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A condição do herói

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo  (c. 1475)

Hércules e a Hidra, por A. Pollaiuolo (c. 1475)

A condição ficcional do herói, podendo achar-se vinculada a um tempo e a uma modelação estética específicos (é o caso da  novelística romântica), não é evidente em todas as épocas nem em todos os relatos. Na Antiguidade Clássica ou no renascimento, a feição do herói impõe aos homens comuns o respeito reverencial que é devido a figuras dotadas de exemplaridade religiosa, mitológica ou histórica, prévia a um seu eventual estatuto  de personagens literárias. Noutros termos: as narrativas épicas ou as canções de gesta, que exaltavam heróis no universo da guerra ou do proselitismo religioso, não eram  forçosamente entendidas como literatura, à luz dos princípios estéticos e dos protocolos institucionais vigentes no nosso tempo.

Isto quer dizer que a problemática do herói não é estritamente literária. Ela abre-se a reflexões de índole filosófica, ética, moral ou política  que se não restringem às práticas literárias e aos mundos imaginários em que transitam os heróis ficcionais; o que não impede que nos heróis ficcionais e literários, se projete uma axiologia do herói  provinda daquelas reflexões. Em 1637, o teólogo jesuíta  Baltasar Gracián publicou El Héroe, um conjunto de diretrizes  que deveriam reger a vida e as decisões dos governantes,  como referência moral dos homens que eles governam; e abria  com um conselho bem significativo: o herói deverá cultivar o engenho de “ostentarse al conocimiento, pero no a la comprehensión; cebar la expectación, pero nunca desengañarla del todo”. Diríamos hoje, como se falássemos de um herói desportivo: o  herói deve saber gerir a sua imagem. Muito tempo depois, em 1841, Thomas Carlyle publicava um conhecido ensaio de forte repercussão política, não isento de ambivalências ideológicas, com o título On Heroes, Hero-worship and the Heroic in History. Dizia Carlyle: “As I take it, Universal History, the history of what man has accomplished in this world, is at bottom the History of the Great Men who have worked here.” Foram esses Grandes Homens providenciais –  Maomé e Shakespeare, Lutero e Rousseau, Cromwell e Napoleão, outros ainda, nos domínios da religião, das letras ou da política – que se transformaram em modelos, no mundo em que viveu “a grande massa dos homens”. E pouco depois, entre 1883 e 1885, Nietzsche enunciou, pela palavra do filósofo imaginário Zaratustra, os princípios constitucionais e as máximas que moldavam o comportamento de um herói-super-homem ameaçado pela “gente miúda”: “Superai-me, ó homens superiores, as pequenas virtudes, as mesquinhas prudências, os escrúpulos ínfimos como grãos de areia, a agitação própria de formigas, o contentamento deplorável, a ‘felicidade da maioria’!”

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Morte de Rolando (ilum. de Jean Fouquet)

Não me alongo sobre esta que de certa forma, diria Camões, é uma “matéria perigosa”. Sabemos bem o que veio política e historicamente depois de Carlyle e de Nietzsche; e podemos até desconfiar  que dos seus conceitos de herói alguma coisa terá sido herdada,  pela via de interpretações oportunas e deformadas, por ditadores, por defensores da superioridade de uns sobre outros e por agentes  da intolerância  ideológica e da violência política.

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