A narrativa do mundo

No texto fundador da civilização que conhecemos como judaico-cristã, o universo criado por Deus e o próprio processo da criação ganham sentido, coerência e lógica por serem apresentados em forma de relato. Por outro lado, é a formulação narrativa que incute consistência a esse universo que tem um início, um desenvolvimento em seis episódios, uma sucessão temporal, uma progressão de estados em mudança e o surgimento de componentes que vão preenchendo e povoando aquele universo: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” ( Génesis, 1: 1 ); depois, distinguiu o Dia da Noite; nos dias seguintes criou os Céus, os Mares e a Terra, as ervas e as árvores, e os animais de várias espécies. Por fim, aparece um protagonista logo cindido em dois: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Génesis, 1: 27).

      Miguel Ângelo, A criação de Adão

O que se segue a isto confirma a matriz narrativa que rege a representação da génese do mundo e dos seres que o habitam, incluindo a transgressão do interdito e a conflitualidade entre as figuras que povoam a história contada: a tentação de Eva, o pecado original, a expulsão do Éden, o nascimento de Caim, Abel e Seth e o primeiro homicídio. A premência e a tensão interna da narrativa e do seu movimento fizeram destes episódios verdadeiros capítulos interligados de uma história mais longa. E assim, se no Evangelho segundo João se diz que “no princípio era o verbo” (Bíblia, 2016: 319), então esse verbo (logos) e a modelação narrativa que ele consente vêm a ser o oposto do caos desordenado;  para o cancelar, fez-se a luz (Génesis, 1: 3) e enunciou-se a narrativa.

Deduz-se da dinâmica do relato uma estrutura representacional que  determina a nossa relação com o mundo em geral e com o mundo das narrativas em particular. Em muitas delas reencontramos  o paradigma daquela experiência primeira e dos  procedimentos cognitivos por ela instaurados, desde que uma personagem chamada Homem emergiu do gesto criador de Deus. E não só isso: quando vemos representações não verbais dos episódios genesíacos, somos inevitavelmente conduzidos à narrativa primeira em que eles se inspiram, ou seja, a abertura do Antigo Testamento, que tenho citado. Se não for assim, não chegaremos ao entendimento do mundo em que nos encontramos, sendo certo que esse entendimento é intrínseca e virtualmente narrativo.

Para ilustrar o que fica dito, avanço dois exemplos. Primeiro: na imagem d’A criação de Adão pintada por Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina, não observamos apenas as formas e os gestos estabilizados das figuras pintadas pelo genial artista; está nelas tacitamente inscrito um passo do Génesis, como presença  que não pode ser ignorada. O mesmo se diga de uma outra imagem que, em segunda instância, convida ao mesmo movimento evocativo e à mesma silenciosa alusão narrativa: na imagem conhecida de E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg,  o contacto do dedo da criança como o do extraterrestre remete, obviamente, para Miguel Ângelo, mas também deste para a Bíblia, lá no princípio de tudo. Se prestarmos atenção, em ambos os casos “ouvimos” a narração que já citei: “E criou Deus o homem à sua imagem”. Segundo exemplo: a violência fratricida exercida por Caim sobre Abel continua a ecoar, como narrativa primordial, em incontáveis representações pictóricas (por Rubens, por  Bartolomeu Manfredi, por Lorenzo de Ferrari, por Tintoretto, por James Tissot, etc.); nelas e também num motivo muitas vezes glosado, o dos irmãos inimigos, com outros nomes e noutras condições, mas em situações correspondentes: Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, Artur e Lancelote. É deste motivo ancestral que provêm Pedro e Paulo, personagens de Machado de Assis, num romance com título inequívoco, Esaú e Jacó;  um pouco mais de cem anos depois, em Caim,  José Saramago revisitou, em registo pós-modernista, o mesmo motivo e o episódio narrativo que continua a ecoar no nosso imaginário: “E sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra seu irmão Abel, e o matou” (Génesis, 4: 8).

(Conferência “A narrativa do mundo ou o mundo como narrativa”; Madison, Universidade de Wisconsin-Madison, 5 de março de 2019).

 

 

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1 Comentário

Filed under Narrativa

One response to “A narrativa do mundo

  1. Podemos ler mais?… Apreciaria muito!…

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