Category Archives: Memorial do Convento

Memorial ou Ricardo Reis?

Convento de Mafra            A eventual retirada do romance Memorial do Convento, de José Saramago, do elenco de obras constantes do programa de Português do Ensino Secundário, é uma possibilidade que encaro sem dramatismo nem preocupação, no que respeita aos efeitos formativos daí decorrentes. Tratando-se de um dos grandes romances  de José Saramago e até de toda a literatura portuguesa,  Memorial do Convento apresenta, a meu ver, dificuldades de leitura que, para alunos daquele nível de ensino, podem ser contraproducentes; essas dificuldades não têm que ver com a questão (usualmente mal ponderada) da pontuação, mas sim com uma elaboração estilística que, sendo uma das “marcas de água” do Saramago daquele tempo literário, exige uma maturidade de leitura que o adolescente do Ensino Secundário provavelmente ainda não tem. Se a alternativa for, como está proposto, a leitura d’O Ano da Morte de Ricardo Reis ou da História do Cerco de Lisboa, penso que isso será benéfico, por várias razões. Trata-se de romances que, permitindo também um “diálogo” fecundo com a História (diálogo completado, no primeiro caso,  pela interação com o universo literário de Fernando Pessoa), apresentam uma língua literária a meu ver mais acessível, para o tipo de leitores que aqui está em causa, do que o Memorial do Convento. E são também – em especial O Ano da  Morte de Ricardo Reis – textos de uma qualidade literária inquestionável, bem representativos do engenho, do talento e do impulso inovador de um grande  escritor.

 (C. Reis, Jornal i, 10 de dezembro de 2013)

Ricardo Reis

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A pintura de José Santa-Bárbara (3)

Nunca te olharei por dentroVolto ao Memorial do Convento, às Vontades de José Santa-Bárbara e a figuras históricas que são reclamadas pelo escritor e, depois dele, pelo pintor. Com elas e a par delas, emergem outras figuras, congenitamente ficcionais estas últimas, necessárias porém para que se faça justiça, mais de dois séculos depois, ao que terá sido o seu trabalho de “fazedores do capricho”, ou seja, de construtores de um enorme convento que o rei D. João V, na sua frívola megalomania, mandou erigir.

Há um passo do Memorial do Convento em que metadiscursivamente (e bem de acordo com o ethos pós-modernista) o narrador se refere à necessidade de redizer o já dito, mas agora num registo que mostre o que antes ficou oculto; e isto  porque, segundo o escritor, a instância e o testemunho historiográficos (“não mais que o primeiro livro”) legaram também  “uma grande zona de obscuridade” que deve agora ser iluminada. É quando, depois de descrever o árduo trabalho de quantos desbastam a pedra, a transportam e a trabalham, o narrador declara: “São trabalhos já ditos, que mais facilmente se recapitulam por serem de força bruta, porém, é causa da sua reiteração não consentir que esqueçamos o que, por tão comum e de tão mínima arte, se costuma olhar sem mais consideração que distraidamente vermos os nossos próprios dedos escrevendo, assim de um modo e outro ficando oculto aquele que faz sob aquilo que é feito” (Memorial do Convento. Lisboa: Caminho, 1982, p.  239).

Tal como aqui e em prol de uma memória renovada, torna-se necessário, então, rever figuras históricas e fazer com que, no universo da ficção, elas coabitem com entidades ficcionais, de modo a que “aquilo que é feito” (o convento) não condene ao esquecimento “aquele que faz” (quem trabalhou, a mando do poder real consubstanciado em D. João V). Aquela coabitação configura, assim, o que John Woods, em  The Logic of Fiction, chamou modalidades mistas de existência. 

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

Bartolomeu de Gusmão, por Benedito Calixto (1902)

De acordo com aquele conceito, o rei D. João V e o músico Domenico Scarlatti são seguramente personalidades históricas, confirmadas como tais em testemunhos diversos; Baltasar  Sete-Sóis e Blimunda são entidades ficcionais, sem outra existência que não seja a que o mundo possível ficcional de um romance  consente, o que não quer dizer que delas se faça uma leitura indiferente a possíveis fontes em que elas (em especial a segunda) se baseiam; por sua vez, Bartolomeu Lourenço, assim denominado no romance, revela-se-nos numa situação singularmente ambivalente: com o nome que tem no Memorial do Convento, ele assume  uma condição ontológica que tendemos a entender como sendo similar à de Baltasar e de Blimunda, com quem, de resto ele convive e sobre quem detém um claro ascendente. Mas ao ser Bartolomeu Lourenço quem concebe uma passarola voadora de que existem notícias algo fantasiosas, permitimo-nos reconhecê-lo como personalidade historicamente convalidada: trata-se do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido no Brasil em 1685 e falecido em Espanha, em 1724. Que conste desde já o seguinte e para memória futura: o nome de batismo Bartolomeu foi completado com o patronímico Lourenço e só mais tarde com o sobrenome Gusmão; para além disso, existe um retrato de Bartolomeu de Gusmão, datado de 1902 e pintado no Brasil por Bernardo Calixto, retrato que obviamente não está suportado pela observação de visu.

C. Reis (a publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento. No cabeçalho deste blogue são reproduzidos pormenores de quadros de Vontades, por J. Santa-Bárbara).

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A pintura de José Santa-Bárbara (2)

Os passatempos d'El-Rei

Os passatempos d’El-Rei

No breve texto que escreveu para o catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento,  José Saramago sugere que a questionação empreendida por José Santa-Bárbara, pela via da pintura, prolonga o romance e aprofunda a indagação da História que nele pode ler-se. Destaco três ideias desse texto: uma, Santa-Bárbara não pinta a História, mas sim uma sua representação literária, ou seja, a ficção meta-historiográfica chamada Memorial do Convento; outra, o pintor “representou e sublinhou a figuração humana do Memorial do Convento”, quer dizer, valorizou nele o processo retórico-narrativo de construção de personagens; outra ainda, a pintura como re-figuração permitiu a Saramago superar aquela espécie de persistente inibição que o fez retardar por algum tempo a autorização para adaptações cinematográficas (para estas, não para as teatrais ou para as operáticas) do Memorial do Convento. “Não quero ver as caras das minhas personagens”, dizia Saramago; mas agora, vendo as telas de Santa-Bárbara, “sei, finalmente, como era Blimunda” (p. 11). O que quer dizer que a pintura deu à personagem o rosto que o romance mal havia esboçado.

Curiosamente, é um outro escritor, Orlando da Costa, quem, igualmente num texto do catálogo, nota: “Neste conjunto de quadros impõe-se sobretudo a figuração, como uma ordem a que o pintor obedece com um sentido de liberdade instrumental de criatividade interpretativa, figurantes sem voz, personagens  carregadas de silêncio e vontades, vontades, mesmo em trabalhos forçados” (p.  24). O termo figuração está dito e tem um alcance teórico e metodológico que hoje tratamos de acentuar, no que toca ao seu significado conceptual; no caso de Santa-Bárbara, o movimento de figuração confirma a relevância das personagens como imagens disponíveis para uma releitura cuja dimensão fenomenológica é salientada num outro texto do catálogo, do também pintor Rogério

José Santa-Bárbara

José Santa-Bárbara

Ribeiro. Diz Ribeiro: os quadros de Santa-Bárbara são uma “construção paralela, um outro tecido, associando o desígnio de dar forma, onde cada um já pôde construir as inevitáveis imagens mesmo que as não represente”; e assim, se o pintor pôde propor um “certo rosto das personagens” (p.  31), não é essa proposta outra coisa a não ser o resultado de uma leitura da História e de algumas das suas personagens agora refiguradas, desde logo em confronto com as imagens que a leitura de cada leitor tratou de constituir. Melhor: trata-se de uma leitura da leitura da História, pois que ela se centra num romance que só o foi a partir da pesquisa meta-histórica que o escritor José Saramago levou a cabo, para proceder à figuração ficcional de D. João V.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento. No cabeçalho deste blogue: pormenores de quadros da exposição Vontades).

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A pintura de José Santa-Bárbara

Catálogo VontadesA 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.

O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Baltasar Mateus

Baltasar Mateus

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…” Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades).

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