis” (2, 3, 8).

(por Maria do Rosário Cunha, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesacontinuar a ler aqui)

(João Guedes como Álvaro Silvestre, no filme de Fernando Lopes, 1971)

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Intermedialidade: hipóteses de trabalho

A intermedialidade apoia-se no princípio do diálogo entre campos disciplinares, liga-se ao culto da interdisciplinaridade e à chamada teoria da integração conceptual (conceptual blending; cf. Schneider & Hartner, 2012). Sublinha-se, no quadro destes movimentos de interação, os seguintes aspetos que a intermedialidade comporta: uma conceção dinâmica e trans-semiótica da narrativa e dos discursos mediáticos; a tendência para a superação de fronteiras entre linguagens; a recusa de uma hierarquização que institua prioridades entre práticas culturais (do tipo: a literatura é superior ao cinema e este à televisão). A narrativa com propensão intermediática desenvolve uma vocação dinâmica e transnarrativa que solicita, no plano recetivo, um correlato dinamismo de leitura e análise, com os aprofundamentos exegéticos que daí decorrem.

(Resumo de “Intermedialidade: hipóteses de trabalho e casos de estudo”, in Intermedialidade, vol. 1, n.º especial (2019): Identidade e Retrato: Novos Paradigmas | Novos Media; ed. Eunice Ribeiro; artigo integral em  https://revistas.uminho.pt/index.php/2i/article/view/2433/2528)

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