A fortuna das personagens e a sua capacidade de sobrevivência, transcendendo o mundo ficcional em que surgem, depende de muitos fatores e assume diversas feições. O romancista Camilo José Cela escreveu, a propósito do seu romance La familia de Pascual Duarte: “Lo que sucede es que el libro, después de nacer, sigue creciendo (…) y evolucionando: en la cabeza de su autor, en la imaginación o en el sentimiento de los lectores y, por descontado, en las páginas de sus ulteriores ediciones”.
Este crescimento do livro (da história contada, entenda-se) atinge sobretudo a personagem, figura fugidia que não raras vezes escapa ao controlo do seu autor. Os testemunhos que o atestam são incontáveis. O que significa que o crescimento, a evolução e a refiguração da personagem – a sua sobrevida, em suma – constitui um desafio que inúmeros relatos enfrentam. O potencial de subversão da personagem revela uma dinâmica acentuada, quando a refiguração que a leva a cabo se dá em contextos, em suportes e por linguagens diferentes da literária. Por exemplo, na ilustração, na televisão, no cinema, na banda desenhada ou no videogame. A personagem é, então, ainda a mesma (porque somos capazes de a reconhecer), mas também já outra.
Estas possibilidades de crescimento levantam várias questões interessantes. Por exemplo: até que ponto o ficcionista pode controlar, caucionar ou interditar a reformulação por outrem de uma história que concebeu e relatou? E onde está (se é que existe) o limite para a refiguração da personagem? De que ordem são os condicionamentos do trabalho de quem retoma e refigura uma personagem de autoria alheia e respeitável? De ordem ética? De natureza estritamente artística? De caráter ideológico? Noutros termos: Blimunda continua a ser Blimunda, se uma ficção (literária, cinematográfica, etc.) lhe retirar a capacidade de ver o interior das pessoas? E o engenheiro Palma Bravo, d’O Delfim, é ainda a mesma personagem, se uma versão televisiva do romance fizer dele um marido modelar? Em ambos os casos, as personagens trazem consigo a marca forte dos ficcionistas que as engendraram. Sendo assim, existe aqui um potencial de conflitualidade, tendo a ver com a propriedade intelectual, conflitualidade que pode acabar num tribunal – agora que os duelos estão um tanto desatualizados…
Por fim (mas só por agora): como equacionamos estas questões, quando a personagem tem autoria desconhecida ou, por um outro ângulo, coletiva? Por exemplo: o Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira ou o Polegarzinho. Seguindo este caminho: é aceitável que um dos sete anões (qual? Inclino-me para o Tímido, no Brasil chamado Dengoso) tenha uma relação amorosa com a Branca de Neve? E como serão os filhos de ambos? Anõezinhos? Morenos? E o Capuchinho Vermelho será uma menina tão inofensiva como parece?


Ao longo dos séculos, a menina Capuchinho Vermelho tem demonstrado diversos níveis de sabedoria… Conforme as refigurações que cada época, anonimamente, lhe atribui, ou quando cada autor, assumidamente, revisita a sua história. Gustave Doré, no séc. XIX, 200 anos mais tarde em relação à publicação dos contos de Perrault, representa a “ingénua” menina bem mais expectante , na cama, ao lado do lobo, do que fizera em relação à avó quando esta vê o lobo. Se Bettelheim problematiza esta figura da ficção, Jack Zipes e Marina Warner abordam a multiplicidade de sentidos de que esta e outras figuras femininas de origem “coletiva” têm sido investidas ao longo dos tempos. Desde a publicação da célebre obra de Zipes, “Fairy Tales and the Art of Subversion: The Classical Genre for Children and the Process of Civilization” e de “From the Beast to the Blond”, de Warner, muitas outras refigurações do Capuchino Vermelho nos têm surgido. A questão mantém-se: cada uma delas terá ainda o direito de usar o nome de Capuchinho Vermelho?… Cada uma delas será um vampiro alimentando-se de alguém que só continua vivo porque lhe sugam o sangue que dá origem a novas vidas?…
Natividade Pires