Figuras da Ficção

Zé Metade, personagem de Mário de Carvalho

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Personagem com grande relevância na ação de Casos do Beco das Sardinheiras, Zé Metade participa dos mais diversos eventos nos casos relatados, podendo ser considerada um dos tipos sociais mais relevantes dos casos. Para isso contribuem os procedimentos da sua inserção na história dos Casos do Beco das Sardinheiras, os tempos do “em uma ocasião”, que remetem ao “sinal textual de ficcionalidade mais óbvio”, o “era uma vez” (Eco, 2004: 126), e as relações que mantém com outras personagens, desde suas críticas aos outros moradores até às suas atitudes heroicas.

Zé Metade se destaca em diversos planos: pertence ao limitado número de personagens com caráter testemunhal, percebendo as modificações no beco, como acusador ou solucionador; aparece como o cavaleiro ou herói, capaz do autossacrifício para ajudar alguns moradores do beco; caracteriza-se, diversamente de outras personagens, também pela capacidade musical e hábito alimentar; participa das decisões a serem tomadas no e para o beco das sardinheiras.

As diferentes circunstâncias narrativas sobrepõem-se e intercalam-se; seu conjunto forma histórias que se desenrolam ao longo dos casos, permitindo que os padrões de figuração da personagem sejam desenvolvidos a partir de um fato ou fenômeno exagerado, passível de explicação lógica – “[…] Zé caiu-lhes mesmo a meio dos volteios. Ali ficou cortado em dois, sem conserto, busto para um lado, o resto para o outro” (Carvalho, 1991: 17) –, mas com uma latente anunciação da dúvida e do excesso, próprios do fantástico lato sensu – “O Zé é assim chamado desde que lhe aconteceu aquela infelicidade: quis separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro quando eles se envolveram à facada na esquina dos Elétricos […]. Ambos usavam grandes navalhas sevilhanas…” (17).

(Luciana Silva, “Zé Metade”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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