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Romance gráfico

A expressão romance gráfico refere-se a um género narrativo e também, de forma mais lata, a um campo de produção narrativa associado à banda desenhada, tanto do ponto de vista dos dispositivos formais a que recorre, como em termos de tradição cultural e de origem histórica. Numa aceção restritiva, o romance gráfico pode ser definido como uma narrativa multimodal que conjuga a imagem gráfica com o texto verbal, enunciando um relato de extensão alargada em que se conta uma história de ação fechada e temática relativamente complexa. (…).

Do ponto de vista semionarrativo, o romance gráfico obedece, grosso modo, à lógica discursiva da banda desenhada. Ressalva-se a singularidade estilística que certas histórias apresentam, em especial quando centradas em personagens cultural e psicologicamente marcadas (p. ex., Corto Maltese, de Hugo Pratt) ou quando descrevem espaços emocionalmente carregados e violentos, como se vê em Maus (1991), de Art Spiegelman, ou na serialização Sin City, de Frank Miller (1991-1992; adaptação ao cinema em 2005, com realização de Robert Rodriguez, Frank Miller e Quentin Tarantino; continuação em Sin City: A Dame To Kill For, de 2014, pelos dois primeiros).

Nos aspetos destacados, são evidenciadas duas categorias da narrativa que o romance gráfico valoriza: o espaço e a personagem. Nesse sentido, ele constitui um desafio importante para os estudos narrativos, na medida em que estes superaram tendências da chamada narratologia clássica e recuperaram a pertinência semântica das referidas categorias. Os procedimentos de representação espacial e de caracterização privilegiados pelo romance gráfico, bem como a diversificação temática induzida pela complexidade da personagem (superando os estereótipos do super-herói da banda desenhada) abrem linhas de análise muito fecundas. Assim, “o romance gráfico (…) obriga-nos de novo, saudavelmente, a assentar os pés na terra, confrontando-nos com personagens (que são mais do que elementos narrativos) que vemos perante os nossos olhos (…). A esmagadora presença dos corpos dos protagonistas é outro signo dos tempos a que o romance gráfico está atento, no contributo que dá ao pensamento contemporâneo” (J. Baetens e H. Frey, The Graphic Novel. An Introduction. New York: Cambridge Univ. Press, 2015, p. 175).

A crescente difusão e a sofisticação do romance gráfico favorecem a sua autonomização, relativamente à banda desenhada propriamente dita, o que é notório, antes de mais, no plano do conteúdo: as personagens, as situações que vivem, os espaços em que se movem, etc. Junta-se a isso a já referida diversificação temática, sem prejuízo de se reconhecer o destaque atribuído por certos autores à pulsão autobiográfica. Do mesmo modo, no romance gráfico o desenho afirma-se como algo mais do que uma técnica e, na sua materialidade, obriga a redefinir a categoria do narrador, bem como a superar a dicotomia entre narrar e descrever acolhida pela narratologia: “no romance gráfico – e o destaque da caracterização e do espaço já o sugeriram – ambos os aspetos coincidem: não é possível narrar sem descrever e, inversamente, todas as descrições serão decifradas de imediato em relação ao seu contributo para a história” (J. Baetens e H. Frey, The Graphic Novel, p. 175).

(Extrato de “Romance gráfico”, in Dicionário de Estudos Narrativos; a publicar)

Maus, de Art Spiegelman

 

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