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Herói desportivo

CRDotado de conformação bem singular  é aquele outro  herói em quem dialeticamente logo pensamos, quando descrevi a singeleza infantil de Lionel Messi. Trata-se do “irmão desavindo” Cristiano Ronaldo. Digo-o nestes termos por saber que o motivo do irmão desavindo (…), como o motivo do rival inconciliável, são ambos tão antigos como os relatos fundacionais da civilização judaico-cristã e as narrativas identitárias da Antiguidade Clássica, matrizes de um imaginário de que se alimentam também as narrativas mediáticas do fenómeno desportivo. Caim e Abel, Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, num outro plano que é o da rivalidade dos heróis, David e Golias, Aquiles e Heitor, Artur e Lancelote não seriam heróis sem a conflitualidade às vezes fratricida que expressa a diferença e acentua a energia vital que caracteriza o comportamento heroico. Em tudo distinto de Messi, o herói Cristiano Ronaldo é filho da mesma mãe mediática, mas é moldado por uma figuração paraficcional própria. Expressa-se essa figuração na exuberante musculação e na gestualidade de guerreiro Matrix que se exibe na arena mediática. Antes disso, está uma proclamada e assumida metodologia do treino com requintes científicos, tudo  desembocando numa imagem cuja dimensão humana é quase residual.  Com o apoio de gráficos, de estatísticas e de iconografia computorizada, o herói está feito um robot, com designação de marca a condizer: CR7. Trata-se agora de uma espécie de organismo cibernético, cuja sofisticada agressividade se traduz em imagens verbais que os narradores do relato mediático já estereotiparam: Cristiano Ronaldo não marca livres; CR7 dispara mísseis tomahawk. No Brasil, ele perdeu por completo a condição humana: “é a fera”, dizem os comentadores.

Extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo“, in Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. Coimbra: Imprensa da Univ. de Coimbra, 2015.

 

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Herói desportivo

Trato aqui do herói desportivo, tal como o encontramos sobretudo na modalidade de alcance planetário que é o futebol. Não que ele seja, como é óbvio, a única modalidade que gera, difunde, dá a consumir e às vezes ajuda a corromper heróis; outras o fazem, com as suas lógicas próprias. Todavia, é aquela dimensão planetária que o futebol ganhou, graças a procedimentos de figuração e de mediatização em contexto de comunicação social, que eleva os convite Pessoas do Livro-page-001 - Cópiaprotagonistas da modalidade à dimensão de heróis, também eles planetários e dotados de atributos outrora exclusivos das representações da literatura, das artes plásticas, das lendas e dos mitos inacessíveis ao comum dos mortais. Os heróis de que aqui me ocupo são figuras tão massificadas como os veículos e os discursos mediáticos que fazem do futebol uma presença quase obsessiva no nosso quotidiano, assim projetando sobre ele aquelas propriedades e atributos. (…)

Temos os heróis desportivos que temos porque lemos, ouvimos e vemos relatos mediáticos construídos em função de um leque considerável de possibilidades, dependendo de propriedades e de combinações definidas em campos de caracterização próprios. É este um enquadramento operatório que, estando implícito em muito do que aqui digo, deixo com os especialistas, em particular com aqueles que se ocupam dos media orientados para grandes massas de recetores.

Dentre esses especialistas, cito Marie-Laure Ryan que, numa análise tão sucinta como esclarecedora, diferenciou as narrativas mediáticas de acordo com o seu alcance espácio-temporal, com as suas propriedades cinéticas, com a diversidade de códigos implicados (p. ex., os media chamados multicanais), com a prioridade ou hierarquia dos canais sensoriais, com a materialidade dos signos e suportes tecnológicos e com a função cultural e métodos de produção e distribuição (cf. M.-L. Ryan, “Media and Narrative”, in D. Herman et alii, (eds.), Routledge Encyclopedia of Narrative Theory. London: Routledge, 2005, pp. 290-291).. De acordo com estas distinções, até os modestos cromos da bola são narrativas mediáticas em potência, limitadas por força do seu alcance e da rigidez das suas imagens estáticas; ainda assim, quantas jogadas, quantas fintas, quantas defesas não fizeram e fazem, no imaginário infantil, os heróis dos cromos da bola.

A par destes, fomos conhecendo, ao longo do século XX, outros relatos mediáticos mais elaborados, no jornal desportivo, na rádio, escassamente no cinema, mais tarde na televisão, esta última agora ajudada (com inevitáveis efeitos dispersivos, no que toca à atenção do espectador) por incontáveis câmaras, por gruas diligentes, por incessantes repetições, por ângulos inversos, por grandes planos, por imagens congeladas ou em slow motion, por estatísticas precisas, por diagramas minuciosos, por velocidades da bola, por distâncias percorridas, por linhas virtuais que humilham os árbitros e os seus auxiliares. Por tudo isto e por comentadores que nada calam, desde o feitio da chuteira até à média de golos por campeonato, nos últimos vinte ou até trinta anos, quase sempre com desprezo pelo gozo e pelo sossego de quem vê.

Seja como for, mesmo neste mundo em que as narrativas mediáticas são exibição de si mesmas, não passamos sem heróis, porque sem eles não há espetáculo e nem negócio, é claro. “Si no hay dinero, no hay portero”, declarou há muitos anos Carlos Gomes, um mítico guarda-redes do Sporting, quando estava para ser transferido para Espanha. Na idade do digital e da informação em rede, com a celeridade e com a leveza, com a exatidão, com a visibilidade e com a multiplicidade que são suas propriedades estruturantes (Calvino dixit), nessa idade nova mas já nossa que é o século XXI, o espaço do jogo excedeu os limites físicos do campo de futebol, do court de ténis ou da piscina olímpica. Indo além da televisão de alcance planetário, a cena de afirmação dos heróis do desporto, hoje em dia, é sobretudo o ciberespaço, ou seja, o “espaço de comunicação aberto pela interconexão dos computadores e das memórias dos computadores” (Pierre Lévy, Cibercultura. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2007, p. 92).

Nesse novo cenário, os jogos são cada vez mais videogames e talvez até passe por aí o futuro da narrativa. Desenvolve-se nos videogames, segundo os especialistas na matéria, uma narratividade reelaborada pelas potencialidades do digital e da interatividade; trata-se agora de um jogo radicalmente virtual que podemos jogar em qualquer lugar e em qualquer momento, com a suave ilusão de sermos os seus agentes e os seus protagonistas: nos videogames escolhemos os jogadores, determinamos as dimensões do campo, decidimos as condições atmosféricas. É nessa dimensão do digital que se refiguram novos heróis; e não foi por acaso, que, na noite de 5 de abril de 2010, depois de uma derrota pesada, perante um Barcelona intratável e guiado por um herói do futebol, marcador de quatro golos, o treinador do Arsenal, Arsène Wenger, declarou, acerca de Messi: “é um jogador de PlayStation”.

(extrato de Pessoas de Livro. Estudos sobre a personagem. Coimbra: Imp. da Univ. de Coimbra, 2015)

Messi

 

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Figuração do herói romântico

imagesBUIK1WHIA personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras…Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.

A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.

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  (Livro do Desassossego de Bernardo Soares. Edição R. Zenith. 3ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 86-87)

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Heróis

Num mundo em que as narrativas mediáticas às vezes são exibição de si mesmas, não passamos sem heróis, porque sem eles não há espetáculo e nem negócio, é claro. Na idade do digital e da informação em rede, com a celeridade e com a leveza, com a exatidão, com a visibilidade e com a multiplicidade que são suas propriedades estruturantes (Calvino dixit), nessa idade nova mas já nossa que é o século XXI, o espaço do jogo excedeu os limites físicos do campo de futebol, do court de ténis ou da piscina olímpica. Indo além da televisão de alcance planetário, a cena de afirmação dos heróis do desporto, hoje em dia, é sobretudo um ciberespaço, ou seja, um “espaço de comunicação aberto pela interconexão dos computadores e das memórias dos computadores” (Pierre Lévy, Cibercultura. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2007, p. 92).
Nesse novo cenário, os jogos são cada vez mais videogames e talvez até passe por aí o futuro da narrativa. Desenvolve-se nos Messivideogames, segundo os especialistas na matéria, uma narratividade reelaborada pelas potencialidades do digital e da interatividade; trata-se agora de um jogo radicalmente virtual que podemos jogar em qualquer lugar e em qualquer momento, com a suave ilusão de sermos também os seus agentes e os seus protagonistas: nos videogames escolhemos os jogadores, determinamos as dimensões do campo, decidimos as condições atmosféricas. Nessa dimensão do digital refiguram-se novos heróis; e não foi por acaso, que, na noite de 5 de abril de 2010, depois de uma derrota pesada perante um Barcelona regido por um génio do futebol moderno, herói à sua maneira e marcador, nesse jogo, de quatro golos, o treinador do Arsenal, Arsène Wenger, declarou: “Messi é um jogador de PlayStation”.
Foi bem assim. E todavia, quem se lembra desse jogo e de tudo o que dele fez um espetáculo memorável (espetáculo de televisão, bem entendido), recorda-se das suas últimas imagens, vistas por quem estava em casa mas não certamente pela esmagadora maioria dos que estavam no estádio: as imagens são as de Messi saindo do relvado, levando a bola debaixo do braço, com a alegria de uma criança que, depois de uma peladinha com amigos, regressa a casa, suado e feliz, como um deus descido à Terra. Aquele deus “tornado outra vez menino”, diria Alberto Caeiro, é agora um ser humano, tal como as crianças que, cansadas de brincar, “limpavam o suor da testa quente/com a manga do bibe riscado” (outra vez Caeiro). Ou seja: desligada a PlayStation, o herói virtual refez-se pessoa normal, jovem discreto sem brincos, tatuagens ou gel no cabelo. Uma espécie de anti-herói fora do campo.

Infografia de Carlos Esteves

Infografia de Carlos Esteves

Por oposição, aludo a um outro herói, esse em quem dialeticamente estava já a pensar, quando descrevi a singeleza infantil de Lionel Messi. Trata-se do “irmão desavindo” Cristiano Ronaldo; e digo-o nestes termos por saber que o motivo do irmão desavindo, como o motivo do rival inconciliável, são ambos tão antigos como os relatos fundacionais da civilização judaico-cristã e como as narrativas identitárias da Antiguidade Clássica, matrizes de um imaginário de que se alimentam também as narrativas mediáticas do fenómeno desportivo. Caim e Abel, Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, num outro plano que é o da rivalidade dos heróis, David e Golias, Aquiles e Heitor,Robocp Artur e Lancelote não seriam heróis sem a conflitualidade às vezes fratricida que expressa a diferença e acentua a energia vital que caracteriza o comportamento heroico. Em tudo distinto de Messi, o herói Cristiano Ronaldo é filho da mesma mãe mediática, mas é moldado por uma figuração paraficcional própria. Expressa-se essa figuração na exuberante musculação e na gestualidade de guerreiro Matrix exibidas na arena mediática, tudo desembocando numa imagem cuja dimensão humana é quase residual. Com o apoio de gráficos, estatísticas e iconografia computorizada, o herói está feito um robot, com designação a condizer: CR7. Trata-se agora de uma espécie de organismo cibernético, cuja sofisticada agressividade se traduz em imagens verbais que o relato mediático cultiva: Cristiano Ronaldo não marca livres; CR7 dispara mísseis tomahawk.

(Excerto de “The Special One. Fenomenologia do herói desportivo”, in Comunicação & Educação, ano XVIII, 2, pp. 63-74; publicado em Figuras da Ficção a 23 de abril de 2013)

 

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O herói desportivo: the special one

Eusébio com Fernando Marques, o Formidável

             A biografia é um género  em que  se combinam  duas propriedades que muito importam à heroização do atleta. Primeiro: a biografia exalta uma personalidade que merece ser destacada do fluxo da História. Segundo: a biografia recorre a  elementos paraficcionais,  ou seja, componentes da “história” contada que, não sendo verificáveis empiricamente, às vezes ocultam  zonas pouco nobres da vida passada. Com a conivência, até com a exigência dos interessados, as chamadas biografias autorizadas são exímias em cultivar esses estratagemas de camuflagem.

Sintomaticamente, as biografias de homens e de mulheres  do  desporto são quase sempre da autoria de jornalistas ou, no mínimo, escritas em regime jornalístico. É o que se percebe quando consultamos  títulos como os que se seguem: Cristiano Ronaldo: A Verdadeira História do Melhor Futebolista do Planeta (2008), por Tom Oldfield; Rosa Mota: Memória de uma Carreira (1999), por Leonor Pinhão;  Carlos Lopes (1992), por Carlos Pinhão. Para além destes e de outros mais, lembro  o caso  bizarro de uma autobiografia escrita não pelo próprio, como mandam as regras do género, mas por um escriba de serviço:  Meu nome é Eusébio: autobiografia do maior futebolista do mundo (1966),  prefácio e narrativa recolhida por Fernando F. Garcia. Recolhida e certamente reescrita,  porque  quem tem talento com os pés não o tem necessariamente com a pena.

Trata-se, em geral, de obras de extensão  reduzida, em estilo simples, direto e pouco dado a flores de retórica (a não ser a hipérbole, é claro), relatando origens humildes, a que se seguiu a árdua superação de obstáculos de toda a ordem, com o justo prémio de taças, campeonatos, medalhas e recordes, por entre viagens incessantes, duros treinos e algumas lesões; um trajeto de vitórias, em suma, aqui e ali alternando com uma ou outra chorada derrota. Não faltam na biografia testemunhos do visado e não poucos depoimentos de familiares, amigos, treinadores e companheiros de profissão. Tudo isso e  muitas imagens, sobretudo das proezas, às vezes também de fracassos que humanizam o herói.

Retomo aqui um aspeto relevante desta reflexão: o império das imagens enquanto instância de consolidação  do herói desportivo. E recupero  imagens talvez já esquecidas, que deram a volta ao  pequeno mundo português, recolhidas no dia em que um herói  foi derrotado e com ele uma nação. Refiro-me às fotografias de  Eusébio  em lágrimas,  a 26 de julho de 1966, logo depois da derrota por 2 a 1 com a Inglaterra. Pois bem: o que impressiona  não é apenas a desolação de um moço simples de 24 anos; a desolação fala por si e não carece de mais comentários. Mas a imagem é também fotografia do fotógrafo, não do que a captou, é claro, mas da figura que apoia Eusébio,  uma presença que ali significa o seguinte:  o fotógrafo estava lá, como tinha que estar, mas por instantes fez parte do drama como ser humano. Com a câmara fotográfica momentaneamente esquecida, o fotógrafo diz-nos, sem o dizer: houve um tempo em que o espetáculo desportivo e o seu herói, começando  já a ser imagem, consentiam  a trégua de um gesto de carinho. E assim, o fotógrafo não fotografou porque preferiu confortar o herói vencido, porventura inocente dessa sua condição.

Quer isto dizer que os atletas já não choram? De modo algum. Quase quatro décadas depois, no derradeiro jogo do Euro 2004, um  herói  ainda em crescimento  não conteve o pranto. Mas nesse dia, o jovem quase adolescente não teve consigo quem o acalentasse; Ronaldo lágrimas 3todo ele era imagem, uma imagem de que o fotógrafo não abdicou. Por isso, quando terminou a final, Cristiano Ronaldo  chorou sozinho, perdido no relvado onde foi herói por cumprir e vítima  abandonada à crueza de imagens  quase indecorosas. Nesse dia, o fotógrafo estava onde devia, atrás da câmara; com ele estavam  todos os agentes das imagens que (passe a redundância) fazem ícones e configuram heróis. Heróis que, quando derrotados, pagam o preço de uma cruel solidão que o poder das imagens maldosamente acentua.

Foi de peito aberto que, em junho desse ano de 2004, em Londres, um treinador português contratado por um milionário russo e chamado José Mourinho proferiu uma declaração que o acompanhará pelo resto da vida:  “I am the European champion. I think I am a special one.” Assim mesmo, sem medos, rodeios ou modéstias, ficava enunciado o que parecia ser o princípio de uma narrativa, mas que, afinal, era já a sua continuação e a promessa de novos e mais excitantes capítulos. Mourinho, de resto, logo em 2003 tivera direito a uma biografia, da autoria de Luís Lourenço, biografia que hoje sabemos provisória, porque falta muito para a história  acabar.

Quem era  José Mourinho e por que razão este herói então em projeto indignou alguns, chocou outros e seduziu não poucos? Era alguém que sabia que, ali no coração da chamada “pátria do futebol”, estava a falar para o mundo (as televisões filmaram e as imagens permanecem no ciberespaço); alguém que afirmava um poder que nada autorizava, a não ser a  crença  nas virtudes de um heroísmo  por provar. E assim,  um treinador jovem, chegado de um pequeno país do sul, historicamente colónia económica da Grã-Bretanha,  afrontava o John Bull robusto e prosaico. E fazia-o na própria casa de quem o acolhia, como que compensando, quase quarenta anos depois, a derrota no Mundial de 66. As lágrimas de Eusébio estavam vingadas e os portugueses juntamente com elas; e mais vingadas ficaram quando o jovem treinador mostrou que era herói por palavras e por atos. Por tudo isso e pela imagem que soube cultivar, mais o cognome que o próprio Mourinho escolheu, como se assim se definisse a marca de água que o distingue como herói desportivo.

(Excerto de “The Special One. Fenomenologia do herói desportivo”, in Comunicação & Educação, ano XVIII, 2, pp. 63-74)

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Herói e anti-herói

Fixo-me nas imagens que, numa cultura mediática que vive delas, valem por muitos manifestos políticos e por não poucas proclamações ideológicas. E fazem heróis coletivos.

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Na final do Mundial de 1982, aos 69 minutos de jogo, o italiano Marco Tardelli marcou o segundo golo à Alemanha  e correu para a glória, porque o jogo estava praticamente ganho. Aquilo que nos contam as imagens  de euforia que deram a volta ao mundo  não é tanto o golo de Tardelli, mas a vitória da latinidade contra os povos do Norte. Os italianos vinham de um Estado unificado por Garibaldi, mas também pelo desporto-rei; para além disso, eram bonitos, elegantes, ágeis e tinham nomes musicais – Graziani, Gentile, Conti, Oriali, Altobelli. Do outro lado estavam os germânicos, louros e  hirsutos, com nomes que aos ouvidos do sul soavam quase como bárbaros,  Horst Hrubesch, Karl-Heinz Rumenigge, Paul Breitner, Harald Schumacher. Venceram os latinos e por uma vez não valeu aquela máxima mais tarde inventada por um jogador inglês, Gary Lineker: “O futebol é um jogo simples: são onze contra onze e no fim ganham os alemães.”

Quando não ganha quem se espera,  o herói é vencido e com ele as ilusões que lhe havíamos confiado. Dentro e fora do campo, fisicamente ou moralmente. Como que atingido por uma  maldição aziaga, Fernando Pascoal das Neves, de alcunha Pavão,  caiu morto no Estádio das Antas ao minuto 13, num jogo da jornada 13, num dia chuvoso de Dezembro de 1973,  a três dias de cumprir 26 anos, duas vezes 13. Antes e depois dele outros heróis ficaram por cumprir, porque tombaram em plena competição. O primeiro de todos,  na nossa memória coletiva, foi talvez o maratonista Francisco Lázaro, há alguns anos evocado como personagem de um romance de José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos (2006). De todos podemos dizer como Fernando Pessoa, na morte de Mário de Sá-Carneiro: “Morre jovem o que os Deuses amam”.  Como quem diz: há heróis desportivos que se vão, talvez porque eram grandes de

Francisco Lázaro

Francisco Lázaro

mais para a sua precária condição de mortais. Conta-se que, na Roma antiga, durante o desfile da vitória, o general vencedor era acompanhado por um escravo que lhe murmurava ao ouvido, por entre as aclamações da multidão, palavras de prudente lembrança de uma condição humana que nenhum herói deve esquecer. Os deuses podiam ficar invejosos do excesso da glória. Outros excessos, por causa da fama atingida ou a atingir, derrubam moralmente heróis desportivos do nosso tempo, desavisados dos riscos  da ambição: os casos  de Lance Armstrong e de Oscar Pistorius (este com o sobrenome  inquietante de Blade Runner)  dispensam comentários, a não ser dizer que a derrota moral parece ainda mais penosa  do que a derrota desportiva. Esta, para todos os efeitos, faz parte das leis do jogo.

É  da queda do herói enquanto atleta cumpridor das leis do jogo que quero falar. Para o fazer, chamo à reflexão a personagem que se destaca na grande narrativa que é o jogo de futebol: o guarda-redes. Tal como o herói romântico, ele está solitário entre os postes e é diferente dos demais: equipa-se de modo distintivo e  segue regras próprias que às vezes transgride, por exemplo, quando vem à área adversária ou quando ousadamente finta o avançado  que o ameaça.  Na marcação do penalty, já se sabe: é a solidão total do condenado à execução. Nesse momento em que o tempo parece deter-se, trava-se um  duelo que de um dos lados tem sempre o mesmo protagonista, herói celebrado quando defende, anti-herói humilhado quando é batido. Foi um pouco disso que Peter Handke  transpôs metaforicamente para uma novela  intitulada A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty (1970), depois passada ao cinema por Wim Wenders; e foi certamente a pensar no  título de Handke que o antigo futebolista argentino Jorge Valdano escreveu sobre “O penalty sem angústias”, dizendo dele: é “um golo por acabar (e que pode acabar mal)”. Para o guarda-redes, antes de mais, para a equipa e para tudo o mais que aquele singular jogador carrega nos ombros, em segundos decisivos, sem apelo nem retorno.

Barbosa, final do Mundial de 1950

Barbosa, final do Mundial de 1950

Não foi preciso um penalty para que, numa tarde de julho, um guarda-redes passasse de herói a anti-herói em frações de segundo. Foi na final do Mundial de 1950, quando um pequeno país venceu a grande nação que fazia do futebol uma causa coletiva e um emblema de afirmação identitária. O Uruguai-David bateu o  Brasil-Golias, com um golo do avançado Alcides Ghiggia marcado ao guarda-redes Barbosa. Faltando dez minutos para as cinco da tarde e apenas onze para o jogo terminar, nascia no Maracanã, sob o olhar gelado de perto de 200 mil pessoas, um anti-herói, o guarda-redes, naturalmente; por causa dele e só por causa dele, desatava-se o pranto num país inteiro, que se tinha por vencedor antecipado. A culpa, carregada até ao fim da vida por aquele atleta negro nascido em Campinas, era irremissível. Não foi o defesa que falhou o desarme, não foi o médio que desajudou o defesa. Quem perdeu e para sempre, foi o guarda-redes, arrastando no seu fracasso todo um povo, mais as suas ilusões desfeitas e as suas alegrias frustradas.

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             (C. Reis, extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo”, II   Jornadas de Comunicação e Desporto; CEIS20/Universidade de Coimbra, 25.2.2013).

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A condição do herói

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo  (c. 1475)

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo (c. 1475)

A condição ficcional do herói, podendo achar-se vinculada a um tempo e a uma modelação estética específicos (é o caso da  novelística romântica), não é evidente em todas as épocas nem em todos os relatos. Na Antiguidade Clássica ou no renascimento, a feição do herói impõe aos homens comuns o respeito reverencial que é devido a figuras dotadas de exemplaridade religiosa, mitológica ou histórica, prévia a um seu eventual estatuto  de personagens literárias. Noutros termos: as narrativas épicas ou as canções de gesta, que exaltavam heróis no universo da guerra ou do proselitismo religioso, não eram  forçosamente entendidas como literatura, à luz dos princípios estéticos e dos protocolos institucionais vigentes no nosso tempo.

Isto quer dizer que a problemática do herói não é estritamente literária. Ela abre-se a reflexões de índole filosófica, ética, moral ou política  que se não restringem às práticas literárias e aos mundos imaginários em que transitam os heróis ficcionais; o que não impede que nos heróis ficcionais e literários, se projete uma axiologia do herói  provinda daquelas reflexões. Em 1637, o teólogo jesuíta  Baltasar Gracián publicou El Héroe, um conjunto de diretrizes  que deveriam reger a vida e as decisões dos governantes,  como referência moral dos homens que eles governam; e abria  com um conselho bem significativo: o herói deverá cultivar o engenho de “ostentarse al conocimiento, pero no a la comprehensión; cebar la expectación, pero nunca desengañarla del todo”. Diríamos hoje, como se falássemos de um herói desportivo: o  herói deve saber gerir a sua imagem. Muito tempo depois, em 1841, Thomas Carlyle publicava um conhecido ensaio de forte repercussão política, não isento de ambivalências ideológicas, com o título On Heroes, Hero-worship and the Heroic in History. Dizia Carlyle: “As I take it, Universal History, the history of what man has accomplished in this world, is at bottom the History of the Great Men who have worked here.” Foram esses Grandes Homens providenciais –  Maomé e Shakespeare, Lutero e Rousseau, Cromwell e Napoleão, outros ainda, nos domínios da religião, das letras ou da política – que se transformaram em modelos, no mundo em que viveu “a grande massa dos homens”. E pouco depois, entre 1883 e 1885, Nietzsche enunciou, pela palavra do filósofo imaginário Zaratustra, os princípios constitucionais e as máximas que moldavam o comportamento de um herói-super-homem ameaçado pela “gente miúda”: “Superai-me, ó homens superiores, as pequenas virtudes, as mesquinhas prudências, os escrúpulos ínfimos como grãos de areia, a agitação própria de formigas, o contentamento deplorável, a ‘felicidade da maioria’!”

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Não me alongo sobre esta que de certa forma, diria Camões, é uma “matéria perigosa”. Sabemos bem o que veio política e historicamente depois de Carlyle e de Nietzsche; e podemos até desconfiar  que dos seus conceitos de herói alguma coisa terá sido herdada,  pela via de interpretações oportunas e deformadas, por ditadores, por defensores da superioridade de uns sobre outros e por agentes  da intolerância  ideológica e da violência política.

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