O Capuchinho Vermelho defende-se (2)

Chego ao caso de um Capuchinho Vermelho preparado para se defender, a partir de uma notícia recente, que aprofundei.

A história é conhecida. O Capuchinho Vermelho era “uma pequena muito doce” e apegada à avó.

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Um dia foi despachada para ir levar à dita avó, que andava adoentada, um bolo e uma garrafa de vinho (supõe-se que a avó não sofria do fígado). Eis senão quando, atravessa-se-lhe um lobo no caminho. A menina, ingénua como eram as meninas nesse tempo, diz-lhe ao que vai e o lobo malvado logo engendra um plano: comer neta e avó, pensando com os seus botões (metafóricos, é claro): “Mas que coisinha tenra”. Referia-se à neta e o juízo era puramente gastronómico. O resto já se sabe: o lobo distrai a menina, come a avó e a seguir engole o Capuchinho Vermelho. Para alegria de todos (menos do lobo), chega um caçador que esventra o lobo, resgata avó e neta e, com a ajuda da menina, enche a barriga do animal com pedras. Com o peso, o lobo cai e morre. A avó, é claro, bebe o vinho, come o bolo e melhora.

Resumo a história (e cito) tal como ela se encontra na recolha dos Irmãos Grimm, Contos da Infância e do Lar (edição Temas e Debates; tradução de Teresa Aica Barros, coordenação científica de Francisco Vaz da Silva). Pois bem, a história, afinal, não estava fechada, coisa que, de resto, não é estranha, em relatos da tradição popular: na recolha dos Irmãos Grimm, pode ler-se outra versão do Capuchinho Vermelho, substancialmente diferente daquela, menos quanto ao desenlace: o lobo também morre.

Ora estas personagens, que pareciam aprisionadas na sua configuração tão vetusta como estereotipada – a menina amorosa, mas distraída, a avó bondosa e adoentada, o lobo mau –, foram objeto de refiguração, por motivos bem prosaicos. Leio no site da NRA Family (NRA é a sigla da National Rifle Association, a poderosa organização norte-americana que defende e promove o uso de armas) que o conto do Capuchinho Vermelho foi reajustado e as suas personagens refiguradas.

Graças ao trabalho de uma prestável escritora, Amelia Hamilton (“a lifelong writer and patriot”, tal como se apresenta), o Capuchinho Vermelho tem uma arma de fogo e sabe usá-la. Quando o lobo lhe aparece pela frente, a simples vista da espingarda basta para que o bicho sossegue: “His wolfish smile disappeared for a moment when his eyes fell on her rifle”. Mas há mais: também a avó tem uma arma. Resultado: quando chega o caçador, o lobo foi metido na ordem e já está firmemente amarrado, para que ele o leve. Final: avó e neta “sat in companionable silence, happy in the security that comes with knowing they could defend themselves.”

A segurança de cidadãos armados, de avós e de netas antes indefesas está, então, justificada, de acordo com a moral da NRA e de Amelia Hamilton (uma história destas sempre tem uma moral). A pergunta que enquadra a nova versão anuncia, aliás, a conclusão moral: “Have you ever wondered what those same fairy tales might sound like if the hapless Red Riding Hoods, Hansels and Gretels had been taught about gun safety and how to use firearms?” Assim mesmo: o infeliz Capuchinho Vermelho e também Hänsel e Gretel (Joãozinho e Margarida, na versão portuguesa), pois que, na nova versão da benemérita escritora, também eles aprenderam a usar armas de fogo.

Tivesse algum escritor fornecido ao Cavaleiro da Triste Figura uma poderosa metralhadora M60, em vez de uma lança tão caquética como era o dono, e o combate com os moinhos de vento teria conhecido outro desenlace. Talvez ainda alguém vá a tempo.

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O Capuchinho Vermelho defende-se (1)

A fortuna das personagens e a sua capacidade de sobrevivência, transcendendo o mundo ficcional em que surgem, depende de muitos fatores e assume diversas feições. O romancista Camilo José Cela escreveu, a propósito do seu romance La familia de Pascual Duarte: “Lo que sucede es que el libro, después de nacer, sigue creciendo (…) y evolucionando: en la cabeza de su autor, en la imaginación o en el sentimiento de los lectores y, por descontado, en las páginas de sus ulteriores ediciones”.

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Este crescimento do livro (da história contada, entenda-se) atinge sobretudo a personagem, figura fugidia que não raras vezes escapa ao controlo do seu autor. Os testemunhos que o atestam são incontáveis. O que significa que o crescimento, a evolução e a refiguração da personagem – a sua sobrevida, em suma – constitui um desafio que inúmeros relatos enfrentam. O potencial de subversão da personagem revela uma dinâmica acentuada, quando a refiguração que a leva a cabo se dá em contextos, em suportes e por linguagens diferentes da literária. Por exemplo, na ilustração, na televisão, no cinema, na banda desenhada ou no videogame. A personagem é, então, ainda a mesma (porque somos capazes de a reconhecer), mas também já outra.

Estas possibilidades de crescimento levantam várias questões interessantes. Por exemplo: até que ponto o ficcionista pode controlar, caucionar ou interditar a reformulação por outrem de uma história que concebeu e relatou? E onde está (se é que existe) o limite para a refiguração da personagem? De que ordem são os condicionamentos do trabalho de quem retoma e refigura uma personagem de autoria alheia e respeitável? De ordem ética? De natureza estritamente artística? De caráter ideológico? Noutros termos: Blimunda continua a ser Blimunda, se uma ficção (literária, cinematográfica, etc.) lhe retirar a capacidade de ver o interior das pessoas? E o engenheiro Palma Bravo, d’O Delfim, é ainda a mesma personagem, se uma versão televisiva do romance fizer dele um marido modelar? Em ambos os casos, as personagens trazem consigo a marca forte dos ficcionistas que as engendraram. Sendo assim, existe aqui um potencial de conflitualidade, tendo a ver com a propriedade intelectual, conflitualidade que pode acabar num tribunal – agora que os duelos estão um tanto desatualizados…

Por fim (mas só por agora): como equacionamos estas questões, quando a personagem tem autoria desconhecida ou, por um outro ângulo, coletiva? Por exemplo: o Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira ou o Polegarzinho. Seguindo este caminho: é aceitável que um dos sete anões (qual? Inclino-me para o Tímido, no Brasil chamado Dengoso) tenha uma relação amorosa com a Branca de Neve? E como serão os filhos de ambos? Anõezinhos? Morenos? E o Capuchinho Vermelho será uma menina tão inofensiva como parece?

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

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Sobrevida da personagem em revista

A segunda edição de 2016 da revista Literatura em Debate contempla artigos que abordem o tema “sobrevidas da personagem”, ou seja, estudos que tenham como motivo o processo a que está submetida a personagem quando migra de um mundo ficcional para outro. Algumas personagens passam a viver em nossas vidas a partir da sua transposição da literatura ou da mitologia para o cinema ou para a televisão: quem não conhece bem Dom Quixote? Quem não conhece Hércules? A obra de Cervantes conta com cerca de 30 adaptações para o cinema. Hércules (re)vive na banda desenhada, bem como no cinema e em séries de televisão. Desfrutamos dos perigos e das aventuras, dos amores e desamores de “pessoas de livro” que, apesar de pertencerem ao plano da imaginação, passam a viver connosco. A influência que exercem sobre nós transcende o universo criativo, evidenciando que, de facto, são muito ténues os limites que separam a ficção da realidade.

Podemos, assim, dizer que as personagens podem prevalecer sobre as ficções e ter uma vida para além delas, ou seja, uma sobrevida. E podemos nessa sobrevida surpreender manifestações bem singulares, correspondendo àquele movimento que G. Genette (em Métalepse. De la figure à la fiction; 2004) deduziu da figura de retórica chamada metalepse, ou seja, a passagem de um nível (narrativo, semântico, ontológico, etc.) para outro nível. Inclui-se nessa dinâmica o trânsito de entidades entre o mundo ficcional e o mundo real, como se entre eles se não levantassem fronteiras.

Prazo de envio: 30 de setembro de 2016.

Organização:  Carlos Reis e  Ilse Maria Vivian.

Contacto: ilsevivian@uri.edu.br

Pedro Requejo Novoa

D. Quixote e Sancho, por Pedro Requejo Novoa

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Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

O Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa é o resultado extensivo do projeto “Figuras da Ficção”. Nesse contexto, o Dicionário é concebido como uma obra articulada sobre quatro linhas de desenvolvimento:

  • a personagem, enquanto categoria narrativa com reconhecido potencial semântico e diversificada elaboração, em várias épocas e géneros narrativos;
  • a literatura portuguesa, enquanto campo literário que corresponde ao que é usual designar como literatura nacional e determinando o fundamental do corpus de entradas;
  • a história literária, enquanto processo que envolve transformações que incidem sobre a categoria narrativa aqui em causa, designadamente (mas não só) no que toca ao devir de movimentos periodológicos;
  • os estudos narrativos, enquanto campo teórico alargado e interdisciplinarmente enriquecido por extensões que conduzem a narrativas não literárias e não verbais (cinema, jornalismo, televisão, banda desenhada, videogames, etc.), contempladas na medida em que ilustram a sobrevida da personagem literária noutros contextos e suportes, com destaque para a questão da transposição intermediática.

O Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa estará disponível online no segundo semestre do corrente ano, em regime de acesso aberto.

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Narrativa, Média e Cognição (2016)

Edição 2016 - Call for Papers (web)

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2 de Março de 2016 · 16:19

Menina e Moça

As palavras com que se enceta o prólogo da História de Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro – “Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube.” –, constituem um dos  mais famosos, repetidos e glosados inícios de texto de toda a literatura  portuguesa. Depois desse início e na abertura do primeiro capítulo, é a soidade que anuncia o tom da narrativa: “Neste monte mais alto de todos que eu vim buscar pela soidade diferente dos outros que nele achei, passava eu minha vida como soía (…)”.

A História de Menina e Moça ou mais simplesmente a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro ficou famosa na nossa história literária justamente porque, como aqueles inícios sugerem, a obra que agora se publica implantou nela dois temas com largo curso e presença expressiva no nosso imaginário cultural: a saudade e a viagem que a suscita. Junte-se a isto a subjetividade (e, pelo eixo temático que ela estabelece, a sentimentalidade) e entenderemos por que razão a Menina e Moça é uma obra firmemente estabelecida no nosso cânone. Isso não quer dizer que ela seja tão lida como é citada, o que a aproxima daquela noção de clássico que nos diz que há obras assim: tais obras são expressamente referidas muito mais do que efetivamente lidas. Ou então, de forma mais amena e como prefere Calvino, ela vem a ser um daqueles livros do qual se diz “Estou relendo…”, mas jamais “Estou lendo…” Como se esses livros sempre tivessem sido do nosso conhecimento íntimo, antes ainda de os termos lido.

(C. Reis, “Nota Prévia” [extrato]; Bernardim Ribeiro, História de Menina e Moça. Edição de texto, introdução, nota biobibliográfica, glossário, notas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015, pp. 7-8)

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A personagem torguiana

Conforme geralmente é reconhecido, a obra de Torga tem no conto um dos seus componentes mais destacados, talvez até aquele que por mais tempo há de sobreviver na memória da história literária: é a eles que têm sido consagrados numerosos ensaios (…). Ainda que de forma indireta, os temas, os cenários e as personagens dos contos torguianos (Pão Ázimo, 1931; A Terceira Voz, 1934; Contos da Montanha, 1941; Rua, 1942; Novos Contos da Montanha, 1944; Pedras Lavradas, 1951) têm muito da vivência pessoal que é o fulcro do (…) “espaço autobiográfico”: é sobretudo a terra transmontana que nos contos está representada, terra rude e simples, mas também carregada de energia vital e atravessada por valores, por virtudes e por fraquezas primordiais e por aquela genuína dimensão humana que as personagens protagonizam, quando conhecem a experiência da morte, as pulsões da sexualidade ou a renovação da natureza. É assim, mesmo quando as personagens têm a feição de animais, como em Bichos (1940), título em geral considerado marco cimeiro da contística torguiana; do ponto de vista técnico distingue-se essa contística por uma agilidade narrativa e por uma singeleza de processos que dizem bem da vocação torguiana para este difícil género, cuja presença difusa já foi rastreada mesmo nas páginas do Diário (…).

(C. Reis e A. Apolinário Lourenço, História Crítica da Literatura Portuguesa. O Modernismo. Lisboa: Verbo, 2015, pp. 370-371)

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