Figuração não-natural

Como sabemos a noção de personagem ficou relegada a segundo plano pela narratologia clássica. E também não encontrei, entre os estudos da unnatural narratology, uma abordagem direta a essa categoria. Então, vou ousar aqui pensar sobre algumas estratégias que funcionam para abalar a figuração da personagem nos seus moldes típicos. São muito comuns, na literatura contemporânea, personagens que transgridem limites físicos, antropomórficos, assumindo naturezas, poderes, percepções sobre-humanas; mas muitas delas ainda recebem uma conformação mais ou menos convencional. Isso é o que acontece, por exemplo, com a personagem Blimunda, do romance Memorial do Convento, de José Saramago, de conteúdo notavelmente insólito, mas com uma apresentação regular, franca e coerente.

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J. Santa-Bárbara, Nunca te olharei por dentro

Gostaria antes de pensar em formas que rompem com o modus operandi realista de fazer personagem e ainda nos surpreendem. Para concluir essa modesta reflexão, direciono o meu olhar para a maneira como António Lobo Antunes constrói suas personagens, por ser ele um dos autores da literatura portuguesa que, a meu ver, mais bem estaria entre os estudos da unnatural  narratology. Cito o romance Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009), exemplar da última fase de produção do autor que exige ainda mais uma reinvenção dos protocolos de leitura tradicionais. (…)

Bem longe do retrato, cuja caracterização direta delineava, mais ou menos pormenorizadamente, qualidades físicas, psicológicas e morais, as personagens de Lobo Antunes perdem a nitidez dos seus contornos, mostrando-se mais como vultos ou espectros humanos. Tais vultos se projetam através da própria voz da personagem (que oferece de si alguns difusos traços, significativos psicologicamente, mas bastante controversos ou paradoxais) e da voz de outras personagens, que por vezes sublinham, mas também desalinham ou apagam aqueles traços. As próprias personagens se contradizem (“exagerei as manchas da pele também, não estou assim tão doente”; ANTUNES, 2009, p. 246; “nas manchas não exagerei, são verdade”; ANTUNES, 2009, p. 246), impedindo a construção de um sentido unívoco. Assim, suas imagens se renovam continuamente aos olhos do leitor, como em uma espécie de caleidoscópio, nunca assumindo uma forma definitiva: “eu não uma, várias alterando-se a cada instante” (ANTUNES, 2009, p. 192).

Além disso, não há, por parte dos narradores-protagonistas, o distanciamento ou a racionalidade necessários para apresentar os acontecimentos significativos de uma vida ou de parte dela em uma relação de causa e consequência; ou melhor, de configurar uma intriga com início, meio e fim. A narração parece reproduzir imagens mentais na sua instabilidade e fluxo, deformadas por uma descarga de afetos desencontrados. Também não se estabelecem diálogos efetivos entre as personagens-narradoras, confrontos ou acusações diretas. Há, isto sim, intimidades estranhas que conversam “frases e frases no interior do silêncio” (ANTUNES, 2009, p. 181). Das múltiplas narrações, inferimos gestos e movimentos, aludidos, contudo, ainda como puras intenções ou já como restos de vivências passadas: “o que não chega a ser quase sendo e o que deixou de ser sendo ainda” (ANTUNES, 2009, p. 335). Com essa dissolução dos moldes tradicionais da intriga e com o estabelecimento de uma espécie de atemporalidade na narrativa, não é possível sustentar aquela relação lógico-causal entre certo comportamento e determinada forma de pensar e ser, perdendo força também a noção de transformação do caráter no tempo e a possibilidade de recuperar a vida da personagem como destino.

Ref. bibliográfica: ANTUNES, A. Lobo. Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?  5ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 2009.

(Raquel Trentin, “Unnatural Narratology, Unnatural Narrative: Contribuições para o Estudo do Insólito”, III Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional. Rio de Janeiro, UERJ, 15 a 19 de novembro de 2016; extrato).

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Figuração da baiana

Na introdução de Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom (Vanderbilt University Press),   Kathryn Bishop-Sánchez  escreve: “Este é um livro acerca da criação, da interpretação e da imitação da imagem de Carmen Miranda, tal como foi filtrada, primeiro pela sociedade brasileira dos anos 30, depois por Broadway e Hollywood, do fim dos anos 30 até meados dos anos 50 e também acerca da importância social, política e cultural deste ícone de Hollywood, que suscita interesse até aos nossos dias” (p.  2).

O livro Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom não é uma biografia, no sentido convencional do termo. O que aqui está em causa é a construção de uma personagem que emana de um trajeto de vida singular: do nascimento português (em Marco de Canavezes) ao estrelato em Hollywood, a imagem de Carmen Miranda foi sendo construída pela articulação de dispositivos que dela fizeram uma figura. Ou seja, uma espécie de persona, motivada e modelada pela retórica mediática do seu tempo: a rádio e o cinema, como contextos de representação do espetáculo musical e da performance coreográfica.  E também a televisão, ainda em afirmação nos anos 50 e dependendo em vários aspetos dos discursos daqueles media. Curiosamente, foi para um programa de televisão, o então famoso Jimmy Durante Show, que a artista filmou a sua última atuação, poucas horas antes de morrer.

Nos seis capítulos do livro de Kathryn Bishop-Sánchez (mais uma conclusão), podemos ler a análise minuciosa da figuração da baiana, como imagem de marca que confina e mesmo se conjuga com dois outros sentidos: o da raça (“Miranda and Afro-Brazilianness on the Carioca Stage of the 1930s”) e o do exótico. Foi sobretudo neste último que se apoiou a “exportação” de Miranda para o cenário mediático norte-americano, uma opção artística recebida com reticências  pela consciência crítica brasileira, que recusava o estereótipo da baiana e os  atavios da sua indumentária garrida.

O capítulo central do livro de Bishop-Sánchez é consagrado à chamada estética camp. Em geral, a performance de Carmen Miranda constitui um terreno fértil para uma reflexão  centrada naquilo que um ensaio clássico de Susan Sontag identificou como os procedimentos camp: a  hipertrofia, a ostentação, a teatralidade provocatória  e  a artificial deformação de comportamentos, em confronto com o equilíbrio do chamado gosto prevalecente. É nesse domínio que se situa a figuração de Carmen Miranda, ilustrada por documentos iconográficos muito expressivos. Em função dessa figuração, compreende-se a sobrevida de Carmen Miranda; nesse sentido, a sua figura permanece ativa, em derivas e em imitações que permitem falar não apenas na sua condição de ícone, mas também no legado que ela inspirou.

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Vertentes do Insólito Ficcional

O III Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional e o XV Painel Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional, com a temática central “A personagem nos mundos possíveis do insólito ficcional”, representa um dos pontos de interseção entre projetos de pesquisa que vêm sendo desenvolvidos no Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Universidade de Coimbra (UC), Portugal, e no Seminário Permanente de Estudos Literários da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (SePEL.UERJ), Brasil, no âmbito do acordo de cooperação interinstitucional firmado entre a UERJ e a UC. (…)

Dedicar esta 3ª edição do Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional e 15ª do Painel Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional à temática da personagem nos mundos possíveis do insólito ficcional é a maneira mais singela que se encontrou para manter e realçar, ainda que de forma ténue, os laços que existem entre os grupos do Brasil, sediado na UERJ, e de Portugal, sediado na UC. Espera-se, ainda, que isso seja o prenúncio da realização, no Brasil, mais propriamente na UERJ, do Colóquio Figuras da Ficção 5, já no próximo ano. Assim, o Congresso que ora se realiza, atando fios de uma rede internacional de pesquisa já em pleno desenvolvimento, propõe-se a conjugar duas linhas de reflexão: a que incide sobre o insólito, em suas manifestações ficcionais, teóricas, críticas e historiográficas, sediada no SePEL.UERJ, veículo de ações do Grupo de Pesquisa (Diretório CNPq) “Nós do Insólito: vertentes da ficção, da teoria e da critica”; e a que incide sobre a figuração, envolvendo as suas dimensões ficcionais, discursivas e cognitivas, localizada no CLP, no Grupo Teoria da Literatura, Projeto de Investigação “Figuras da Ficção”. No ponto de cruzamento dessas duas linhas, encontra-se a personagem, importante categoria estética, representada em práticas discursivas e artísticas transliterárias e transmidiáticas (literatura, teatro, cinema, artes plásticas, ciberlinguagens etc.).

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Personagem e videogames

Como passamos da narrativa do século XIX e das suas personagens para as mutações e para os desenvolvimentos que as tecnologias e os media digitais permitem? A resposta que tento dar a esta pergunta não tem o formato de um corte temporal e conceptual. Ou seja: ela não cancela uma certa tradição narrativa e de enunciação do relato; entende-a como precursora de experiências  que o digital tornou viáveis. Penso nos videogames, em particular nalgumas das suas tendências e géneros, e na narrativa em suporte digital e ambiente eletrónico.

No que respeita aos videogames, particularmente àqueles em que se manifesta um certo impulso narrativo, a sua associação à lógica do relato ficcional propriamente dito justifica-se em função de várias características comuns:  o avanço da história ou do jogo numa linha temporal, a incerteza do desfecho, o recurso a procedimentos de simulação com “suspensão voluntária da descrença” e ainda a representação de figuras – avatares ou personagens – que protagonizam ações e aparentam propriedades humanas.  A especificidade dos videogames define-se na seguinte verificação: “A única característica que   objetiva e absolutamente  define os videogames é a sua dependência do computador como suporte material”  (Marie-Laure Ryan,  Avatars of Story.  Minneapolis/London: Univ. of Minnesota Press, 2006, p.  181). A partir daqui,  Marie-Laure Ryan acrescenta: “Mas se há uma tendência geral que os distingue de outros jogos formais (desportos e jogos de tabuleiro, em  particular), é a sua preferência para organizar o jogo como uma manipulação de objetos concretos num cenário concreto – num mundo ficcional e não num mero campo de jogos”  (p. 182).

A figuração de personagens em videogames assume, neste contexto, um significado especial. Refiro-me àqueles jogos em que a personagem desempenha um papel importante: ela é, na linguagem dos videogames, um “playable character”, ou seja, uma figura cujas ações são  decididas pelo jogador e não pelas regras internas do jogo.  O  processo de identificação entre jogador e personagem próprio deste tipo de jogo ocorre num quadro de interatividade efetiva, que não  existe na leitura do romance convencional. Mas isso não distancia totalmente a relação do jogador com o “playable character” daquela outra e mais difusa interação que o romance provoca, quando um leitor ou uma leitora projetam nos seus comportamentos aquilo que leem ou julgam ler na personagem ficcional. A condição psicológica e cultural do que chamamos bovarismo, como efeito-personagem (expressão de Vincent Jouve) é um exemplo pertinente do que afirmo, mas certamente não o único.

Isto quer dizer que o universo narrativo dos videogames, tanto do lado da autoria como do lado da receção interativa, deve certamente alguma coisa a uma memória narrativa persistente, que não pode ser anulada. Pelo contrário: ela reflete-se na construção dos videogames narrativos e das suas personagens. Acredito  que nos trajetos e nos comportamentos que o jogador atribui às personagens e nos desfechos a que as conduz está prolongada a experiência narrativa de motivos, de estereótipos e de percursos humanos com ampla tradição na cultura ocidental e nos seus relatos. Outra coisa, que me levaria a valorações que neste momento não farei, seria confrontar a personagem literária e a sua sofisticada complexidade com o simplificado esquematismo do “playable character”. Em vez dessa valoração, prefiro sublinhar o seguinte: que certas personagens literárias – encontramo-las  em Garrett e em Machado de Assis –  prenunciam o que a tecnologia digital permite fazer com outras personagens, num contexto mediático que favorece uma interatividade sem limites.

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Letras de Hoje

Submissões abertas para a Revista Letras de Hoje (qualificação A1 da CAPES)

Tema: A personagem de ficção (v. 53, n.1, Abril/Junho 2017)

Organizadores: Carlos Reis (Universidade de Coimbra) e Luiz Antonio de Assis Brasil (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)

Sinopse: Partindo da afirmativa Character is plot, atribuída a Henry James, entende-se que todos os elementos da ficção narrativa promanam da personagem que, com seu poder de verossimilhança e força, é capaz de gerar conflitos, provocar tramas e, enfim – se bem construída – seduzir a atenção do leitor até o último capítulo. Trata-se de um tema que está longe de se esgotar, tanto nos estudos acadêmicos tout court quanto nas preocupações dos escritores, envolvidos na quotidiana “luta vã” de que fala Drummond. Essas considerações levam a Revista Letras de Hoje, da PUCRS, a dedicar uma edição a esse relevante tema, recebendo textos inéditos que contemplem uma das seguintes possibilidades: 1. Texto de reflexão (teórico-acadêmico) que diga respeito à personagem e 2. Texto criativo (conto ou capítulo de romance) em que a presença da personagem seja o elemento desencadeador do conflito.

Prazo para submissão de originais: 15 de dezembro de 2016

Previsão de publicação: Abril de 2017

Para submissão do seu texto, consulte

http://revistaseletronicas.pucrs.br/fale/ojs/index.php/fale/about/submissions#onlineSubmissions

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Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

Encontra-se já online a versão de lançamento do Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, no endereço http://dp.uc.pt/

Conforme está dito do texto de abertura do website respetivo, este é um projeto em desenvolvimento. Às 30 personagens que agora foram disponibilizadas seguir-se-ão outras, no ritmo de crescimento próprio de um trabalho desta natureza.

Está previsto que o Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa venha a atingir um número total de cerca de 200 personagens.

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Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa: apresentação

O Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa será apresentado no próximo dia 12, pelas 17 horas, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras de Coimbra.

O Dicionário resulta do projeto “Figuras da Ficção” e está  concebido como uma obra em desenvolvimento, articulada sobre quatro linhas estruturantes:

  • A personagem, como categoria narrativa com grande potencial semântico e diversificada elaboração, em várias épocas e géneros narrativos;
  • A literatura portuguesa, enquanto campo literário que corresponde ao que é usual designar como literatura nacional;
  • A história literária, entendida como processo que envolve transformações que incidem sobre a personagem;
  • Os estudos narrativos, como campo teórico enriquecido por extensões que conduzem a narrativas não literárias e não verbais (cinema, jornalismo, televisão, banda desenhada, videogames, etc.).

O Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa em versão eletrónica  será disponibilizado em website próprio, na sequência da apresentação.

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