Monthly Archives: Março 2013

Personagens secundárias

No seu discurso de entrada na Real Academia Española, em 21 de novembro de 2010, a escritora Soledad Puértolas  falou sobre as personagens secundárias do Quijote . “Tengo debilidad por los secundarios, por aquellos a quienes, en los diferentes órdenes de la vida y del arte, les toca ocupar posiciones marginales”, disse.

001Sem as personagens secundárias, os heróis das ficções não teriam  a proeminência que lhes reconhecemos,  porque é esse caráter secundário que indiretamente realça os atributos e o destaque da personagem que domina o relato; uma dominância que carece, todavia, da interação com personagens secundárias.

Dulcinea del Toboso, monsieur Homais, o conselheiro Acácio ou Bartolomeu Lourenço podem, entretanto, ganhar uma projeção considerável, deduzida das suas características culturais, mentais ou sociais. E, desse modo, chegam a transcender as ficções que os acolhem. Do mesmo modo, Soledad Puértolas resgata o secundário para a dimensão de protagonista:  “De los cuentos que me leyeron en la infancia y los que luego leí y fui escogiendo por mi cuenta, me fijaba sobre todo en aquellos personajes que se quedaban un poco atrás, un sapo desorientado, un elefante patoso, una gallina de plumaje deslucido. Más tarde, cuando entraron en mi vida relatos que trataban de gente parecida a mí, de niñas inquietas y soñadoras que no entendían el mundo de los adultos y que preferían refugiarse en sus fantasías, comprendí que en la vida había muchas pistas que parecían asuntos secundarios y que daban pie a historias verdaderamente principales. Era yo, al escogerlas, al ir descubriéndolas e inventándolas, quien las convertía en principales. Finalmente, eso es lo que hago cuando escribo ficciones, convertir en protagonistas a personajes que, antes de ser escogidos, podían pertenecer al universo de lo secundario.” (Aliados. Los personajes secundarios del Quijote. Madrid: Real Academia Española, 20102, p. 16).

Llamábase Aldonza Lorenzo, y a esta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y, buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso porque era natural del Toboso, nombre, a su parecer, músico, peregrino y significativo, como todos los demás que a él y a sus cosas había puesto. (Don Quijote de la Mancha, primeira parte, I).


Llamábase Aldonza Lorenzo, y a esta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y, buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso porque era natural del Toboso, nombre, a su parecer, músico, peregrino y significativo, como todos los demás que a él y a sus cosas había puesto. (Don Quijote de la Mancha, primeira parte, I).

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Herói e anti-herói

Fixo-me nas imagens que, numa cultura mediática que vive delas, valem por muitos manifestos políticos e por não poucas proclamações ideológicas. E fazem heróis coletivos.

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Marco Tardelli, final do Mundial de 1982

Na final do Mundial de 1982, aos 69 minutos de jogo, o italiano Marco Tardelli marcou o segundo golo à Alemanha  e correu para a glória, porque o jogo estava praticamente ganho. Aquilo que nos contam as imagens  de euforia que deram a volta ao mundo  não é tanto o golo de Tardelli, mas a vitória da latinidade contra os povos do Norte. Os italianos vinham de um Estado unificado por Garibaldi, mas também pelo desporto-rei; para além disso, eram bonitos, elegantes, ágeis e tinham nomes musicais – Graziani, Gentile, Conti, Oriali, Altobelli. Do outro lado estavam os germânicos, louros e  hirsutos, com nomes que aos ouvidos do sul soavam quase como bárbaros,  Horst Hrubesch, Karl-Heinz Rumenigge, Paul Breitner, Harald Schumacher. Venceram os latinos e por uma vez não valeu aquela máxima mais tarde inventada por um jogador inglês, Gary Lineker: “O futebol é um jogo simples: são onze contra onze e no fim ganham os alemães.”

Quando não ganha quem se espera,  o herói é vencido e com ele as ilusões que lhe havíamos confiado. Dentro e fora do campo, fisicamente ou moralmente. Como que atingido por uma  maldição aziaga, Fernando Pascoal das Neves, de alcunha Pavão,  caiu morto no Estádio das Antas ao minuto 13, num jogo da jornada 13, num dia chuvoso de Dezembro de 1973,  a três dias de cumprir 26 anos, duas vezes 13. Antes e depois dele outros heróis ficaram por cumprir, porque tombaram em plena competição. O primeiro de todos,  na nossa memória coletiva, foi talvez o maratonista Francisco Lázaro, há alguns anos evocado como personagem de um romance de José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos (2006). De todos podemos dizer como Fernando Pessoa, na morte de Mário de Sá-Carneiro: “Morre jovem o que os Deuses amam”.  Como quem diz: há heróis desportivos que se vão, talvez porque eram grandes de

Francisco Lázaro

Francisco Lázaro

mais para a sua precária condição de mortais. Conta-se que, na Roma antiga, durante o desfile da vitória, o general vencedor era acompanhado por um escravo que lhe murmurava ao ouvido, por entre as aclamações da multidão, palavras de prudente lembrança de uma condição humana que nenhum herói deve esquecer. Os deuses podiam ficar invejosos do excesso da glória. Outros excessos, por causa da fama atingida ou a atingir, derrubam moralmente heróis desportivos do nosso tempo, desavisados dos riscos  da ambição: os casos  de Lance Armstrong e de Oscar Pistorius (este com o sobrenome  inquietante de Blade Runner)  dispensam comentários, a não ser dizer que a derrota moral parece ainda mais penosa  do que a derrota desportiva. Esta, para todos os efeitos, faz parte das leis do jogo.

É  da queda do herói enquanto atleta cumpridor das leis do jogo que quero falar. Para o fazer, chamo à reflexão a personagem que se destaca na grande narrativa que é o jogo de futebol: o guarda-redes. Tal como o herói romântico, ele está solitário entre os postes e é diferente dos demais: equipa-se de modo distintivo e  segue regras próprias que às vezes transgride, por exemplo, quando vem à área adversária ou quando ousadamente finta o avançado  que o ameaça.  Na marcação do penalty, já se sabe: é a solidão total do condenado à execução. Nesse momento em que o tempo parece deter-se, trava-se um  duelo que de um dos lados tem sempre o mesmo protagonista, herói celebrado quando defende, anti-herói humilhado quando é batido. Foi um pouco disso que Peter Handke  transpôs metaforicamente para uma novela  intitulada A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty (1970), depois passada ao cinema por Wim Wenders; e foi certamente a pensar no  título de Handke que o antigo futebolista argentino Jorge Valdano escreveu sobre “O penalty sem angústias”, dizendo dele: é “um golo por acabar (e que pode acabar mal)”. Para o guarda-redes, antes de mais, para a equipa e para tudo o mais que aquele singular jogador carrega nos ombros, em segundos decisivos, sem apelo nem retorno.

Barbosa, final do Mundial de 1950

Barbosa, final do Mundial de 1950

Não foi preciso um penalty para que, numa tarde de julho, um guarda-redes passasse de herói a anti-herói em frações de segundo. Foi na final do Mundial de 1950, quando um pequeno país venceu a grande nação que fazia do futebol uma causa coletiva e um emblema de afirmação identitária. O Uruguai-David bateu o  Brasil-Golias, com um golo do avançado Alcides Ghiggia marcado ao guarda-redes Barbosa. Faltando dez minutos para as cinco da tarde e apenas onze para o jogo terminar, nascia no Maracanã, sob o olhar gelado de perto de 200 mil pessoas, um anti-herói, o guarda-redes, naturalmente; por causa dele e só por causa dele, desatava-se o pranto num país inteiro, que se tinha por vencedor antecipado. A culpa, carregada até ao fim da vida por aquele atleta negro nascido em Campinas, era irremissível. Não foi o defesa que falhou o desarme, não foi o médio que desajudou o defesa. Quem perdeu e para sempre, foi o guarda-redes, arrastando no seu fracasso todo um povo, mais as suas ilusões desfeitas e as suas alegrias frustradas.

Barbosa3

             (C. Reis, extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo”, II   Jornadas de Comunicação e Desporto; CEIS20/Universidade de Coimbra, 25.2.2013).

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A condição do herói

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo  (c. 1475)

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo (c. 1475)

A condição ficcional do herói, podendo achar-se vinculada a um tempo e a uma modelação estética específicos (é o caso da  novelística romântica), não é evidente em todas as épocas nem em todos os relatos. Na Antiguidade Clássica ou no renascimento, a feição do herói impõe aos homens comuns o respeito reverencial que é devido a figuras dotadas de exemplaridade religiosa, mitológica ou histórica, prévia a um seu eventual estatuto  de personagens literárias. Noutros termos: as narrativas épicas ou as canções de gesta, que exaltavam heróis no universo da guerra ou do proselitismo religioso, não eram  forçosamente entendidas como literatura, à luz dos princípios estéticos e dos protocolos institucionais vigentes no nosso tempo.

Isto quer dizer que a problemática do herói não é estritamente literária. Ela abre-se a reflexões de índole filosófica, ética, moral ou política  que se não restringem às práticas literárias e aos mundos imaginários em que transitam os heróis ficcionais; o que não impede que nos heróis ficcionais e literários, se projete uma axiologia do herói  provinda daquelas reflexões. Em 1637, o teólogo jesuíta  Baltasar Gracián publicou El Héroe, um conjunto de diretrizes  que deveriam reger a vida e as decisões dos governantes,  como referência moral dos homens que eles governam; e abria  com um conselho bem significativo: o herói deverá cultivar o engenho de “ostentarse al conocimiento, pero no a la comprehensión; cebar la expectación, pero nunca desengañarla del todo”. Diríamos hoje, como se falássemos de um herói desportivo: o  herói deve saber gerir a sua imagem. Muito tempo depois, em 1841, Thomas Carlyle publicava um conhecido ensaio de forte repercussão política, não isento de ambivalências ideológicas, com o título On Heroes, Hero-worship and the Heroic in History. Dizia Carlyle: “As I take it, Universal History, the history of what man has accomplished in this world, is at bottom the History of the Great Men who have worked here.” Foram esses Grandes Homens providenciais –  Maomé e Shakespeare, Lutero e Rousseau, Cromwell e Napoleão, outros ainda, nos domínios da religião, das letras ou da política – que se transformaram em modelos, no mundo em que viveu “a grande massa dos homens”. E pouco depois, entre 1883 e 1885, Nietzsche enunciou, pela palavra do filósofo imaginário Zaratustra, os princípios constitucionais e as máximas que moldavam o comportamento de um herói-super-homem ameaçado pela “gente miúda”: “Superai-me, ó homens superiores, as pequenas virtudes, as mesquinhas prudências, os escrúpulos ínfimos como grãos de areia, a agitação própria de formigas, o contentamento deplorável, a ‘felicidade da maioria’!”

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Não me alongo sobre esta que de certa forma, diria Camões, é uma “matéria perigosa”. Sabemos bem o que veio política e historicamente depois de Carlyle e de Nietzsche; e podemos até desconfiar  que dos seus conceitos de herói alguma coisa terá sido herdada,  pela via de interpretações oportunas e deformadas, por ditadores, por defensores da superioridade de uns sobre outros e por agentes  da intolerância  ideológica e da violência política.

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A personagem como herói

De que falamos, quando dizemos de uma personagem que é um herói? Alinho de seguida alguns tópicos de reflexão, para uma caracterização do herói.

Caspar David Friedrich,  O viajante sobre o mar de névoa (1818)

Caspar David Friedrich, O viajante sobre o mar de névoa (1818)

Primeiro: o herói é um componente estruturante de algumas narrativas, cuja enunciação se processa em função dessa figura em quem se centram os conflitos e sobre quem pendem ameaças que só ele vence. Acentuo esta dimensão narrativa do herói, nestes termos: sem narrativa não há herói. Aquilo que o legitima é um trajeto de sobre-humana vitalidade, contra obstáculos e forças hostis; desenrola-se esse trajeto num tempo potencialmente narrativizado que o herói atravessa, em movimento de busca e de afirmação do seu estatuto de herói, com maior intensidade e dramatismo quando esse estatuto se coloca sob o signo da transgressão de normas ou de estatutos sociais. Num ensaio célebre, György Lukács falou em herói problemático a propósito do protagonista de Le Rouge et le Noir de Stendhal; e notou que o que naquele romance se conta é a “história dessa alma que vai pelo mundo para aprender a conhecer-se, procura aventuras para nelas se testar e, por essa prova, atinge a sua medida e descobre a sua própria essência” (G. Lukács, La théorie du roman. Paris: Gonthier, 1970, p. 85).

Segundo: o herói não é atemporal nem a-histórico, pelo que não se manifesta do mesmo modo em todas as épocas. O herói da Antiguidade Clássica povoada por mitos ou aqueloutro herói modelado por ela no século XVI, confina com a condição divina e chega a ofender os deuses, quando quase os iguala: por isso, Baco ataca os novos heróis que, em navegação ousada, tendem a obscurecer o prestígio dos deuses (penso, evidentemente, do que se encontra no canto I, 30, d’Os Lusíadas: “O padre Baco ali não consentia/No que Júpiter disse, conhecendo/Que esquecerão seus feitos no Oriente/Se lá passar a Lusitana gente.”). Fernando Pessoa, já noutro tempo, expressou a incómoda vizinhança de deuses e heróis terrenos, com estas palavras enigmáticas: “Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.” http://arquivopessoa.net/textos/2968 ).

Baco por Caravaggio (c. 1595)

Baco por Caravaggio (c. 1595)

Terceiro: o herói não é uma qualquer personagem narrativa. Na palavra que o designa ressoa, de forma bem audível, “uma tonalidade própria que resulta do facto de o vocábulo herói provir do vocabulário religioso, cultural, antropológico, anterior à sua inclusão no da crítica literária” (L. Queféllec, “Personnage et héros”, in P. Glaudes e Y. Reuter (eds.), Personnage et histoire littéraire. Toulouse: Presse Univ. du Mirail, 1991, p. 242). Aquela tonalidade não se perde por completo, mesmo quando se dá a secularização do herói nas narrativas subsequentes à laicização das sociedades ocidentais, a partir do século XVIII. Exemplo expressivo: Leopold Bloom é um anti-herói banalizado pelo quotidiano burguês de Dublin, tal como o romance de Joyce o representou; do Ulisses homérico resta a memória desgastada de um heroísmo mítico, outrora roçando o poder dos deuses, poder que reconhecemos anacrónico, mas não perdido para sempre, quanto mais não seja como motivo de ironia nostálgica ou de revisão modernista.
Quarto: certos tempos históricos são especialmente propícios à heroização das personagens narrativas, por razões que têm que ver com as cosmovisões que as enquadram. O renascimento foi um desses tempos, potenciado por filosofias de vida, por ideais de beleza e por princípios de emancipação e de plenitude humana que levaram à redescoberta do homem como herói do seu tempo, viajante por espaços inexplorados e renovador do conhecimento de si e do mundo. Por sua vez, o romantismo associou o porte heróico à reivindicação do individualismo como atitude existencial, ato de rebeldia contra a “normalidade” burguesa ou busca de um absoluto que o comum dos mortais não entendia.

Leopold Bloom por Richard Hamilton (1983)

Leopold Bloom por Richard Hamilton (1983)

Quinto: o herói enquanto fulcro da narrativa interpela o leitor: “O herói provoca a compaixão, a simpatia, a alegria e a dor do leitor”, disse um dos formalistas russos, Boris Tomachevski, em 1925; e acrescentou: “A relação emocional decorre da construção estética da obra e só nas formas primitivas essa relação coincide obrigatoriamente com o código tradicional da moral e da vida social” (apud T. Todorov (ed.), Théorie de la littérature. Paris: Seuil, 1965, p. 295). A partir daqui, concluo: a fenomenologia do herói decorre da interação de certas atitudes recetivas (emoções, preconceitos, imagens adquiridas, molduras comportamentais) com os dispositivos retórico-narrativos que procedem à figuração do herói. Em última instância, a concretização do herói, no sentido fenomenológico da expressão, depende de atos cognitivos que investem na leitura do relato muito mais do que a letra do texto revela.
Carlos Reis

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