Author Archives: Carlos Reis

About Carlos Reis

Professor de literatura portuguesa e de teoria da literatura na Univ. de Coimbra, onde se licenciou e doutorou. Foi diretor da Biblioteca Nacional (1998-2002) e reitor da Univ. Aberta (2006-2011). É autor de diversos livros e artigos sobre Eça de Queirós e a sua obra e também (com Ana Cristina M. Lopes), de um Dicionário de Narratologia. Foi professor visitante em universidades brasileiras, norte-americanas e espanholas. É coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Imprensa Nacional-Casa da Moeda) e da História Crítica da Literatura Portuguesa (Verbo). É autor dos seguintes blogues: https://figurasdaficcao.wordpress.com http://queirosiana.wordpress.com

Um dicionário que faltava

No ano já distante de 1987, dois jovens estudiosos da Literatura e da Língua (Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes), traziam a público um Dicionário de Narratologia.

O citado livro preencheu decerto uma lacuna importante numa época em que os estudos literários e os estudos linguísticos convergiam na oferta formativa das universidades, partilhando métodos e objetivos.  Após ter sido reeditado por várias vezes, em Portugal e no estrangeiro, poderia supor-se que o citado Dicionário tinha cumprido a sua função. De forma algo inesperada, porém, C. Reis (já sem a companhia da colega) decidiu empreender um vasto esforço de renovação e transformação, que se traduz no livro realmente novo que acaba de sair.

É justo destacar, em primeiro lugar, que esta obra resulta de um ato de vontade determinada, que exigiu um trabalho longo, escrupuloso e porfiado, onde confluem investigação ampla e exigente, espírito seletivo e apurado sentido pedagógico.

Redigir cada um dos verbetes que fazem parte deste Dicionário implica conhecimento profundo e atualizado das matérias em causa.  Mas exige ainda outros dois requisitos preciosos: rigor e sentido de equilíbrio. Sobre conceitos como analepse, banda desenhada, cinema, identidade, interdisciplinaridade, narrativa digital ou personagem (para citar apenas alguns dos artigos mais extensos que figuram na obra) é bastante mais difícil escrever um artigo de 3 000 caracteres do que um ensaio de 20 000. Nos artigos maiores como nos mais breves, adivinha-se o ideal que norteou o autor: não podia faltar o essencial e não devia subsistir o dispensável.

J. A. Cardoso Bernardes, “Um Dicionário que faltava”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1260, 16 a 29 de janeiro de 2019, pp. 18-19;(continuar a ler)

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Rodrigo de Sousa, personagem de Garrett

Personagem do último romance (inacabado) de Almeida Garrett, Rodrigo de Sousa é um emigrante português radicado no Brasil. A ação passa-se no ano 1839, em Itahé, algures no Recôncavo Baiano. Como figura social, o visconde, talvez o primeiro “brasileiro” da nossa literatura romântica, difere muito dos estereótipos mais tarde popularizados pela novelística camiliana: proprietário de um vasto domínio agrícola, “senhor de inumeráveis engenhos, de minas de brilhantes […] e capitalista”, é um homem culto, de costumes urbanos e afidalgados, características muito pouco consentâneas com o espaço sertanejo.

A família – o visconde, a mulher e a filha, ambas igualmente cultas e elegantes – habita um palácio excêntrico praticamente isolado do mundo, tendo sob sua dependência numerosos criados e escravos negros. Além destes, reside também nos limites da propriedade uma pequena comunidade índia que disfruta de certa autonomia. Os dois grupos étnicos não se relacionam bem, pois os índios desprezam os negros, sendo fator de harmonia a tutela paternal dos viscondes. Rodrigo administra com humanidade todo este utópico microcosmo, auxiliado pela ação filantrópica da mulher. Os escravos respeitam-no, os índios livres toleram-no: graças às suas qualidades de caráter, mas também pelo facto de ser casado com uma brasileira nativa, o colonizador branco (“o estrangeiro”) não é visto por eles como um opressor.

Ao contrário do que sucede com as outras personagens, que dispõem de capítulos dedicados, a caraterização de Rodrigo é essencialmente indireta e descontínua. A primeira apresentação faz-se através da perspetiva de um visitante francês, um botânico amador que ali passa alguns dias em viagem de estudo. O visconde aparenta ter cerca de 40 anos, e a sua atitude desenvolta impressiona bem, de “uma cortesia fashionável” mas de “fisionomia aberta e cordial” (p. 222). Em conversas de circunstância mostra-se cosmopolita mas diz-se saudoso da sua pátria, cuja situação política o desgosta. É também sob o olhar surpreendido (e divertido) do velho fidalgo francês que se vai conhecendo o exótico palácio dos viscondes e o ambiente ultrarrefinado que cultivam, como se estivessem em Londres ou em Paris. A imagem social do anfitrião não fica, porém, comprometida com este contexto algo paródico, pois não tem maneiras de parvenu – antes de “uma simplicidade de gran’senhor, familiarizado com a opulência e superior a ela” (p. 242). Seguro de si, mostra-se desprendido em relação aos luxos britânicos da casa, decorada ao gosto caprichoso da mulher.

(Maria Helena Santana, “Rodrigo de Sousa”, in  Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

 

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Dicionário de Estudos Narrativos: apresentação, 4 de dezembro

No próximo dia 4 de dezembro, pelas 18 horas, terá lugar a apresentação do Dicionário de Estudos Narrativos,  na Almedina Rato (Rua da Escola Politécnica, 225; Lisboa). A apresentação estará a cargo de Helena Carvalhão Buescu.

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Dicionário de Estudos Narrativos

Inscrevendo no seu título a expressão estudos narrativos, este dicionário não busca apenas contemplar uma área científica com recorte nítido. Aquela expressão sugere também que esta não quer ser tão-só uma obra de teoria, no sentido mais forte e consequente do termo; ela encerra também (e muitas vezes explicita-as) propostas de trabalho, ou seja, de estudo da narrativa – ou das narrativas.  Vai neste plural muito daquilo que hoje está adquirido pelos estudos narrativos: num mundo que conhecemos, representamos e organizamos sub specie narrationis, é pertinente que muitos relatos e não apenas os literários sejam objeto de análise; neles – em contexto televisivo ou na Internet, nas páginas de um conto ou numa notícia de jornal –, está muito do que somos, como pessoas e como coletividade. Sem narrativas não sobreviveríamos, porque a nossa experiência do tempo, do espaço e da relação com os outros ficaria irremediavelmente mutilada.

E contudo, não deve estranhar-se que os exemplos e as referências a narrativas que aqui se encontram venham predominantemente do campo literário. Sem contrariar o que  fica dito, essa insistente presença (insistente, não exclusiva) traduz o que para mim e para muitos é inquestionável: provêm da literatura os mais complexos e densos textos narrativos a que a condição humana deu origem. Há milénios que assim é e assim continuará a ser por muito tempo, para além de preferências pessoais (a minha é de ordem literária, evidentemente) e de conveniências institucionais.

(C. Reis, Prefácio de Dicionário de estudos narrativosCoimbra: Almedina, 2018, 582 pp.)

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Narrador

Da figuração do narrador digo igualmente que  é dinâmica, gradual e complexa, formando um  macrodispositivo que conjuga procedimentos de feição e de alcance muito diverso: por exemplo, a simples notação do nome (“Call me Ishmael”) ou a adoção de um imperativo ético (“é essa a nossa obrigação”, declara o narrador do Memorial do Convento). Por fim –  e por agora –,  também  a figuração do narrador é eventualmente  retomada em atos de refiguração: quando um narrador literário surge reelaborado, por remediação, noutro suporte e noutro contexto mediático, ele configura-se em função dos dispositivos vigentes nesse contexto e é remodelado pela linguagem narrativa que nele se enuncia.  O caso do cinema é, neste aspeto, muito significativo, mas não é o único. Tratando-se de um medium  multimodal, a figuração (ou a refiguração) do narrador no relato cinematográfico  não se restringe  a uma voz narrativa, com a nitidez e com a individualidade próprias do narrador literário. O conceito (não absolutamente consensual, diga-se) de  narrador cinemático proposto por Seymour Chatman procura justamente dar resposta às exigências de uma figuração que decorre numa específica “ecologia” mediática; nessa “ecologia”,  o narrador, segundo Chatman, é entendido como “composto formado por uma ampla e complexa variedade de dispositivos de comunicação” (Chatman, 1990: 134), dirigidos ao canal visual e ao canal auditivo.

(extrato de “Figura, pessoa, figuração”, in Colóquio/Letras, nº 199, setembro/dezembro de 2018, p. 17).

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Transficcionalidade

Tendo sido descrita e sistematizada pelos estudos narrativos, no quadro da teoria geral da ficcionalidade (v.), a transficcionalidade é um fenómeno muito antigo, se bem que, em contexto pós-modernista e na era digital, se acentuem os desafios que ela levanta e as possibilidades da sua concretização. Assim, se é certo que “a proliferação de reescritas, na narrativa do final do século XX, é facilmente explicável pelo sentido de passadismo que permeia a cultura pós-moderna e pela fixação do pensamento contemporâneo na natureza textual da realidade” (Ryan, 2008: 386), também é certo que já nos primórdios da literatura moderna é possível observar práticas lúdicas, a partir de mundos ficcionais pré-existentes: “Encontramos expansões no século XVII com continuações do Dom Quixote, modificações no século XVIII com versões alternativas do Robinson Crusoe [como Vendredi ou la vie sauvage, de Michel Tournier], e transposições pelo menos desde o princípio do século XX, em obras como o Ulysses de James Joyce” (Ryan, 2008: 386).

Estão já explícitas, nestas palavras, três modalidades distintas de transficcionalidade: por continuação, por modificação e por transposição. Tais modalidades assentam numa proposta de abordagem “do potencial semântico da reescrita”, designadamente no caso das “reescritas pós-modernistas de obras literárias clássicas” (Dolezel, 1998: 206); trata-se, por meio dessas reescritas, de dialogar com protomundos ficcionais canónicos, levando à questionação do cânone literário estabelecido, através da construção de mundos alternativos, com inerente revisão axiológica. (…)

Note-se, por fim, que o potencial da transficcionalidade não se esgota nas narrativas verbais e nem mesmo nas da chamada era eletrónica (rádio e televisão). Pela sua natureza, as narrativas digitais (v.) evidenciam uma volatilidade e uma “leveza” (na expressão consagrada de Italo Calvino) que as predispõem para movimentos transficcionais às vezes radicais; por outro lado, o universo mediático da Internet, com a sua vocação para ações imersivas por parte do utilizador e para o culto da interatividade (v.), dá lugar a exercícios transficcionais amplamente participados. A rede abre “um espaço público onde tanto amadores como profissionais podem inserir as suas criações. Séries de TV populares, a exemplo de filmes e romances de culto como Harry Potter, dão origem a numerosos websites, onde os fãs trocam comentários, comunicam com autores e com produtores, sugerindo intrigas possíveis para futuros episódios, mandam e-mails para personagens ou para atores que as interpretam e postam histórias baseadas no mundo ficcional do texto que forma o objeto de culto” (Ryan, 2008: 401).

“Personagem” [extrato], em C. Reis, Dicionário de Estudos Narrativos [próxima publicação por Almedina, Coimbra]

 

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Personagem

O conceito de personagem pode ser definido, numa primeira abordagem, como a representação de uma figura humana ou humanizada que, numa ação narrativa, contribui para o desenvolvimento da história e para a ilustração de sentidos projetados por essa história; a personagem vai sendo conformada, ao longo do relato, em função de procedimentos de individualização que permitem distingui-la do narrador e das restantes personagens. Segundo outra definição, “a personagem é uma figura, usualmente humana ou com aparência humana, com base textual ou mediática, num mundo narrativo” (storyworld, no original; v. mundo narrativo); o mesmo termo “é usado para referir participantes em mundos narrativos criados por vários media (…), em contraste com as ‘pessoas’ como indivíduos, no mundo real” (Jannidis, 2013: § 1-2).

Conselheiro Acácio, por Bernardo Marques

De forma explícita ou implícita, estas propostas de definição retêm aspetos decisivos para a caracterização conceptual da personagem: a sua capacidade de intervenção na história, a sua condição de entidade discreta, a componente ficcional e o seu envolvimento narrativo. Uma outra abordagem do conceito em apreço reitera a pertinência destes aspetos: “Enquanto termo narratológico, personagem (francês personnage, alemão Figur) refere-se a um participante do mundo narrativo, ou seja, qualquer indivíduo ou grupo unificado que aparece num drama ou numa obra de ficção narrativa. Num sentido estrito, o termo restringe-se a participantes no domínio do narrado, com exclusão do narrador e do narratário” (Margolin, 2005: 53). Indo além destas palavras, assinale-se que os diversos vocábulos que, em diferentes idiomas, designam a personagem reportam-se etimologicamente a aspetos particulares da sua existência: “O termo inglês ‘character’ remonta ao grego charaktér, uma ‘ferramenta de estampagem’, significando, em sentido figurado, o timbre da personalidade. Os termos francês e italiano [e o português e o espanhol – personnage e personaggio [e personagem e personaje], respetivamente – apontam para o latim persona, i. e., a máscara através da qual se ouve o som da voz de um ator. O alemão Figur, por sua vez, tem as suas raízes no latim figura e sugere a forma que contrasta com o fundo em que se recorta” (Eder et alii, eds., 2010: 7).

“Personagem” [extrato], em C. Reis, Dicionário de Estudos Narrativos [próxima publicação por Almedina, Coimbra]

 

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