José Saramago e a sobrevida das personagens

Memorial do Convento não se apresenta ao leitor como um monumento linguístico disponível para mera contemplação ou para exibição de um autor mais ou menos fossilizado na escrita. O leitor que a obra convoca descobre-se ativamente envolvido num ato comunicativo de construção ficcional; os seus pensamentos, reações ou discursos encontram lugar no mundo possível do texto. Através de atos cognitivos que apreendem e processam diversos aspetos da construção da personagem, o leitor procura a correspondência desta com os seus modelos de conhecimento do mundo empírico. O significativo potencial semântico das personagens selecionadas promove frequentemente novas leituras, que universalizam o seu sentido e que se concretizam na transcodificação da personagem noutras linguagens e noutros suportes, noutros media. (…)

No atual contexto de exploração da transmedialidade narrativa, a obra de Saramago, com a sua permanente reclamação da presença operante do leitor, vê-se interpelada ao diálogo com outras artes, através de recriações, remediações e adaptações a outras linguagens estéticas como o teatro, a música e, como salientamos, a pintura. É por via dessa intermedialidade, sempre problematizadora, que as personagens de Memorial do Convento têm conhecido frequentes migrações, algumas de transposição ontológica significativa, o que lhes permite emergir em novos espaços para além do texto que as configurou. A sobrevida das figuras saramaguianas é a consumação daquilo que o próprio Saramago desejava: a conservação da sua memória (delas e certamente de si) – “ao menos deixamos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais”; “Se estamos falando dele, nasce…”

Pretendemos, deste modo, corroborar que “a obra literária ‘vive’ na medida em que atinge a sua expressão numa multiplicidade de concretizações” (Roman Ingarden), assim como esperamos contribuir para preservar essa vida, pois “esquecer é a morte definitiva e se lográssemos não esquecer, embora saibamos que não é possível guardar tudo na memória, isso será prolongar a vida e os nomes das pessoas, dotá-las de outra existência. Talvez, ao fim e ao cabo, seja essa a tarefa mais importante do escritor de ficções” (José Saramago) e do leitor de ficções também.

(Júlia Figueiredo, A Figuração das Personagens de Memorial do Convento.

Dissertação de mestrado. Coimbra: FLUC, 2014, pp. 8-9).

 digitalizar0023

1 Comentário

Filed under José Santa-Bárbara, José Saramago, Sobrevida

One response to “José Saramago e a sobrevida das personagens

  1. Trata-se de um espaço científico e cultural do maior interesse. Muito obrigado professor Dr. Carlos Reis por nos proporcionar “a aventura” e a ventura de consultarmos artigos dos maiores especialistas, estudiosos e investigadores da Literatura.

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