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Figuras moventes

Enquanto leitor e, depois disso, escritor, José Saramago conheceu e re-conheceu Ricardo Reis, poeta e, mais tarde, sua personagem, em termos que devo lembrar. Esclareço: nos primórdios da sua aprendizagem literária, o jovem José Saramago tomou como efetivamente existente a figura de Reis:  “Quando eu me inicio no Pessoa, é por volta dos dezoito, dezanove anos, à volta disso. Já contei essa “anedota”, que é a descoberta do Ricardo Reis, com a ideia de que havia realmente um senhor chamado Ricardo Reis, que tinha escrito aquelas odes, sem que eu naquele momento soubesse que o Ricardo Reis era apenas (este apenas não é redutor…) um heterónimo do Fernando Pessoa.”(em Diálogos com José Saramago, I).

Bem mais tarde, o romancista adulto e, já então, leitor informado faz migrar para o seu romance uma figura que, sendo, de facto, ficcional pode ser tomada, conforme se viu, como real.  Em todo o caso, a refiguração saramaguiana de Ricardo Reis não pode deixar de ter presente a “biografia” do heterónimo, tal como Pessoa a elaborou e, para além disso, a sua marcante presença no universo poético da literatura portuguesa do século XX. Em paralelo e em complemento do movimento de migração de Ricardo Reis para a ficção, o próprio Fernando Pessoa entra na história do romance como personagem: os diálogos que ele mantém com o heterónimo também personagem transportam para o universo ficcional d’Ano da Morte de Ricardo Reis o mais amplo diálogo poetodramático que o ortónimo manteve com as figuras heteronímicas a que deu voz autónoma.

Diferente desta (mas não totalmente) é a situação das duas personagens femininas que, no romance, se relacionam com Ricardo Reis, Lídia e Marcenda. Da segunda falei já, de passagem: segundo Saramago, ela baseia-se numa pessoa que foi efetivamente vista pelo romancista. Isso não prejudica, contudo, a sua condição ontológica: trata-se de uma entidade nativa da ficção, até porque o facto de um ficcionista basear, remotamente, uma personagem numa pessoa é trivial e não faz dessa pessoa uma figura migrante.

Relativamente a Lídia, a situação é diferente. Se o nome Marcenda é motivado etimologicamente (do verbo marcere, “murchar”; note-se que a personagem tem um braço paralisado), o nome Lídia é-o de outro modo: inevitavelmente, ela lembra, por essa denominação, uma das musas inspiradoras da poesia de Ricardo Reis; contudo, no romance, a personagem nada tem de musa literária. Apresentada como “uma mulher feita e bem feita, morena portuguesa, mais para o baixo que para o alto” (p. 95), Lídia é o contrário da frágil Marcenda e também da figura idealizada que a poesia de Ricardo Reis consagrou. Cabe-lhe tratar da vida doméstica de Ricardo Reis; a sua relação com ele é física e prosaica e os seus encontros amorosos são intensamente eróticos.  Por fim, é através de Lídia que o poeta e médico regressado conhece uma parte importante do mundo concreto e social da Lisboa que reencontra.

Em síntese: como figura movente, a amante de Ricardo Reis vem da sua poesia, mas afasta-se dela, pela via da subversão (quase) paródica; ela lembra, pelo nome, a musa de Reis (o que é acentuado pela poesia inscrita na ficção), mas afirma-se como mulher ativa e amante carnal; pode ser lida como personagem migrante em regime transficcional, mas põe em causa essa condição, porque se impõe como figura autónoma, com personalidade própria e bem vincada.

“Figuras moventes: José Saramago e a personagem como refiguração” (extrato). A apresentar no colóquuio “Per una nuova antropologia del personaggio letterario”; Pisa, 29 a 31 de maio.

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