A personagem torguiana

Conforme geralmente é reconhecido, a obra de Torga tem no conto um dos seus componentes mais destacados, talvez até aquele que por mais tempo há de sobreviver na memória da história literária: é a eles que têm sido consagrados numerosos ensaios (…). Ainda que de forma indireta, os temas, os cenários e as personagens dos contos torguianos (Pão Ázimo, 1931; A Terceira Voz, 1934; Contos da Montanha, 1941; Rua, 1942; Novos Contos da Montanha, 1944; Pedras Lavradas, 1951) têm muito da vivência pessoal que é o fulcro do (…) “espaço autobiográfico”: é sobretudo a terra transmontana que nos contos está representada, terra rude e simples, mas também carregada de energia vital e atravessada por valores, por virtudes e por fraquezas primordiais e por aquela genuína dimensão humana que as personagens protagonizam, quando conhecem a experiência da morte, as pulsões da sexualidade ou a renovação da natureza. É assim, mesmo quando as personagens têm a feição de animais, como em Bichos (1940), título em geral considerado marco cimeiro da contística torguiana; do ponto de vista técnico distingue-se essa contística por uma agilidade narrativa e por uma singeleza de processos que dizem bem da vocação torguiana para este difícil género, cuja presença difusa já foi rastreada mesmo nas páginas do Diário (…).

(C. Reis e A. Apolinário Lourenço, História Crítica da Literatura Portuguesa. O Modernismo. Lisboa: Verbo, 2015, pp. 370-371)

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1 Comentário

Filed under Miguel Torga

One response to “A personagem torguiana

  1. Maria Alcina do Carmo Dias

    O meu conhecimento sobre Miguel Torga pauta-se pela superficialidade, tão vasta e diversificada é a obra deste autor . Espero que o tempo e o auxílio de obras como esta possam colmatar esta ausência, e como tal, se agradece aqui a sua publicação. Descobrimos, pensamos uns com os outros, pelo menos com alguns.
    Porquê voltar a ler o escritor transmontano e levar essa leitura mais longe? Nele há o cuidado pela língua através da qual reflectimos, deciframos a realidade; há a inquietude do espírito que conduz, entre outros aspectos, ao zelo permanente para com a liberdade que se colhe nas suas páginas, assunto de sempre e primordial, acerca do qual o saber que orienta a sua vivência não está esgotado; linhas sobre o sofrimento de bichos e homens, traço comum da existência, essa arca de Noé onde todos navegamos. Sobretudo, a paixão pela vida, como tão cabalmente exprime quando escreve no seu Diário (1982) “Nascer todas as manhãs”.
    São poucas razões, haverá muitas mais. Serão contudo algumas para não ignorar Miguel Torga.

    Este pequeno comentário é escrito em 31/12.Momento para desejar que 2016 chegue com a promessa de continuidade de sucesso na vida pessoal e profissional, com tudo o que lhe for essencial.
    Maria Alcina

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