Monthly Archives: Maio 2013

A personagem na crónica

Livro de crónicasAs crónicas de António Lobo Antunes são híbridas: por vezes, aproximam-se da construção de um espaço biográfico, por meio do qual autor-cronista anuncia pensamentos, discorre sobre diferentes assuntos e, até mesmo, narra sua vida do passado e do presente; em outros casos (…), a crónica aproxima-se (e apropria-se) da narratividade e da ficcionalidade, por meio dos mundos possíveis ficcionais e, principalmente, por meio da figuração de personagens.

Como identificar qual dessas realizações está diante de nossos olhos? Simplesmente por meio da leitura. O primeiro pacto estabelecido refere-se à voz – que voz é essa presente na crónica? Trata-se da voz de António Lobo Antunes (ainda que como uma persona) ou trata-se da voz de uma personagem, um signo – para lembramos as palavras de Cristina da Costa Vieira –, inserido em um contexto específico, em uma diegese? Nesse pacto, desvendado apenas após a leitura da crónica na íntegra, verificamos se na materialidade textual há uma personagem ou há uma figuração do autor empírico António Lobo Antunes.
Quero ressaltar a deriva ficcional de tais personagens, construídas em um mundo possível; um recurso distinto daquele utilizado, por exemplo, por João do Rio, um dos cronistas brasileiros mais consagrados. Segundo Jorge de Sá, o cronista criou personagens que eram ficcionalizações de pessoas do mundo cultural carioca: “Com isso ele [João do Rio] também prenunciou que a crónica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas. Sua linha divisória – às vezes muito ténue – é a densidade. Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crónica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem” (A crónica. São Paulo: Ática, 2008, p. 9, grifo meu).

As crónicas antunianas não seguem o perfil descrito acima. António Lobo Antunes cria narradores, quase sempre personagens, o que exige uma análise mais densa das vozes enunciativas. No corpus em análise, a impressão “tudo parece ter acontecido” existe, mas refere-se às crónicas analisadas no capítulo anterior. Quando há figuração de personagem, há, também, construção de narrador e de ficcionalidade.

Caroline V. Becker, António Lobo Antunes. Entre escritas de si e figurações de personagem. Porto Alegre: PUCRS, 2012, pp. 85-86 [Dissertação de mestrado]

Lobo antunes

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Personagens em mundos ficcionais

sem nomeEm J. Eder et alii (eds.), Characters in Fictional Worlds. Understanding Imaginary Beings in Literature, Film, and Other Media (Berlin: Walter de Gruyter, 2010) encontram-se reunidos estudos sobre a teoria e a análise da personagem, incidindo sobre diferentes áreas temáticas: questões gerais (p. ex., a ontologia da personagem ou o estado atual da investigação, nos estudos literários e mediáticos), a diversificação mediática do estatuto da personagem  (no cinema, teatro, banda desenhada, texto dramático), a relação entre personagens e audiências (leitura, interações afetivas, efeitos parassociais), problemas de identidade, de género e étnicos suscitados pela personagem, derivas transtextuais e transmediáticas da personagem. Por fim, uma extensa bibliografia, da responsabilidade dos organizadores do volume, contemplando os diferentes domínios cobertos pela obra.

Na extensa introdução, da autoria de J. Eder, F. Jannidis e R. Schneider, abre-se caminho aos estudos e campos de análise representados no livro. Secções da introdução, em parte anunciando os capítulos que se lhe seguem:

  1. Questões de análise da personagem e teorias da personagem;
  2. Definição e ontologia da personagem;
  3. Personagens e pessoas;
  4. Aspetos transmediáticos e mediáticos da personagem;
  5. Personagem e ação;
  6. Constelações de personagens;
  7. Identificando personagens;
  8. Caracterização;
  9. Tipos de personagem;
  10. Personagem e género (genre);
  11. Funções e significados das personagens;
  12. Reações dos recetores e relações com personagens.

Logo no início, Eder, Jannidis e Schneider fixam parâmetros de desenvolvimento para o texto introdutório e para o que se lhe segue. Assim:

  • Uma abordagem comparativa da personagem exige que se fale genericamente em recetores (leitores, ouvintes, espetadores, jogadores de videogames, etc.) e em textos (livros, quadros, filmes, videogames, etc.)
  • As questões de análise e de interpretação da personagem organizam-se em três grupos: as que respeitam à produção (como as personagens são construídas); as que respeitam à interpretação (como as personagens podem ser entendidas, interpretadas e experienciadas), em articulação com os dispositivos estilísticos que as conformam (figuração); as que respeitam à significação cultural e social das personagens, consideradas como signos em contexto histórico e sociocultural.
  • É possível distinguir quatro diferentes paradigmas de abordagem da personagem, com princípios e métodos próprios: hermenêutico, apontando para o background histórico e cultural das personagens e seus criadores; psicanalítico, com orientação para a psique de criadores e recetores; estruturalista e semiótico, centrado na construção textual (linguística, visual, auditiva ou audiovisual) da personagem; cognitivo, valorizando as operações de conhecimento e de relação afetiva com as personagens, encaradas como construtos da mente humana.

Um passo do texto introdutório em causa: “We start with some fundamentals: the definition and ontology of characters, their relations to real people and to the media they are represented in. We then turn to action and character constellations as two important contexts of individual characters in fictional worlds. On that basis, we examine somewhat more specifically how characters are reidentified and characterised in different media. From a more global perspective, characters can then be associated with recurring types and media genres, as well as with certain functions they fulfill and meanings they convey. Finally, we conclude with some thoughts on how recipients respond to characters and what kinds of lasting effects characters may have.” (p. 6)

 

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Saramago: personagens e mulheres

A estátua e a pedra Consciente, como sempre esteve, de que a sua obra se abre aos outros – aos leitores de agora e aos do futuro –, José Saramago procede em A Estátua e a Pedra a uma explicação. É isso que o subtítulo anuncia, mas de forma calculada: “O escritor explica-se”. Assim mesmo e não “o escritor explica”, menos ainda “explica-nos”. O escritor explica-se, porque pondera o que fez, em autoanálise deixada ao nosso dispor: trata-se de um “encontro entre autor e leitor” (A Estátua e a Pedra. Lisboa: Fundação José Saramago, 2013, p. 19) em que o explicar-se de José Saramago tem muito de olhar lançado sobre si mesmo, sobre os livros que escreveu, sobre os sentidos que por eles foi dispersando e sobre os tempos e os modos da sua própria evolução literária.
O escritor explica-se, então, acerca das suas personagens: “O personagem central da história [Ensaio sobre a Cegueira] é outra vez uma mulher. Suponho que às minhas leitoras lhes agradará que isto seja uma constante, porque verdadeiramente, como personagens, quem sempre salva os meus livros são as mulheres. Não é que os homens não sejam pessoas boas, que o são e podem sê-lo, mas ao lado delas aparecem sempre como pequenos aprendizes. Quero clarificar algo que já assinalei antes, a propósito do facto de não se encontrarem heróis nos meus romances, apenas gente normal, que vive vidas normais, embora no caso de Baltasar e Blimunda eles assistam com naturalidade a certos prodígios. Reflito e escrevo sobre pessoas comuns porque essa é a gente que conheço. É provável que as mulheres que invento não existam, talvez não sejam mais do que projetos, talvez me seja mais fácil imaginar um projeto de mulher que um projeto de homem. Em qualquer caso, e para não fugir à questão, acrescentarei que o facto de ter sido criado por mulheres, de viver e crescer sempre entre mulheres, pressupôs, em definitivo, ter aprendido com elas o que efetivamente é benéfico, não no sentido utilitário, mas em profundidade e humanismo. Devo isto às mulheres e, por isso, assim fica refletido nos meus livros.” (pp. 34-35)

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