Confinada no quarto de pensão que, por força da banalização, “deixou pouco a pouco de ser horrível” (16), essa “velha de trinta e seis anos” (37) re-sente os fatos e emoções de sua existência trágica: a perda precoce da mãe; a consciência da solidão, compartilhada com o pai e dele recebida como herança; a inaceitação dos sogros, por ser ela “uma simples datilógrafa sem dinheiro e sem relações, que nem mesmo fosse bonita, nem bem feita, nem brilhante” (13); o abandono pelo marido, António, que se apaixona por uma escultora significativamente denominada Estrela, considerada, ela sim, como “atraente, bonita, uma mulher completa” (58); o desamparo em que se vê quando Luís Gonzaga, a quem se agarrou “com força, quase com desespero” (37) após o divórcio, cede à imposição familiar do sacerdócio, deixando-a grávida; a demissão do emprego de datilógrafa quando essa gravidez solteira se evidencia; a morte do tão desejado filho Fernandinho “e de todos os irmãos que poderia vir a ter” (48) quando, distraída ao projetar a figura da rival em uma passante, é atropelada; o desespero ao saber que essa mesma rival e o ex-marido têm um filho a quem chamam exatamente Fernando — nome do pai de Mariana, que ela sonhara atribuir ao filho desejado; a convivência com o fantasma da morte, tão onipresente quanto esses todos que lhe habitam a lembrança; a confirmação de que ela chega em breve.
(Eliane Fittipaldi Pereira, “Mariana Toledo”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler).