O olhar da personagem

A incorporação, na escrita literária (e, no caso que mais me importa, na escrita das narrativas ficcionais), de linguagens digitais funcionando em ambiente eletrónico procura superar as construções espaciais que a ficção oitocentista estabeleceu, como um exterior que se impunha à narrativa, nesse que era um tempo de fulgor do grande género narrativo da literatura ocidental que foi (e é) o romance.

digitalizar0024           Assim, para Balzac (e para Dickens e Flaubert e Machado de Assis e Clarín e Tolstoi e muitos outros), o espaço foi uma categoria narrativa com fronteiras e com funções relativamente claras, na economia da história contada. O olhar de Rastignac (e o de todos os seus semelhantes, que povoavam os romances de então) tratava de captar, sob o signo da verosimilhança, aquilo que a perceção humana podia abarcar, sobretudo no plano visual; nesse processo, o relato estava obrigada a uma “transparência” e a uma eficácia semiótica aparentemente incompatíveis com outros tratamentos de uma categoria narrativa então relativamente estável.

O espaço que a personagem observava só poderia dinamizar-se e tornar-se semanticamente relevante, na medida em que o olhar da figura ficcional nele investisse as emoções, as volições e os valores que um romance entendido como instrumento de reforma de costumes podia comportar. E em muitos casos assim aconteceu, de facto. Por isso, Paris não é só uma reconstrução ficcional de Balzac, como é também uma vivência de Eugène Rastignac; a Lisboa revista por Carlos da Maia em 1887, dez anos depois de ter partido, é uma parte dele e do seu drama pessoal, mais do que de Eça; e a cidade de Vetusta (essa em que reconhecemos a Oviedo da segunda metade do século XIX) começa por ser sobretudo um efeito emocional do olhar que o calculista Don Fermín de Pas lança sobre ela, do campanário da catedral. Também esses são, por fim, lugares textualizados, porque na superfície do relato ficam as marcas indeléveis de uma visão do espaço que sem essa textualização não teria qualquer significado, nem seria preservada pela nossa memória de leitura.

 (Extrato de “Textualização do espaço e espacialização do texto”, in Revista da Universidade de Aveiro – Letras, nº 2 (II série), 2013-14, pp. 105-118).

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“Rastignac (…) vit Paris tourtueusement couché le long des deux rives de la Seine (…)” (Balzac, Le Père Goriot)

 

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