Figuras da Ficção

Alberto Soares, por Vergílio Ferreira

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Filme Aparição (2018), real. de Fernando Vendrell

Alberto Soares é protagonista de um dos romances mais consagrados de Vergílio Ferreira, Aparição, publicado pela primeira vez em 1959. Alberto apresenta-se desdobrado em dois tempos principais: o tempo da recordação, da narração e da escrita, e o tempo da vivência da história.  No entanto, em sintonia com a sua própria crença de que “o tempo não existe senão no instante que sou”  (Ferreira, 1971[1959]: 190), o narrador relembra o passado, bem como antecipa certos eventos da história, conforme lhe aparecem no presente. Assim também deixa o instante da narração evidenciar-se em meio aos acontecimentos antigos (aliás, tal instante ganha espaços exclusivos no texto e destaques em itálico, numa espécie de exórdio e de peroração à narrativa). Só com a esposa, na velha casa da aldeia da Beira, já deserta dos pais, é na história vivida em Évora anos antes, que o narrador-protagonista tenta “descobrir a face última das coisas e ler aí” a sua “verdade perfeita” (9).

Como quem (res)sente nas vísceras a “branca cidade ermida” de Évora e o que ali se passou, desde a sua chegada à estação e a instalação na pensão do Senhor Machado até sua partida, o protagonista nos dá a conhecer cerca de um ano de sua vida.  Escritor e professor de Letras, Alberto Soares vai a Évora para lecionar. Seu anfitrião na cidade é um velho conhecido do pai, Dr. Moura, que abre sua casa para receber o filho do amigo. A narração persegue, então, a linha dos acontecimentos resultantes das suas relações com a família Moura, com suas filhas Cristina, Ana e Sofia, com Alfredo Cerqueira, marido de Ana, e com mais dois amigos da casa, Chico e Carolino. Entre diálogos, deambulações e contemplações da paisagem, ganham evidência alguns episódios de força mais dramática, como o suicídio de Bailote, um paciente de Moura, e a morte acidental de Cristina, os (des)encontros amorosos com Sofia, a briga com Carolino e o assassinato, por este, de Sofia. Alberto também atenta em duas visitas à casa da sua família ainda no mesmo ano, em certos antecedentes da história, como a morte do seu cão Mondego na infância e o falecimento do pai, dias antes de mudar-se para Évora, também em alguns eventos subsequentes, como o julgamento de Carolino pelo assassinato de Sofia, a mudança para Faro e o retorno, enfim, à casa paterna.

(Raquel Trentin, “Alberto Soares”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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