O Capuchinho Vermelho defende-se (1)

A fortuna das personagens e a sua capacidade de sobrevivência, transcendendo o mundo ficcional em que surgem, depende de muitos fatores e assume diversas feições. O romancista Camilo José Cela escreveu, a propósito do seu romance La familia de Pascual Duarte: “Lo que sucede es que el libro, después de nacer, sigue creciendo (…) y evolucionando: en la cabeza de su autor, en la imaginación o en el sentimiento de los lectores y, por descontado, en las páginas de sus ulteriores ediciones”.

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Capuchinho Vermelho, por Walter Crane

Este crescimento do livro (da história contada, entenda-se) atinge sobretudo a personagem, figura fugidia que não raras vezes escapa ao controlo do seu autor. Os testemunhos que o atestam são incontáveis. O que significa que o crescimento, a evolução e a refiguração da personagem – a sua sobrevida, em suma – constitui um desafio que inúmeros relatos enfrentam. O potencial de subversão da personagem revela uma dinâmica acentuada, quando a refiguração que a leva a cabo se dá em contextos, em suportes e por linguagens diferentes da literária. Por exemplo, na ilustração, na televisão, no cinema, na banda desenhada ou no videogame. A personagem é, então, ainda a mesma (porque somos capazes de a reconhecer), mas também já outra.

Estas possibilidades de crescimento levantam várias questões interessantes. Por exemplo: até que ponto o ficcionista pode controlar, caucionar ou interditar a reformulação por outrem de uma história que concebeu e relatou? E onde está (se é que existe) o limite para a refiguração da personagem? De que ordem são os condicionamentos do trabalho de quem retoma e refigura uma personagem de autoria alheia e respeitável? De ordem ética? De natureza estritamente artística? De caráter ideológico? Noutros termos: Blimunda continua a ser Blimunda, se uma ficção (literária, cinematográfica, etc.) lhe retirar a capacidade de ver o interior das pessoas? E o engenheiro Palma Bravo, d’O Delfim, é ainda a mesma personagem, se uma versão televisiva do romance fizer dele um marido modelar? Em ambos os casos, as personagens trazem consigo a marca forte dos ficcionistas que as engendraram. Sendo assim, existe aqui um potencial de conflitualidade, tendo a ver com a propriedade intelectual, conflitualidade que pode acabar num tribunal – agora que os duelos estão um tanto desatualizados…

Por fim (mas só por agora): como equacionamos estas questões, quando a personagem tem autoria desconhecida ou, por um outro ângulo, coletiva? Por exemplo: o Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira ou o Polegarzinho. Seguindo este caminho: é aceitável que um dos sete anões (qual? Inclino-me para o Tímido, no Brasil chamado Dengoso) tenha uma relação amorosa com a Branca de Neve? E como serão os filhos de ambos? Anõezinhos? Morenos? E o Capuchinho Vermelho será uma menina tão inofensiva como parece?

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

Branca de Neve e os Sete Anões; Walt Disney, 1937

1 Comentário

Filed under Refiguração, Sobrevida

One response to “O Capuchinho Vermelho defende-se (1)

  1. Ao longo dos séculos, a menina Capuchinho Vermelho tem demonstrado diversos níveis de sabedoria… Conforme as refigurações que cada época, anonimamente, lhe atribui, ou quando cada autor, assumidamente, revisita a sua história. Gustave Doré, no séc. XIX, 200 anos mais tarde em relação à publicação dos contos de Perrault, representa a “ingénua” menina bem mais expectante , na cama, ao lado do lobo, do que fizera em relação à avó quando esta vê o lobo. Se Bettelheim problematiza esta figura da ficção, Jack Zipes e Marina Warner abordam a multiplicidade de sentidos de que esta e outras figuras femininas de origem “coletiva” têm sido investidas ao longo dos tempos. Desde a publicação da célebre obra de Zipes, “Fairy Tales and the Art of Subversion: The Classical Genre for Children and the Process of Civilization” e de “From the Beast to the Blond”, de Warner, muitas outras refigurações do Capuchino Vermelho nos têm surgido. A questão mantém-se: cada uma delas terá ainda o direito de usar o nome de Capuchinho Vermelho?… Cada uma delas será um vampiro alimentando-se de alguém que só continua vivo porque lhe sugam o sangue que dá origem a novas vidas?…
    Natividade Pires

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