Personagem feminina em Mia Couto

A obra contística de Mia Couto representa uma mundividência específica africana, mais concretamente moçambicana, cujos valores se reportam a uma universalidade incontestável. A importância e o estatuto que este 774405autor alcançou dentro e fora do mundo da lusofonia transformaram-no num autor de relevo que em tudo dignifica as literaturas africanas e a língua portuguesa.

Na presente dissertação procurámos refletir acerca da importância do conto na obra deste autor, bem como nos recursos de que se serve para apresentar uma obra que, não traindo as raízes moçambicanas a partir das quais nasceu, procura a universalidade na transmissão de valores que permitam construir uma nova ordem política, social e moral.

Os contos de Mia Couto reúnem singularidades que os tornam veículos privilegiados de mensagens fortes e consistentes recorrendo a enredos simples, mas surpreendentes; com personagens aparentemente pouco caracterizadas, contudo marcantes; em espaços essencialmente rurais; num tempo que pode ser de guerra ou de paz, de alegria ou de sofrimento, mas onde a apetência pelo fantástico e a aproximação ao realismo mágico se aglutinam para dar origem a uma nova realidade em que a esperança e a vida se sobrepõem à dor e à morte.

As personagens femininas afirmam-se pela própria frequência com que aparecem nesta obra contística e pelos contornos que as definem. Sejam planas, tipificadas ou com laivos de personagens modeladas, elas marcam o seu espaço na diegese pelas funções que assumem, pelo seu discurso, bem como pelas atitudes que tomam. Com efeito, elas são as vítimas privilegiadas das contradições e injustiças da sociedade colonial e pós-colonial, por isso, não raro, estas personagens aparecem divididas entre a submissão e os primeiros raios de rebeldia, assim como entre a tradição e a modernidade.

Em comum com as mulheres moçambicanas, as personagens dos contos do escritor moçambicano Mia Couto partilham a imensa coragem de sofrer a sua sorte. Procuram ultrapassar todas as contrariedades que oprimem a sua individualidade, sem, contudo, renegar o seu enraizamento em valores gregários e comunitários. Transparecem várias qualidades que as elevam do mundo concreto em que vivem, para tal recorrem ao domínio da oralidade e das estórias, refugiam-se nas crenças ou transportam-se para uma dimensão onírica que lhes permite evadirem-se de uma realidade que lhes é profundamente adversa.

Em suma, a obra contística de Mia Couto faz uso das linhas contemporâneas de escrita seguidas por outros autores, revelando uma opção, ainda que possivelmente marcada no tempo, pelo conto, o que lhe permite exaltar o universo da oralidade, refletindo o imaginário e as tradições das culturas ancestrais e míticas, recusando um mundo estereotipado em que as questões de género se sobrepõem às opções individuais e à dignidade humana.

(Maria Teresa Nobre Correia, A Personagem Feminina nos Contos de Mia Couto. Covilhã: UBI, 2013, pp. 15-16)

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1 Comentário

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One response to “Personagem feminina em Mia Couto

  1. Cristina Vieira

    Eis um ensaio que conheço bem e cuja leitura recomendo por múltiplas razões que a obra deixa transparecer. Obrigada ao Doutor Carlos Reis por tal divulgação.

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