Workshop Figuras da Ficção [19 de maio de 2015]

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20 de Maio de 2015 · 22:45

A Cidade do Desassossego: trajetos e figurações

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De todas as figuras que, a espaços e quase sempre de forma fugidia, perpassam no Livro do Desassossego, aquela que maior nitidez apresenta é a do patrão Vasques, quase uma personagem do romance que Bernardo Soares não compõe. Essa nitidez não é tributo de subordinado (Vasques é o patrão); ela impõe-se-nos porque o olhar de Bernardo Soares percebe no chefe dimensões simbólicas que são o efeito de impressões gradualmente acumuladas.

Por três vezes (por três tentativas), inicia-se o que poderá vir a ser um retrato de personagem. Assim: “O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques”. No parágrafo seguinte: “O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então.” Só no terceiro parágrafo, superada a deriva digressiva dos dois parágrafos anteriores, o patrão Vasques ganha o recorte físico e psicológico que faz dele uma personagem em potência, com corpo, atitudes e emoções. Cito: “O patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo – estatura média, atarracado, grosseiro com limites e afeições, franco e astuto, brusco e afável – chefe, à parte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos músculos coloridos, o pescoço cheio mas não gordo, as faces coradas e ao mesmo tempo tensas, sob a barba escura sempre feita a horas.”

Repare-se: “Vejo de lá hoje [este é o futuro], como o vejo hoje de aqui mesmo”. Qualquer que seja o tempo a ser vivido, o que importa é isto: “vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico (…)”. Indo um pouco mais longe, digo que também Soares vê como um danado, modo de ser e de perceber o mundo que vem de Alberto Caeiro. Só que, para Caeiro, ver como um danado é um ato situado no aqui e no agora de um mundo rural, sem passado nem futuro e desinteressado de alcançar aquele significado metafísico que o poeta da inocência pagã abomina (recordo: “O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum.”)

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Colóquio “Narrativa, Média e Cognição”

Cartaz-Coloquio Narrativa Média e Cognição 2015-page-001Mais informação em http://artes.porto.ucp.pt/Coloquio-Narrativa-2015

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Personagem e figuração

O presente número da Revista de Estudos Literários do Centro de Literatura Portuguesa procede agora à publicação, em formato convencional, daquelas intervenções que mais diretamente correspondem ao espírito do projeto “Figuras da Ficção”. Com uma exceção, nele participaram já ou continuam a participar os autores dos textos que adiante podemos ler, distribuídos por três secções, a saber:

  • Em “Teoria, figuração, interpretação” encontram-se três das conferências apresentadas no colóquio “Figuras da Ficção 4”, tratando de questões de teoria, de análise interdisciplinar e transnarrativa, bem como de exegese renovada, à luz da problemática da figuração.
  • Em “Figuração literária: estudos de personagem” a questão da figuração (uma questão que é axial, tendo em vista as bases e os objetivos do projeto) orienta-se para a análise de casos específicos (em Garrett, em Eça de Queirós, em Lídia Jorge, em Lobo Antunes, em Mia Couto, no romance barroco, em Dulce Maria Cardoso, etc.).
  • Em “Figurações transmediáticas” são inseridos aqueles textos que, confirmando o potencial de diversificação dos estudos narrativos e dos estudos de personagem, abordam narrativas do chamado universo mediático, em que a figuração e a figura ficcional conhecem também um destaque apreciável: no discurso de imprensa, na banda desenhada, no cinema e no relato televisivo.

Para além das habituais resenhas críticas, este número 4 da Revista de Estudos Literários inclui uma secção, também habitual, de arquivo. Tal como em números anteriores, trata-se aqui de relembrar textos com significado (digamos) histórico para os estudos literários. Neste caso, recolhemos um conjunto de textos de Júlio Dinis, escritos em circunstâncias singulares (o escritor encontrava-se na ilha da Madeira, tentando debelar a enfermidade de que viria a morrer, muito jovem ainda). Não é só a personagem, tema central deste número, que está em equação no arquivo que adiante se encontra; o autor d’As Pupilas do Senhor Reitor   alarga-se a considerações que dizem respeito a outros aspetos da escrita do romance, dando testemunho de uma argúcia e de uma capacidade de enunciação doutrinária que talvez sejam desconhecidas de quantos rapidamente catalogam Júlio Dinis como escritor “fácil”.

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Figuração do herói romântico

imagesBUIK1WHIA personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras…Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.

A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.

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  (Livro do Desassossego de Bernardo Soares. Edição R. Zenith. 3ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 86-87)

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O romance como narrativa

O romance como género de prosa autónomo surgiu no período da modernidade. Desde o século XVIII ao fim do século XX, o romance tratou, ao mesmo tempo, de  se afirmar e de se distinguir de outros géneros narrativos:  da história, da biografia, das memórias e dos relatos de viagens ao cinema, à televisão e ao relato digital. 

Simpósio Narrative the Novel/the Novel as Narrative. Simpósio organizado pelo Centro de Estudos do Modernismo  na Austrália. 16 de maio de 2015.

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Personagem e jornalismo

mario_mesquitaO conceito de personagem, tradicionalmente discutido no quadro da análise literária dos textos ficcionais, pode servir também como útil ferramenta analítica, no contexto da escrita não-ficcional, tendo em atenção as narrativas historiográficas ou jornalísticas. A relevância de se introduzir a noção de personagem na análise crítica de textos jornalísticos é atualmente reforçada causa da crescente personalização tanto da vida política e social, como dos discursos mediáticos. Este artigo assenta em contributos do campo da teoria literárias e do estudo dos media,  mapeando as condições e as implicações da construção de personagens na prática jornalística.

(Mário Mesquita,  “The Character in Journalism: Reconciling Narratology and Ethics” [resumo], in Portuguese Literary & Cultural Studies, 21/22, 2012, pp. 329-49).

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