Media Digitais e Textualidade

International Conference on Digital Media and Textuality

3rd to 5th November 2016, Universität Bremen, Germany

The use of computers as tools of literary and artistic creation has produced further paradigms within literary, language and media studies, but it has also promoted the resurfacing of a series of age-old debates. Digital media and digital technologies have extended the range of multimodal reading experiences, but they have also led us to readdress deep-rooted notions of text or medium. The dynamic network of media, art forms and genres seems to have been once again reconfigured.  However, practices and debates that have preceded the emergence of the computer medium have not been discarded. In fact, they have been incorporated into experiences with the medium and have contributed to shaping digital artifacts. The “International Conference on Digital Media and Textuality” aims to examine this process. This conference seeks to move beyond the “old and new” dispute and to help us identify intersections, exchanges, challenges, dead-ends and possibilities. In order to achieve this goal, the panels of this conference are designed to cover multiple topics and fields of research, from media archaeology to teaching in a digital age. This event will be sponsored by the Electronic Literature Organization (ELO, Massachusetts Institute of Technology, USA).  For further information, please visit the conference’s website at https://digmediatextuality.wordpress.com/ or contact the conference chair, Daniela Côrtes Maduro at cortesm@uni-bremen.de.

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Herói desportivo

CRDotado de conformação bem singular  é aquele outro  herói em quem dialeticamente logo pensamos, quando descrevi a singeleza infantil de Lionel Messi. Trata-se do “irmão desavindo” Cristiano Ronaldo. Digo-o nestes termos por saber que o motivo do irmão desavindo (…), como o motivo do rival inconciliável, são ambos tão antigos como os relatos fundacionais da civilização judaico-cristã e as narrativas identitárias da Antiguidade Clássica, matrizes de um imaginário de que se alimentam também as narrativas mediáticas do fenómeno desportivo. Caim e Abel, Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, num outro plano que é o da rivalidade dos heróis, David e Golias, Aquiles e Heitor, Artur e Lancelote não seriam heróis sem a conflitualidade às vezes fratricida que expressa a diferença e acentua a energia vital que caracteriza o comportamento heroico. Em tudo distinto de Messi, o herói Cristiano Ronaldo é filho da mesma mãe mediática, mas é moldado por uma figuração paraficcional própria. Expressa-se essa figuração na exuberante musculação e na gestualidade de guerreiro Matrix que se exibe na arena mediática. Antes disso, está uma proclamada e assumida metodologia do treino com requintes científicos, tudo  desembocando numa imagem cuja dimensão humana é quase residual.  Com o apoio de gráficos, de estatísticas e de iconografia computorizada, o herói está feito um robot, com designação de marca a condizer: CR7. Trata-se agora de uma espécie de organismo cibernético, cuja sofisticada agressividade se traduz em imagens verbais que os narradores do relato mediático já estereotiparam: Cristiano Ronaldo não marca livres; CR7 dispara mísseis tomahawk. No Brasil, ele perdeu por completo a condição humana: “é a fera”, dizem os comentadores.

Extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo“, in Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. Coimbra: Imprensa da Univ. de Coimbra, 2015.

 

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Estudos narrativos interdisciplinares

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Letras 53 – Estudos Literários – 2016/Segundo Semestre

Título: Estudos narrativos: Componentes interdisciplinares

Ementa: A proposta de Letras 53 supõe o aproveitamento da crescente revitalização interdisciplinar dos estudos narrativos. Referimo-nos a “estudos narrativos” ou mesmo “narratologias”, pois tais expressões indicam a pluralidade de abordagens de que se beneficia a narratologia desde os anos 1990, cuja amostra pode ser conferida em duas importantes coleções de ensaios: Narratologies, editada por David Herman (Columbus: Ohio  State University Press, 1999), e Narratologies Contemporaines, organizada por John Pier e Francis Berthelot (Paris: Éditions des Archives Contemporaines, 2010). Os termos, assim, já não designam apenas um subcampo da teoria literária estruturalista, mas a reemergência e transformação da análise narrativa por meio de uma ampla variedade de áreas de pesquisa – estudos cognitivos, linguísticos, culturais, fenomenológicos etc., que se alimentam daquela teoria e ao mesmo tempo rompem com seus limites, o que permite ainda estender os estudos narrativos a relatos transliterários, como os produzidos nas mídias digitais, no cinema, na televisão etc.  Portanto, este número temático da Revista Letras espera receber textos que promovam a ampliação e diversificação da concepção de narrativa, propondo novas formas de estudo para suas dinâmicas e efeitos.

Prazo de Submissão: 01 de agosto de 2016. Contacto: periodicoletras.ufsm@gmail.com

Organizadores: Raquel Trentin (UFSM) e Carlos Reis (Universidade de Coimbra).

 

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A personagem segundo Saramago

Das personagens de José Saramago, magistral inventor de ficções que ecoam no quotidiano palpável das nossas vidas, bem podemos dizer que são mestres do escritor e nossos mestres, sempre que nas suas ações, nos seus rostos e nas suas palavras reencontramos a sabedoria de homens e de mulheres legitimados pela autonomia e pela incondicional possibilidade que a ficção lhes confere; homens e mulheres chamados Baltasar e Blimunda, Ricardo Reis e Bartolomeu Lourenço, Raimundo Silva e José, Maria Sara e Oriana, Lídia e Maria de Magdala, Joana Carda e Cipriano Algor, o elefante Salomão e o seu cornaca, Tertuliano Máximo Afonso e António Claro, sua cópia exata e duplicada – ou vice-versa.   E mesmo quando o nome não está lá – como em Ensaio sobre a Cegueira e em Ensaio sobre a Lucidez – é a sua omissão, como falso anonimato, que alegoricamente projeta os homens e as mulheres da ficção sobre o mundo real em que revemos dramas e conflitos ficcionais identificados como nossos e porventura com os nossos nomes. Citando um título conhecido: identificados com Todos os Nomes que no nosso mundo se encontram; ou ainda, lembrando palavras do escritor, no discurso de Estocolmo: “Não escritos, todos os nossos nomes estão lá.”

J. Santa-Bárbara, Os fazedores do capricho

J. Santa-Bárbara, Os fazedores do capricho

São estas figuras e outras mais (sem esquecer um cão chamado Constante), com nome inscrito ou sem ele, que nos provocam (provocare: chamar para fora), ao mesmo tempo que nos propõem sentidos que os transcendem e que nos transcendem, sob o signo do poder subversivo da linguagem. É esse poder que José Saramago invoca, quando um minúsculo e redondo vocábulo – um simples nãosuscita a reconstrução histórica de um universo afinal fragilizado por esse poder subversivo; e é ainda em clave de subversão que o romancista enuncia a alegoria da fratura e da deriva, engenhosa indagação ficcional do destino ibérico; ou a metáfora do regresso e do reencontro com a pátria, sentidos camonianos mas também, à sua maneira, pessoanos; ou a figura do coletivo e do seu poder redentor, no termo de um processo histórico que conduz à libertação dos levantados do chão; ou a imagem da construção e a sugestão ascensional que a confirma, quando se ergue o convento que a vontade real idealizara, ao mesmo tempo que a passarola voa; ou a representação da cegueira coletiva em que se surpreende uma condição humana degradada na repulsiva violência do seu egoísmo. Isso tudo e também o árduo trajeto da existência humana, a dissolução da identidade, a contestação da ortodoxia religiosa, a celebração da rebeldia, a revisão da palavra bíblica, a questionação da culpa ou a denúncia da arbitrariedade divina.

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O Capuchinho Vermelho defende-se (2)

Chego ao caso de um Capuchinho Vermelho preparado para se defender, a partir de uma notícia recente, que aprofundei.

A história é conhecida. O Capuchinho Vermelho era “uma pequena muito doce” e apegada à avó.

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Por Jessie Wilcox Smith (1911)

Um dia foi despachada para ir levar à dita avó, que andava adoentada, um bolo e uma garrafa de vinho (supõe-se que a avó não sofria do fígado). Eis senão quando, atravessa-se-lhe um lobo no caminho. A menina, ingénua como eram as meninas nesse tempo, diz-lhe ao que vai e o lobo malvado logo engendra um plano: comer neta e avó, pensando com os seus botões (metafóricos, é claro): “Mas que coisinha tenra”. Referia-se à neta e o juízo era puramente gastronómico. O resto já se sabe: o lobo distrai a menina, come a avó e a seguir engole o Capuchinho Vermelho. Para alegria de todos (menos do lobo), chega um caçador que esventra o lobo, resgata avó e neta e, com a ajuda da menina, enche a barriga do animal com pedras. Com o peso, o lobo cai e morre. A avó, é claro, bebe o vinho, come o bolo e melhora.

Resumo a história (e cito) tal como ela se encontra na recolha dos Irmãos Grimm, Contos da Infância e do Lar (edição Temas e Debates; tradução de Teresa Aica Barros, coordenação científica de Francisco Vaz da Silva). Pois bem, a história, afinal, não estava fechada, coisa que, de resto, não é estranha, em relatos da tradição popular: na recolha dos Irmãos Grimm, pode ler-se outra versão do Capuchinho Vermelho, substancialmente diferente daquela, menos quanto ao desenlace: o lobo também morre.

Ora estas personagens, que pareciam aprisionadas na sua configuração tão vetusta como estereotipada – a menina amorosa, mas distraída, a avó bondosa e adoentada, o lobo mau –, foram objeto de refiguração, por motivos bem prosaicos. Leio no site da NRA Family (NRA é a sigla da National Rifle Association, a poderosa organização norte-americana que defende e promove o uso de armas) que o conto do Capuchinho Vermelho foi reajustado e as suas personagens refiguradas.

Graças ao trabalho de uma prestável escritora, Amelia Hamilton (“a lifelong writer and patriot”, tal como se apresenta), o Capuchinho Vermelho tem uma arma de fogo e sabe usá-la. Quando o lobo lhe aparece pela frente, a simples vista da espingarda basta para que o bicho sossegue: “His wolfish smile disappeared for a moment when his eyes fell on her rifle”. Mas há mais: também a avó tem uma arma. Resultado: quando chega o caçador, o lobo foi metido na ordem e já está firmemente amarrado, para que ele o leve. Final: avó e neta “sat in companionable silence, happy in the security that comes with knowing they could defend themselves.”

A segurança de cidadãos armados, de avós e de netas antes indefesas está, então, justificada, de acordo com a moral da NRA e de Amelia Hamilton (uma história destas sempre tem uma moral). A pergunta que enquadra a nova versão anuncia, aliás, a conclusão moral: “Have you ever wondered what those same fairy tales might sound like if the hapless Red Riding Hoods, Hansels and Gretels had been taught about gun safety and how to use firearms?” Assim mesmo: o infeliz Capuchinho Vermelho e também Hänsel e Gretel (Joãozinho e Margarida, na versão portuguesa), pois que, na nova versão da benemérita escritora, também eles aprenderam a usar armas de fogo.

Tivesse algum escritor fornecido ao Cavaleiro da Triste Figura uma poderosa metralhadora M60, em vez de uma lança tão caquética como era o dono, e o combate com os moinhos de vento teria conhecido outro desenlace. Talvez ainda alguém vá a tempo.

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O Capuchinho Vermelho defende-se (1)

A fortuna das personagens e a sua capacidade de sobrevivência, transcendendo o mundo ficcional em que surgem, depende de muitos fatores e assume diversas feições. O romancista Camilo José Cela escreveu, a propósito do seu romance La familia de Pascual Duarte: “Lo que sucede es que el libro, después de nacer, sigue creciendo (…) y evolucionando: en la cabeza de su autor, en la imaginación o en el sentimiento de los lectores y, por descontado, en las páginas de sus ulteriores ediciones”.

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Este crescimento do livro (da história contada, entenda-se) atinge sobretudo a personagem, figura fugidia que não raras vezes escapa ao controlo do seu autor. Os testemunhos que o atestam são incontáveis. O que significa que o crescimento, a evolução e a refiguração da personagem – a sua sobrevida, em suma – constitui um desafio que inúmeros relatos enfrentam. O potencial de subversão da personagem revela uma dinâmica acentuada, quando a refiguração que a leva a cabo se dá em contextos, em suportes e por linguagens diferentes da literária. Por exemplo, na ilustração, na televisão, no cinema, na banda desenhada ou no videogame. A personagem é, então, ainda a mesma (porque somos capazes de a reconhecer), mas também já outra.

Estas possibilidades de crescimento levantam várias questões interessantes. Por exemplo: até que ponto o ficcionista pode controlar, caucionar ou interditar a reformulação por outrem de uma história que concebeu e relatou? E onde está (se é que existe) o limite para a refiguração da personagem? De que ordem são os condicionamentos do trabalho de quem retoma e refigura uma personagem de autoria alheia e respeitável? De ordem ética? De natureza estritamente artística? De caráter ideológico? Noutros termos: Blimunda continua a ser Blimunda, se uma ficção (literária, cinematográfica, etc.) lhe retirar a capacidade de ver o interior das pessoas? E o engenheiro Palma Bravo, d’O Delfim, é ainda a mesma personagem, se uma versão televisiva do romance fizer dele um marido modelar? Em ambos os casos, as personagens trazem consigo a marca forte dos ficcionistas que as engendraram. Sendo assim, existe aqui um potencial de conflitualidade, tendo a ver com a propriedade intelectual, conflitualidade que pode acabar num tribunal – agora que os duelos estão um tanto desatualizados…

Por fim (mas só por agora): como equacionamos estas questões, quando a personagem tem autoria desconhecida ou, por um outro ângulo, coletiva? Por exemplo: o Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira ou o Polegarzinho. Seguindo este caminho: é aceitável que um dos sete anões (qual? Inclino-me para o Tímido, no Brasil chamado Dengoso) tenha uma relação amorosa com a Branca de Neve? E como serão os filhos de ambos? Anõezinhos? Morenos? E o Capuchinho Vermelho será uma menina tão inofensiva como parece?

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

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Sobrevida da personagem em revista

A segunda edição de 2016 da revista Literatura em Debate contempla artigos que abordem o tema “sobrevidas da personagem”, ou seja, estudos que tenham como motivo o processo a que está submetida a personagem quando migra de um mundo ficcional para outro. Algumas personagens passam a viver em nossas vidas a partir da sua transposição da literatura ou da mitologia para o cinema ou para a televisão: quem não conhece bem Dom Quixote? Quem não conhece Hércules? A obra de Cervantes conta com cerca de 30 adaptações para o cinema. Hércules (re)vive na banda desenhada, bem como no cinema e em séries de televisão. Desfrutamos dos perigos e das aventuras, dos amores e desamores de “pessoas de livro” que, apesar de pertencerem ao plano da imaginação, passam a viver connosco. A influência que exercem sobre nós transcende o universo criativo, evidenciando que, de facto, são muito ténues os limites que separam a ficção da realidade.

Podemos, assim, dizer que as personagens podem prevalecer sobre as ficções e ter uma vida para além delas, ou seja, uma sobrevida. E podemos nessa sobrevida surpreender manifestações bem singulares, correspondendo àquele movimento que G. Genette (em Métalepse. De la figure à la fiction; 2004) deduziu da figura de retórica chamada metalepse, ou seja, a passagem de um nível (narrativo, semântico, ontológico, etc.) para outro nível. Inclui-se nessa dinâmica o trânsito de entidades entre o mundo ficcional e o mundo real, como se entre eles se não levantassem fronteiras.

Prazo de envio: 30 de setembro de 2016.

Organização:  Carlos Reis e  Ilse Maria Vivian.

Contacto: ilsevivian@uri.edu.br

Pedro Requejo Novoa

D. Quixote e Sancho, por Pedro Requejo Novoa

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