De todas as figuras que, a espaços e quase sempre de forma fugidia, perpassam no Livro do Desassossego, aquela que maior nitidez apresenta é a do patrão Vasques, quase uma personagem do romance que Bernardo Soares não compõe. Essa nitidez não é tributo de subordinado (Vasques é o patrão); ela impõe-se-nos porque o olhar de Bernardo Soares percebe no chefe dimensões simbólicas que são o efeito de impressões gradualmente acumuladas.
Por três vezes (por três tentativas), inicia-se o que poderá vir a ser um retrato de personagem. Assim: “O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques”. No parágrafo seguinte: “O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então.” Só no terceiro parágrafo, superada a deriva digressiva dos dois parágrafos anteriores, o patrão Vasques ganha o recorte físico e psicológico que faz dele uma personagem em potência, com corpo, atitudes e emoções. Cito: “O patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo – estatura média, atarracado, grosseiro com limites e afeições, franco e astuto, brusco e afável – chefe, à parte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos músculos coloridos, o pescoço cheio mas não gordo, as faces coradas e ao mesmo tempo tensas, sob a barba escura sempre feita a horas.”
Repare-se: “Vejo de lá hoje [este lá é o futuro], como o vejo hoje de aqui mesmo”. Qualquer que seja o tempo a ser vivido, o que importa é isto: “vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico (…)”. Indo um pouco mais longe, digo que também Soares vê como um danado, modo de ser e de perceber o mundo que vem de Alberto Caeiro. Só que, para Caeiro, ver como um danado é um ato situado no aqui e no agora de um mundo rural, sem passado nem futuro e desinteressado de alcançar aquele significado metafísico que o poeta da inocência pagã abomina (recordo: “O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum.”)

