Maria Adelaide

Publicado em 1938 por Manuel Teixeira Gomes, o romance conta-nos a história de mancebia entre o fidalgo Ramiro d’Arge e a pobre camponesa Maria Adelaide, que dá o título à narrativa. Ainda que Ramiro surja como narrador autodiegético, contando, num tempo posterior, os acontecimentos ocorridos no passado, é Maria Adelaide quem, de facto, ocupa um lugar destacado ao longo da história.

Maria Adelaide é filha de pais camponeses e pobres, levando uma vida de sofrimento e de sacrifício para poder sustentar a sua família. Aos 16 anos, Ramiro d’Arge apaixona-se pela pobre camponesa, começando, assim, a sua história de amor e o seu percurso de conhecimento interior da personagem feminina. A distância temporal que separa os eventos da narração acaba por ser fundamental para a caracterização de Maria Adelaide, uma vez que o “sujeito que no presente recorda já não é o mesmo que viveu os factos relatados” (Reis 2018: 294), decorrendo daí outras distâncias de teor moral, afetivo e psicológico.

A personagem “andara na escola mas nem as letras do alfabeto conhecia” (Gomes, 1992: 29), tendo passado fome e diversos sofrimentos, “pancadas da mãe” (31) e da mestra da escola. Gostava muito do pai, mas, ao mesmo tempo que lhe queria bem, também “lhe desejava a morte” (23), o que revela, desde logo, um comportamento ambivalente e incerto, uma vez que a família aceita de forma indiferente a sua mancebia com Ramiro. A partir do momento em que o amante lhe aluga uma casa, toda a sua compleição se altera. Maria Adelaide torna-se mais incisiva na apreciação de quem lhe demonstrava pouca estima. De novo, o narrador realça o caráter supersticioso da personagem, assim como as suas constantes alterações de humor, que tinham efeitos físicos: “A carne amolecia-lhe logo e parecia desfazer-se; quase que lhe apareciam os ossos esbrugados a rés da pele” (35), pertencendo a personagem “a esse género de criaturas impressionáveis, a quem as feições se transtornam ao mais pequeno desgosto e só uma grande alegria consegue restituir os encantos primitivos” (86).

(José Vieira, “Maria Adelaide”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

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