No ano já distante de 1987, dois jovens estudiosos da Literatura e da Língua (Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes), traziam a público um Dicionário de Narratologia.
O citado livro preencheu decerto uma lacuna importante numa época em que os estudos literários e os estudos linguísticos convergiam na oferta formativa das universidades, partilhando métodos e objetivos. Após ter sido reeditado por várias vezes, em Portugal e no estrangeiro, poderia supor-se que o citado Dicionário tinha cumprido a sua função. De forma algo inesperada, porém, C. Reis (já sem a companhia da colega) decidiu empreender um vasto esforço de renovação e transformação, que se traduz no livro realmente novo que acaba de sair.
É justo destacar, em primeiro lugar, que esta obra resulta de um ato de vontade determinada, que exigiu um trabalho longo, escrupuloso e porfiado, onde confluem investigação ampla e exigente, espírito seletivo e apurado sentido pedagógico.
Redigir cada um dos verbetes que fazem parte deste Dicionário implica conhecimento profundo e atualizado das matérias em causa. Mas exige ainda outros dois requisitos preciosos: rigor e sentido de equilíbrio. Sobre conceitos como analepse, banda desenhada, cinema, identidade, interdisciplinaridade, narrativa digital ou personagem (para citar apenas alguns dos artigos mais extensos que figuram na obra) é bastante mais difícil escrever um artigo de 3 000 caracteres do que um ensaio de 20 000. Nos artigos maiores como nos mais breves, adivinha-se o ideal que norteou o autor: não podia faltar o essencial e não devia subsistir o dispensável.
J. A. Cardoso Bernardes, “Um Dicionário que faltava”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1260, 16 a 29 de janeiro de 2019, pp. 18-19;(continuar a ler)