Figuração da baiana

Na introdução de Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom (Vanderbilt University Press),   Kathryn Bishop-Sánchez  escreve: “Este é um livro acerca da criação, da interpretação e da imitação da imagem de Carmen Miranda, tal como foi filtrada, primeiro pela sociedade brasileira dos anos 30, depois por Broadway e Hollywood, do fim dos anos 30 até meados dos anos 50 e também acerca da importância social, política e cultural deste ícone de Hollywood, que suscita interesse até aos nossos dias” (p.  2).

O livro Carmen Miranda. Race, Camp, and Transnational Stardom não é uma biografia, no sentido convencional do termo. O que aqui está em causa é a construção de uma personagem que emana de um trajeto de vida singular: do nascimento português (em Marco de Canavezes) ao estrelato em Hollywood, a imagem de Carmen Miranda foi sendo construída pela articulação de dispositivos que dela fizeram uma figura. Ou seja, uma espécie de persona, motivada e modelada pela retórica mediática do seu tempo: a rádio e o cinema, como contextos de representação do espetáculo musical e da performance coreográfica.  E também a televisão, ainda em afirmação nos anos 50 e dependendo em vários aspetos dos discursos daqueles media. Curiosamente, foi para um programa de televisão, o então famoso Jimmy Durante Show, que a artista filmou a sua última atuação, poucas horas antes de morrer.

Nos seis capítulos do livro de Kathryn Bishop-Sánchez (mais uma conclusão), podemos ler a análise minuciosa da figuração da baiana, como imagem de marca que confina e mesmo se conjuga com dois outros sentidos: o da raça (“Miranda and Afro-Brazilianness on the Carioca Stage of the 1930s”) e o do exótico. Foi sobretudo neste último que se apoiou a “exportação” de Miranda para o cenário mediático norte-americano, uma opção artística recebida com reticências  pela consciência crítica brasileira, que recusava o estereótipo da baiana e os  atavios da sua indumentária garrida.

O capítulo central do livro de Bishop-Sánchez é consagrado à chamada estética camp. Em geral, a performance de Carmen Miranda constitui um terreno fértil para uma reflexão  centrada naquilo que um ensaio clássico de Susan Sontag identificou como os procedimentos camp: a  hipertrofia, a ostentação, a teatralidade provocatória  e  a artificial deformação de comportamentos, em confronto com o equilíbrio do chamado gosto prevalecente. É nesse domínio que se situa a figuração de Carmen Miranda, ilustrada por documentos iconográficos muito expressivos. Em função dessa figuração, compreende-se a sobrevida de Carmen Miranda; nesse sentido, a sua figura permanece ativa, em derivas e em imitações que permitem falar não apenas na sua condição de ícone, mas também no legado que ela inspirou.

carmen-e-outros

 

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2 responses to “Figuração da baiana

  1. Pensando bem, creio que a construção da figura da baiana faz-se de uma forma ainda mais complexa, a dois níveis: num primeiro estádio, Carmen Miranda foi desconstruída enquanto jovem portuguesa proveniente de uma ruralidade profunda num país europeu marginal (em termos geo-politico, económico e cultural), afirmando-se como atriz brasileira metropolitana; num segundo momento, essa construção foi legitimada pela aceitação “universal”, via máquina e público de Hollywood, da representação excêntrica da baiana – criação muito livre, estereotipada e teatralizada da antiga escrava africana, produto complexo do sincretismo de culturas.
    Carmen Miranda – a construção de um mito.

  2. Maria Alcina do Carmo Dias

    Carmen Miranda é uma’ figura’, uma sobrevida para a qual a sua «imagem» verteu uma importância não negligenciável. Pretexto para uma pequena indagação: que contributos dá a imagem para o desenho do nosso imaginário, do nosso ideário coletivo?
    A imagem traz imbuída uma certa interpretação do mundo ou da vida, na multiplicidade de sentidos que alberga-interpretação mas não conhecimento, pois só a narrativa o permite com a fundamentação que aquele exige. Todavia, a imagem insinua, pode influenciar os contornos e a determinação das nossas exigências para com a realidade.
    Carmem Miranda como imagem garrida, exótica, exuberante, ‘rompe’ – a baiana de pele branca e origem europeia, faz a referência a uma personagem negra e mulher enquanto ícone nacional; os turbantes em perfusão de cor, de onde pendem bananas, putativo modelo e referência de travestis pelo mundo inteiro.Com Carmen temos a descontinuidade do ver…
    Porventura retrato do “Camp”, termo empregue por Susan Sontag num ensaio de 1964. Afirma a ensaísta que o “Camp” transforma o sério em frívolo, tem predileção pelo artifício, pela teatralidade, primazia a estética sobre a moralidade, a ironia sobre a tragédia, é uma maneira de ver o mundo descomprometida, despolitizada. Carmen Miranda como ícone da cultura de massas que foi, não será alheia a estes traços.
    Carmen e a ficção… Não podemos possuir a realidade, não podemos desvendá-la na integra,na sua incomensurável complexidade e mistério. A ficção será uma forma de nos apropriarmos dela, quiçá uma pegada para chegarmos à sua verdade….

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