Dotado de conformação bem singular é aquele outro herói em quem dialeticamente logo pensamos, quando descrevi a singeleza infantil de Lionel Messi. Trata-se do “irmão desavindo” Cristiano Ronaldo. Digo-o nestes termos por saber que o motivo do irmão desavindo (…), como o motivo do rival inconciliável, são ambos tão antigos como os relatos fundacionais da civilização judaico-cristã e as narrativas identitárias da Antiguidade Clássica, matrizes de um imaginário de que se alimentam também as narrativas mediáticas do fenómeno desportivo. Caim e Abel, Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, num outro plano que é o da rivalidade dos heróis, David e Golias, Aquiles e Heitor, Artur e Lancelote não seriam heróis sem a conflitualidade às vezes fratricida que expressa a diferença e acentua a energia vital que caracteriza o comportamento heroico. Em tudo distinto de Messi, o herói Cristiano Ronaldo é filho da mesma mãe mediática, mas é moldado por uma figuração paraficcional própria. Expressa-se essa figuração na exuberante musculação e na gestualidade de guerreiro Matrix que se exibe na arena mediática. Antes disso, está uma proclamada e assumida metodologia do treino com requintes científicos, tudo desembocando numa imagem cuja dimensão humana é quase residual. Com o apoio de gráficos, de estatísticas e de iconografia computorizada, o herói está feito um robot, com designação de marca a condizer: CR7. Trata-se agora de uma espécie de organismo cibernético, cuja sofisticada agressividade se traduz em imagens verbais que os narradores do relato mediático já estereotiparam: Cristiano Ronaldo não marca livres; CR7 dispara mísseis tomahawk. No Brasil, ele perdeu por completo a condição humana: “é a fera”, dizem os comentadores.
Extrato de “The Special One. Fenomenologia do Herói Desportivo“, in Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. Coimbra: Imprensa da Univ. de Coimbra, 2015.
Esta é a recuperação muito oportuna de parte de um texto que me deslumbrou, quando o li pela primeira vez. Adorei relê-lo!
Entretanto, o recente e espantoso desfecho do Euro 2016 reclama novo capítulo. De resto, a narrativa do jogo final parece ter sido concebida por um Homero, ou assim: podem lá ter estado Aquiles e Pátroclo, Nestor, Ajax, calcanhares ou joelhos vulneráveis, mirmidões, deuses, espíritos alados, profecias, almas do outro mundo, gravitas e celeritas. Nem faltou o impagável herói trapalhão (Éder, “cara…”). Nem a abnegação, nem a solidariedade. (Faltavam mulheres, claro – mas no mesmo dia elas estavam todas a ganhar outras taças, noutro prélio, o do atletismo).
O Cyborg CR7 inevitavelmente enferruja? Nada perdido. Ele descobre nova forma de grandeza, aliás mais duradoura: o guerreiro aprende a ser general, e vence na mesma. É uma inusitada atualização daquele “gene egoísta”, do qual Richard Dawkins, numa excelente metanarrativa científica, diz ser capaz do maior altruísmo… só para que a história continue.
Entretanto, o irmão e rival bonzinho retira-se deprimido da Copa América. Lamento: entre o argentino e o madeirense, prefiro este herói. Os revezes sérios dão a Messi a desistência; e, a Ronaldo, a superação.
(E aqui apetecia-me ser Éder, e acabar à Éder este comentário).