Heróis

Num mundo em que as narrativas mediáticas às vezes são exibição de si mesmas, não passamos sem heróis, porque sem eles não há espetáculo e nem negócio, é claro. Na idade do digital e da informação em rede, com a celeridade e com a leveza, com a exatidão, com a visibilidade e com a multiplicidade que são suas propriedades estruturantes (Calvino dixit), nessa idade nova mas já nossa que é o século XXI, o espaço do jogo excedeu os limites físicos do campo de futebol, do court de ténis ou da piscina olímpica. Indo além da televisão de alcance planetário, a cena de afirmação dos heróis do desporto, hoje em dia, é sobretudo um ciberespaço, ou seja, um “espaço de comunicação aberto pela interconexão dos computadores e das memórias dos computadores” (Pierre Lévy, Cibercultura. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2007, p. 92).
Nesse novo cenário, os jogos são cada vez mais videogames e talvez até passe por aí o futuro da narrativa. Desenvolve-se nos Messivideogames, segundo os especialistas na matéria, uma narratividade reelaborada pelas potencialidades do digital e da interatividade; trata-se agora de um jogo radicalmente virtual que podemos jogar em qualquer lugar e em qualquer momento, com a suave ilusão de sermos também os seus agentes e os seus protagonistas: nos videogames escolhemos os jogadores, determinamos as dimensões do campo, decidimos as condições atmosféricas. Nessa dimensão do digital refiguram-se novos heróis; e não foi por acaso, que, na noite de 5 de abril de 2010, depois de uma derrota pesada perante um Barcelona regido por um génio do futebol moderno, herói à sua maneira e marcador, nesse jogo, de quatro golos, o treinador do Arsenal, Arsène Wenger, declarou: “Messi é um jogador de PlayStation”.
Foi bem assim. E todavia, quem se lembra desse jogo e de tudo o que dele fez um espetáculo memorável (espetáculo de televisão, bem entendido), recorda-se das suas últimas imagens, vistas por quem estava em casa mas não certamente pela esmagadora maioria dos que estavam no estádio: as imagens são as de Messi saindo do relvado, levando a bola debaixo do braço, com a alegria de uma criança que, depois de uma peladinha com amigos, regressa a casa, suado e feliz, como um deus descido à Terra. Aquele deus “tornado outra vez menino”, diria Alberto Caeiro, é agora um ser humano, tal como as crianças que, cansadas de brincar, “limpavam o suor da testa quente/com a manga do bibe riscado” (outra vez Caeiro). Ou seja: desligada a PlayStation, o herói virtual refez-se pessoa normal, jovem discreto sem brincos, tatuagens ou gel no cabelo. Uma espécie de anti-herói fora do campo.

Infografia de Carlos Esteves

Infografia de Carlos Esteves

Por oposição, aludo a um outro herói, esse em quem dialeticamente estava já a pensar, quando descrevi a singeleza infantil de Lionel Messi. Trata-se do “irmão desavindo” Cristiano Ronaldo; e digo-o nestes termos por saber que o motivo do irmão desavindo, como o motivo do rival inconciliável, são ambos tão antigos como os relatos fundacionais da civilização judaico-cristã e como as narrativas identitárias da Antiguidade Clássica, matrizes de um imaginário de que se alimentam também as narrativas mediáticas do fenómeno desportivo. Caim e Abel, Esaú e Jacob, Rómulo e Remo, num outro plano que é o da rivalidade dos heróis, David e Golias, Aquiles e Heitor,Robocp Artur e Lancelote não seriam heróis sem a conflitualidade às vezes fratricida que expressa a diferença e acentua a energia vital que caracteriza o comportamento heroico. Em tudo distinto de Messi, o herói Cristiano Ronaldo é filho da mesma mãe mediática, mas é moldado por uma figuração paraficcional própria. Expressa-se essa figuração na exuberante musculação e na gestualidade de guerreiro Matrix exibidas na arena mediática, tudo desembocando numa imagem cuja dimensão humana é quase residual. Com o apoio de gráficos, estatísticas e iconografia computorizada, o herói está feito um robot, com designação a condizer: CR7. Trata-se agora de uma espécie de organismo cibernético, cuja sofisticada agressividade se traduz em imagens verbais que o relato mediático cultiva: Cristiano Ronaldo não marca livres; CR7 dispara mísseis tomahawk.

(Excerto de “The Special One. Fenomenologia do herói desportivo”, in Comunicação & Educação, ano XVIII, 2, pp. 63-74; publicado em Figuras da Ficção a 23 de abril de 2013)

 

5 comentários

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5 responses to “Heróis

  1. Graça Trindade

    Muito interessante!

  2. Cristina Vieira

    Está agora explicado porque não gosto particularmente de futebol: soa demasiado a guerra e a cibernética, duas áreas em que o homem sai a perder. Mas o facto é que este herói playstation sublima um “eu” escondido desejoso de disparar “mísseis tomahawk”: e os “leitores” destes novos heróis não são apenas masculinos! Quem quer ser Tomb Ryder?

  3. cristina mello

    Gostei muito. A conferência que fez o Joaquim Ramos de Carvalho, na segunda-feira, na Jornada de Educação, na FLUC, foi convergente com este texto, designadamente no uso de noções similares. A cibercultura veio para ficar! No contexto educativo, como assinalou o JRC, o uso das ferramentas digitais não dispensa a mediação docente.

  4. Paula Lago

    Energia vital e transfiguração cibernética, a volátil hybris pós-moderna. Apagar-se-á Messi mais cedo: não suporta a cartoonificação.

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