A minha intervenção no II Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional [28 a 30 de abril de 2014] parte de reflexões anteriores, agora desenvolvidas com rumo próprio. As bases de trabalho e os parâmetros aqui adotados serão os seguintes:
- A investigação levada a cabo no âmbito do projeto “Figuras da Ficção” (Centro de Literatura Portuguesa/FCT). Destacam-se nela, com relevância para a presente proposta, os conceitos de figura e de figuração. Estas são noções que, revelando um potencial de ponderação teórica considerável, estarão implícitas no decurso da presente intervenção.
- O investimento em conceitos correlatos, diretamente motivados pela problemática do insólito. Nesse quadro, ganha importância própria a noção de ficção do insólito.
- Um dos princípios adquiridos na conferência “Figurações do insólito em contexto ficcional” (I Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional). Segundo esse princípio, é pertinente falar no insólito em confronto com a ficção a que chamamos realista. Para ser adequadamente descrito, esse insólito deve ser observado tendo-se em atenção a lógica do realismo e mesmo, de certa forma, a necessidade de se agir contra essa lógica. Penso aqui sobretudo na personagem, como categoria central do processo realista; e acrescento que o destaque concedido a essa categoria levará a equacionar a noção de típico e a categoria do tipo.
- O princípio segundo o qual o insólito literário se manifesta contextualmente. Ou seja: o romantismo, o barroco, o realismo ou o surrealismo definem-se como contextos periodológicos que explicam diversas manifestações de insólito. Isto significa, noutros termos, que importa analisar o insólito, tendo-se em atenção a sua condição histórica, bem como os reajustamentos que ele sofre, em função de mudanças contextuais projetadas na evolução literária.
Ainda que orientando-se para casos específicos e para a categoria da personagem literária, a abordagem do insólito faz-se num arco discursivo amplo, sendo muito produtiva a tomada de consciência dessa amplidão. Naquele arco, é possível assinalar aspetos e práticas muito distintas. As que a seguir se indicam são meramente ilustrativas, mas devem ser trazidas a esta análise.
Chamo a atenção, antes de mais, para aquilo que designo como a dimensão do idioma. Essa dimensão permite apreciar uma semântica do insólito que opera em função de mutações que ocorrem no interior de cada língua e dos seus lentos movimentos históricos. Julgo ser particularmente expressivo evocar aqui o que ocorreu e ocorre no português e no espanhol, pelo facto de se tratar de dois idiomas cuja geografia e cuja história registam algumas afinidades importantes. E contudo, enquanto em português o termo insólito e os seus cognatos foram remetidos para uma zona linguística relativamente rarefeita, em espanhol, o vocábulo pertence a uma “família” que tem curso na linguagem de uso corrente.