No caso de José Santa-Bárbara leitor de Saramago e pintor de personagens com origem em figuras históricas (D. João V, Bartolomeu Lourenço), é a História que se liberta uma segunda vez; estão agora em causa outros processos de figuração (ou melhor: de refiguração), conduzindo a efeitos de leitura não obrigatoriamente coincidentes com aqueles que o romance suscitou, ainda que possa dizer-se (mas não entro nessa análise) que ideologicamente o pintor acompanha o escritor. Libertas não em duplo, como diria Pessoa, mas em múltiplas figuras (porque múltiplas podem ser as figurações subsequentes ao romance), as personagens de Saramago vão ganhando aquela sobrevida a que, num outro plano de análise, chamamos transcendência.
Por fim e ao contrário do que parece, não é exatamente da morte da personagem que nos falam as últimas linhas do Memorial do Convento, mas sim da sobrevida que ela reclama. Recordo esse extraordinário final: depois de ter, por longo tempo, procurado Baltasar Sete-Sóis, Blimunda reconhece-o, estranhamente rejuvenescido e pronto para outra existência, entre os onze supliciados de um auto-de-fé. Cito: “Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo”. É então que Blimunda chama aquela “nuvem fechada que está no centro do seu corpo” e que se chama vontade. “Vem”, diz Blimunda; “desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda”. A ela e a quantos acreditam que há uma vida outra para as figuras de ficção, revelada nas leituras e nas decorrentes refigurações que delas fazemos, a partir daquela vida primeira que transitoriamente lhes foi dada pelo ficcionista.
Carlos Reis, “Para uma leitura da figuração em José Saramago” (extrato), conferência no ciclo “Literatura Portuguesa, Leituras do Século XXI”, no Instituto de Estudos Adriano Moreira/Academia das Ciências de Lisboa, dia 5.1.2015, às 17 horas).