Blimunda: transcriação mitificadora

Sete Sóis, Sete-Luas, por J. Santa-Bárbara

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Indivíduos, dos quais se dizia terem poderes semelhantes [aos de Blimunda], e que não tinham a sorte de se encontrar sob proteção régia, foram normalmente perseguidos pelo Santo Ofício, o que, curiosamente, não acontecia com Dorotheia Maria Roza [Mme Pedegache]. A Descrição da Cidade de Lisboa refere ainda como perde a “sua singular faculdade” nas mudanças de quarto de lua (apud Chaves 1984: 48), oferecendo um outro paralelismo com Blimunda. No seu livro Amusement periodique (1751), o escritor Francisco Xavier de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira, um crítico da religião e dos costumes do seu tempo, cuja efígie foi queimada num dos últimos auto de fé que se celebraram em Portugal, afirma ter conhecido pessoalmente essa mulher e ter presenciado algumas das suas façanhas (apud Caragea 2003: 110).

A figura de Blimunda representa, assim, uma transcriação mitificadora de uma mulher portuguesa real do século XVIII, cuja fama se estendera rapidamente por toda a Europa. Saramago nem sequer precisava de sincretizar as fontes, uma vez que estes, na sua grande maioria, coincidem até nos detalhes (cf Caragea 2003). Também o enorme interesse científico (cf Bach 1810: 205) e parapsicológico (cf [Anónimo] 1845: 197), que a Mme Pedegache suscitou ao longo dos séculos XVIII e XIX, favoreceu a construção da personagem, uma vez que confirma a sua polivalência como figura tanto histórica como também paranormal ou sobrenatural.

B. Baltrusch, “Mulher e utopia em José Saramago – a representação de Blimunda em Memorial do Convento”, in B. Baltrusch (ed.), “O que transforma o mundo é a necessidade e não a utopia”. Estudos sobre utopia e ficção em José Saramago. Berlin: Frank &Timme, 2014, p. 161.

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1 Comentário

Filed under Blimunda, José Saramago

One response to “Blimunda: transcriação mitificadora

  1. Cristina Vieira

    Interessantíssimo, e mais uma prova da necessidade e não utopia dos estudos literários e das humanidades em geral num mundo que tende para considerar apenas necessários os estudos da dita “ciência exacta”, paradigma este também ultrapassado pelo menos desde Einstein.

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