Loiras ou morenas

O romance fotográfico, também conhecido como fotonovela (designação usual no mundo da língua portuguesa), é um género narrativo multimodal, articulando texto verbal e ilustração fotográfica, em sucessivos fotogramas. Em função dessa articulação, cada fotograma corresponde a uma unidade discreta, isto é, a um momento da história artificialmente fixado; a sequência desses momentos, relacionados entre si, do ponto de vista lógico e cronológico, faz avançar a ação, até se chegar a um desenlace.

Por razões socioculturais que haverá que ter em atenção, o romance fotográfico não atingiu o nível de sofisticação que caracteriza o romance gráfico e também alguma banda desenhada, sendo quase sempre remetido para o campo da chamada paraliteratura. O seu suporte e meio de divulgação foi a revista autónoma (ou seja: cada publicação correspondia a um romance, eventualmente integrando outras secções) ou então a publicação diária ou periódica, em que a história aparecia serializada.

Com uma origem relativamente recente, que alguns autores situam na segunda metade do século XIX, na sequência do aperfeiçoamento da fotografia, o romance fotográfico ganhou considerável projeção em meados do século XX, a partir de Itália. No Brasil e em Portugal, a sua popularidade ocorreu sobretudo entre os anos 50 e os anos 70, em publicações (Capricho, Encanto, Sétimo Céu) que atingiram tiragens de centenas de milhares de exemplares. Em geral, o romance fotográfico dirigia-se a um público feminino não emancipado, que na época tinha acesso escasso ou nulo à televisão; daí que ele tenha sido progressivamente superado pelo surgimento e pela difusão da telenovela e da série, à medida que a televisão se foi tornando acessível. Antes e depois disso, o romance fotográfico exerceu uma função que pode dizer-se de alienação, junto do referido público feminino.

Normalmente, as histórias contadas no romance fotográfico cingem-se à temática sentimental, na linha do chamado romance cor-de-rosa. Vividas por personagens com reduzida densidade psicológica, as histórias de amor que predominam neste género narrativo centram-se em figuras femininas estereotipadas, ainda que registando alguma evolução, no respeitante à sua figuração: “Loiras ou morenas, as mocinhas apresentadas nas fotonovelas são belas e jovens. Vestem-se de forma discreta e elegante. Percebe-se, no final da década de 1960, o uso de roupas mais modernas, moças usando minissaia, maiô, cabelos naturalmente soltos, diferente dos cabelos imóveis pelo laquê e dos vestidos recheados por anáguas das mocinhas dos anos 1950 e início dos anos 1960” (Raquel de Barros Miguel, “As ‘mocinhas heroínas’ das fotonovelas da revista Capricho”, in Estudos Feministas, 24(1), 406, janeiro-abril, 2016, p. 297).

São estas personagens que vivem intrigas quase sempre recheadas de incidentes e de atribulações, mas orientadas para um final feliz, como recompensa da dedicação e a da persistência amorosas. Por isso mesmo, foi possível aproximar o romance fotográfico da hagiografia, por aquilo que nele existe de reconhecimento da bondade e da autenticidade afetiva e moral das personagens; sendo assim, “numa sociedade laicizada o amor puro e para o resto da vida coroa o fim do sofrimento e das purgações. Por isso, o herói ou a heroína demonstra logo de início que possui todas as virtudes beatíficas, mas num sentido laico” (André Luiz Joanilho e Mariângela P. Galli Joanilho, “Sombras literárias: a fotonovela e a produção cultural”. In Revista Brasileira de História, v. 28, nº 56, 2008, p. 540).

(Extrato de “Romance fotográfico”, in Dicionário de Estudos Narrativos; a publicar)

 

Anúncios

3 comentários

Filed under Romance fotográfico

3 responses to “Loiras ou morenas

  1. Recordo um inigualável sucesso da década de 70 no designado género folhetinesco radiofónico: Simplesmente Maria.
    A vitalidade desta intriga ditou que evoluísse do formato radionovela para a fotonovela, em revista independente, e daí para o cinema, dando rosto e forma física às personagens até então só reconhecíveis pela voz. Porém, a imagem revelou o que a sonoridade escondia: as coordenadas culturais patentes na arquitetura, espaços, objetos e nomes das “estrelas” na fotonovela eram espanholas e não correspondiam às vozes bem portuguesas, o que em nada restringiu a identificação pelos ouvintes-leitores-espetadores da correspondência essencial à manutenção da “crença ” numa realidade ficcional única.
    Não obstante a falta de originalidade da intriga, perfeitamente inscrita no género hagiográfico enunciado ( a jovem simples e ingénua, seduzida e abandonada grávida, que procura na grande cidade, como costureirinha de bairro, uma oportunidade de resgate), num Portugal rural, cultural, social e intelectualmente manietado pelo Estado Novo (estávamos, então, em 1973), Maria representou um novo e inspirador modelo feminino. Independente e determinada, esta mãe solteira acabou por atingir o sucesso como designer e empresária na esfera da alta costura, apesar de confrontada com os dramas de uma vida familiar conturbada.
    A adaptação ao cinema pôs terminus à saga, juntando texto a novos rostos e outras vozes
    Numa época em que a rádio começava a ceder à televisão, Simplesmente Maria foi o último grande marco do romance para ouvintes.

  2. Maria Alcina do Carmo Dias

    A leitura na escrita límpida deste artigo, transporta-me ao Portugal rural nos primórdios da década de setenta que conheci na minha infância. Guardo a memória ténue da leitura absorta, quiçá prazerosa das tias (ao domingo, incontornável dia de descanso), da troca das revistas com outras raparigas. Vários anos mais tarde, já adulta, quis o acaso que encontrasse várias delas esquecidas num armário, com as indeléveis marcas da passagem do tempo. Motivada pela memória de menina, prestei-lhes na altura alguma atenção.
    Não possuo elementos estatísticos suscetíveis de fundamentar o que aqui escrevo. Trata-se pois de “opinião” que me atrevo a escrever. Todavia, provavelmente o que acontecia nesta aldeia, não terá sido muito diferente do que ocorria noutros recantos do Portugal rural de então. As preciosas revistas constituíam o único acesso à palavra escrita, depois do abandono das cadeiras de madeira, concluída a 4ª classe. Sem televisão, e o que a minha memória retém, aquela leitura de devaneio constituía a suspensão na rotina do quotidiano, consagrava o domingo como rotura semanal, alimentavam algumas pequenas cumplicidades entre raparigas casadoiras. Ao ler algumas das suas passagens, com a distância que a idade e a instrução me conferem, atrevo-me a escrever que elas terão contribuído para delinear o imaginário feminino, alimentar sonhos amorosos, a perspetivar o casamento a que todas estavam destinadas para se ‘arrumarem’ e ‘não ficarem encalhadas’, como algo com mais do que arrumação da casa ou o cuidar os filhos.
    Na sua modéstia, o romance fotografado será talvez um dos traços do retrato de um viver e pensar feminino de uma época, de um país …

    Mª Alcina C. Dias

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s